Roupas também são uma forma de opressão
Saturday, June 27th, 2009 | corpo, direitos | 47 Comentários
Existe uma coisa que eu sempre comento com amigas/os e alunas/os: mulheres são tão seres de segunda categoria em nossa sociedade que são tratadas como propriedade de um homem o tempo todo.
Em nossa cultura, como até 50 anos atrás as mulheres estavam juridicamente vinculadas ao pai ou ao marido, era nítida a questão da mulher como propriedade masculina. Não só o direito consagrava tal status, mas também as religiões, e as convenções sociais.
A lei mudou (hoje vige a igualdade entre os sexos), mas as questões culturais e religiosas continuam presas aos moldes antigos, mantendo uma espécie de acordo tácito: mulheres são propriedade de um homem, e um homem de respeito não deve se meter na propriedade alheia.
Pra isso, é necessário um código que defina a propriedade. Alianças de casamento (que só recentemente passaram a ser usadas por homens também), tratamento cerimonioso com colegas do sexo feminino que sabidamente sejam casadas ou comprometidas, “brincadeiras” sobre a necessidade de vigilância constante das mulheres casadas para que não pulem a cerca, e roupas e atitudes desejáveis para cada estado civil.
O controle sobre as roupas é o mais sutil, e parece estar meio em desuso, mas ainda é efetivo. Uma mulher casada/comprometida não deve se vestir como uma solteira, pois em tese já tem dono e não está mais “à caça” de homens. Portanto, deve parar de usar decotes, maquiagem e roupas chamativas (quantas brigas são causadas porque o rapaz não quer que a namorada saia com determinada roupa?) Uma mulher que use roupas “curtas e provocativas” não é “mulher de família”, e por isso não serve para casar, além de estar “pedindo” para ser assediada ou estuprada (por incrível que pareça, essa aberração ainda é ouvida inclusive em faculdades de Direito!) Uma viúva que usa roupas coloridas está desrespeitando o falecido. Uma mulher que pertença a uma religião que a considere inferior ao homem deve dar mostras de sua submissão, seja através da “modéstia”, ausência de “vaidade”, ou do uso de roupas específicas, como a burca.
Nessa perspectiva altamente controladora do corpo e da imagem das mulheres, usar uma burca é uma forma de deixar claro que a mulher tem dono. Ela não tem identidade visual, nem aparência definida. É apenas alguém inferior a um homem, e que lhe deve obediência e respeito. Sua incursão no espaço público é tão exótica que precisa ser estigmatizada, para lembrar àquela mulher que sua cultura diz que seu lugar na sociedade é apenas no espaço privado, obedecendo a um homem, além de lembrar aos outros homens que ela tem dono, estando interditada para eles.
É por isso que dou toda razão a Nicolas Sarkozy quando ele afirma que a burca “reduz a mulher à servidão e ameaça a sua dignidade“. Em jogos de poder, roupas não são apenas um pano cobrindo e protegendo o corpo, mas um sinal claro de status social.
Ah, irão falar em liberdade de escolha. Que liberdade de escolha tem uma pessoa que, desde a infância, aprende que deve se portar e vestir de determinadas formas para reforçar sua feminilidade/condição social? E todos no espaço público reforçam essa mensagem afirmando que é assim que tem de ser, por respeito a uma questão cultural ou religiosa? Como essa pessoa será livre pra escolher se a pressão que ela sofre é para se submeter a essas regras, ou, como alternativa, ser acusada de desonrar a família e até morrer por isso?
Não cabe a um Estado Democrático permitir que esses micropoderes se perpetuem, reforçando desigualdades entre homens e mulheres. E não cabe desviar a questão para a liberdade religiosa, pois aqui a religião atua como uma desculpa para legitimar um sistema de dominação que se pretende ser superior ao Estado. Um Estado laico realmente digno desse nome não pode permitir que, sob o pretexto de liberdade religiosa, seja mantido todo um sistema de opressão a mulheres, transformando-as em sub-cidadãs que precisam, a cada passo, se lembrar e propagandear que são propriedade masculina e que não têm autonomia sequer para se vestir da forma que desejarem.
Agradeço ao Túlio Vianna, que me avisou do discurso anti-burca de Nicolas Sarkozy
Finalmente, nova edição de “O Segundo Sexo”
Monday, June 15th, 2009 | datas, livros | 7 Comentários
Graças a um aviso da Srta. Bia no twitter, ficamos sabendo que a editora Nova Fronteira acaba de relançar O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. Desta vez, em volume único.
Hazel Rowley descreve o impacto do lançamento de O Segundo Sexo:
O primeiro volume de O Segundo Sexo saiu em junho de 1949. A reputação escandalosa de Beauvoir estava selada. Até o título do livro chocou as pessoas. Ao falar abertamente sobre o corpo feminino e a sexualidade feminina, Beauvoir quebara tabus importantes. Estava sendo considerada ainda mais chocante que escritoras que se vestiam de homem, suas precursoras George Sand e Colette.
Beauvoir foi severamente atacada. “Insatisfeita, fria, priápica, ninfomaníaca, lésbica, a mulher que fez mais de cem abortos, eu era tudo”, diz ela, “até mãe descasada”. Ela recebeu centenas de cartas. As pessoas lhe diziam que o problema dela é que não acreditava em Deus. Algumas se ofereciam para curar sua frigidez. Outras ofereciam, nos termos mais grosseiros possíveis, saciar seus apetites labiais. O Vaticano pôs o livro no índex. O escritor católico conservador François Mauriac disse a um membro do conselho editorial da Les Temps Modernes: “A vagina de sua empregadora não tem segredos pra mim.” Até Camus achou o livro grotesco. (”Camus (…) um homem mediterrâneo, cultivando o orgulho espanhol (…) acusou-me de fazer o homem francês parecer ridículo.”) O fato de Beauvoir ter discutido o aborto foi particularmente chocante. Como ela e Sartre haviam ambos escrito sobre o aborto em sua ficção, as pessoas já chegavam na redação da Les Temps Modernes pedindo endereços. A secretária colocara um cartaz: FAZEMOS NO LOCAL, PESSOALMENTE.
Algren chegou no auge disso tudo. Beauvoir e Sartre quase já não iam mais a cafés; as pessoas os atormentavam. Mas com Algren lá, Beauvoir saía muito. Quando os dois iam a um lugar público, as pessoas apontavam para ela e riam.
ROWLEY, Hazel. Tête-à-Tête. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006. p.237-238
Sem dúvida, o mundo de junho de 2009 é muito diferente do mundo de junho de 1949, quando O Segundo Sexo foi lançado em Paris. E parte dessas mudanças se deve a este livro. Portanto, trata-se de leitura recomendadíssima.
Poderiam ter feito uma edição mais caprichada para comemorar os 60 anos do livro, mas, tendo em vista a quantidade de livros feministas esgotados e não reeditados, temos de nos dar por felizes por ter o relançamento. Gostei da idéia de volume único, pois evita o grande problema das edições anteriores: conseguir comprar um volume, e em seguida descobrir que o outro estava esgotado…
Comprei o meu exemplar na Fnac, com 20% de desconto e frete grátis. Sei que tem na Livraria Cultura também. Está difícilimo de encontrar em outras livrarias e lojas online. Pra piorar, o site da editora não está atualizado, e os sistemas de busca estão bastante falhos. É uma pena que um livro desse porte receba tratamente tão precário.
Leticia Wierzchowski processa Milton Ribeiro
Tuesday, June 9th, 2009 | juridiquês, piadas sem graça | 43 Comentários
Na semana passada, todos ficamos sabendo que a escritora Leticia Wierzchowski está processando Milton Ribeiro por causa de uma crítica escrita por ele, e desfavorável à obra dela. Poucos dias depois, Milton transcreveu e comentou a petição inicial do processo. A partir dela, fica mais fácil entender exatamente por quê Leticia se ofendeu a ponto de acionar o Judiciário.
Miton, em sua crítica, optou por ridicularizar Leticia Wierzchowski trocando o nome dela por Vierchoschoten. Alguém mais inocente e desavisado poderia achar que se trata de um trocadilho com Suzane Richthofen, mas qualquer pessoa que já tem mais de 10 anos e um mínimo de vivência sexual entende que se trata de uma referência vulgar ao órgão sexual feminino.
Como já disse antes, e não me canso de repetir, a crítica deve ser feita à obra, não ao autor/autora. Pretensas “piadas” com nomes do/a autor/a da obra não deveriam fazer parte de crítica séria, pois vão além do conteúdo da obra, tornando-se ataque pessoal. E, quando o conteúdo da crítica é sexista, há sim algo mais que pode embasar uma condenação judicial.
Eu não ridicularizaria nem diminuiria a importância do assunto, muito menos sairia gritando censura! a plenos pulmões (até porque censura não houve – não foi feito pedido de retirada, e todos os textos continuam disponíveis, sem alterações.) Se a crítica foi além da obra, atingindo sua autora, é direito dela se sentir ofendida e requerer ao Judiciário indenização por danos morais, e, se for o caso, também processar por crimes contra a honra.
A questão que me preocupa é o descaso com as mulheres. Se o texto envolvesse etnia ou orientação sexual, muito provavelmente as pessoas a repudiariam imediatamente, considerando-a ofensiva. Porém, críticas que descambam para trocadilhos sexistas, críticas ao nome, à aparência (como nos comentários deste post) ou “piadinhas” com violação (como as intercaladas à petição inicial) parecem ser consideradas aceitáveis, mesmo por quem jura que é a favor da igualdade entre os sexos. Se o for, realmente, deveria se indignar com um tratamento tão desigual.
Atualização em 13/06/09: uma questão recorrente nos comentários é que Leticia não deveria processar Milton. Repito que processar, ou não, é uma decisão e um direito dela. Não me agrada nem um pouco essa pressão para desqualificar o processo, pois isso, sim, parece uma tentativa de calar uma pessoa que se sentiu ofendida. Considero isso uma intromissão indevida e bastante desrespeitosa à vontade de Leticia: primeiro, por querer ditar como uma pessoa ofendida por uma crítica pessoal deve reagir; segundo, porque ela tem todo o direito de ter esse caso analisado pelo Judiciário.
Dos posts que li sobre o caso (não li muitos ainda, é fim de semestre, com sobrecarga de trabalho), gostei muito das observações da juliana m. e, com as ressalvas do parágrafo acima, do post da Marjorie Rodrigues.
Lei de Guarapari proíbe a venda de livros de RPG
Sunday, June 7th, 2009 | direitos | 4 Comentários
Hoje vi um twit do @tuliovianna falando que Guarapari (ES) tem uma lei que proíbe o comércio de material para jogos de RPG. Em uma pesquisa rápida, descobri que a lei é a de número 2605, de setembro de 2005:
Art. 1º – Fica proibida a exposição e comercialização, em bancas de jornais e revista e demais estabelecimentos congêneres, de CDs, DVDs, Livros e demais publicações referentes a “Jogos de Interpretação de Personagens”, conhecidos como RPG – Role-playing game
Coloquei a íntegra da lei em dois posts do twitpic: primeira página e segunda página. No site da Câmara Municipal, consta que a lei ainda está em vigor.
É óbvio que se trata de uma lei inconstitucional, pois estabelece censura prévia, violando liberdade de expressão expressamente garantida pela Constituição. Até aqui em Minas, onde um procurador federal propôs a proibição de livros e dvds destinados a jogos de RPG (tem a íntegra da petição neste PDF) e que, a cada menção de julgamento do caso de Ouro Preto a mídia se manifesta criticando e deturpando os jogos de RPG (escrevi sobre isso em janeiro de 2005), já se chegou à conclusão de que não se pode proibir a circulação dos livros, sendo permitida apenas a classificação indicativa do material.
Quem se interessa pelo assunto, deve ler também:
- post do Túlio Vianna explicando os meandros jurídicos para extinguir essa lei absurda
- post do Alessandro Martins criticando o fato de transferirem a culpa de um crime para livros e jogos
- dois posts fundamentais do Marcelo Del Debbio: Assassinos tentam se passar por rpgistas e O RPG não influenciou NENHUM crime no Brasil
- meu artigo sobre como a mídia erra na abordagem do RPG – e que continua atual ainda hoje: RPG e mídia: a ignorância continua, três anos depois
LuluzinhaCamp em Minas Gerais
Tuesday, June 2nd, 2009 | eventos | 5 Comentários
O objetivo do LuluzinhaCamp é reunir as mulheres blogueiras, twitteiras e afins, pra gente conversar, falar de internet, blogs, organizar bazar e amigo oculto, fazer oficinas de maquiagem, trocar idéias e receitas, tricotar, e mais mil coisas que a gente imaginar…
Vamos nos encontrar no dia 06 de junho, sábado, a partir das 15h, no Café com Letras (Antônio de Albuquerque, 781, na Savassi).
Não precisa fazer inscrição. Tragam bom humor, e fôlego para sucos (inclusive de cevada) e comidinhas do Café com Letras, biscoitos e muito bate-papo
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