Mulheres e trabalhos manuais

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A Denise fez um post sobre uma parte do movimento feminista que está valorizando os trabalhos manuais, e eu fiquei pensando sobre isso. Fez parte da minha educação aprender a bordar (ponto cruz e ponto cruz duplo), fazer crochê e tricô. Depois que machuquei as mãos, uns 12 anos atrás, o crochê virou um suplício, mas ainda me arrisco no tricô (especialmente cachecóis, e estou aprendendo a fazer bolsas). Parte da minha família achava que era falta de visão de minha mãe obrigar as filhas a serem moças prendadas, que existiam coisas mais úteis pra fazer, como estudar inglês.

Pra essas pessoas, trabalhos manuais são perda de tempo, já que tudo pode ser comprado pronto. E ainda desprezam essas atividades como coisa de vovó, de mulher rica e sem nada para fazer, etc. A primeira afirmativa é de um consumismo tão simplista… é absurdo pensar que pessoas são robôs que só devem pensar em trabalhar para consumir, ao invés de usarem parte do tempo para fazerem um trabalho criativo e diferente. Além do mais, trabalhos manuais costumam ser mais criativos, originais e baratos (mesmo incluindo a mão-de-obra) que peças industrializadas.

Já a segunda afirmativa é uma visão muito parcial e preconceituosa. É claro que muitas mulheres são ricas e fazem trabalhos manuais por distração, mas a grande maioria das mulheres usa suas habilidades manuais como forma de sobrevivência. Pra muitas, é uma carreira profissional. Um dos efeitos da Revolução Industrial foi tirar das mulheres a função de fazer e cuidar das vestimentas da família, já que essas atividades passaram a ser feitas em fábricas de tecidos ou roupas prontas. Mesmo assim, muitas mulheres continuaram a fazer e vender trabalhos manuais, tanto para sustentar a família quanto para burlar a proibição de trabalhar fora de casa sem autorização do marido, e assim aumentar o orçamento familiar.

Há algum tempo, vi uma bolsa Ferragamo que custa mais de mil reais. Ela é de tricô, e descobrir a receita dela virou uma febre nos blogs de trabalhos manuais, gerando a receita da bolsa Fake-a-gamo ;) O triste é que vi gente que despreza trabalhos manuais querendo pagar uma fortuna pela bolsa, só porque ela é feita por uma grife masculina (um dia eu vou escrever sobre o exotismo de homens ditarem como deve ser a aparência feminina sem nunca terem usado salto alto). Se La Reina Madre tivesse um nome masculino, e os créditos para a Denize viessem beeeem miudinhos, talvez suas bolsas também custassem mais de mil reais…

Lembro-me de minha avó fazendo diversas peças de crochê sob encomenda, e sei que houve épocas em que ela trabalhava em casa como costureira. Mas muitos parentes diziam que ela parou de trabalhar após casar, como se fazer e vender qualquer tipo de trabalho manual não fosse trabalho!

É esse desprezo pelos trabalhos manuais que deve ser questionado. Quantas famílias foram e ainda são sustentadas por eles, e quem os fez não recebeu nenhum reconhecimento? Não há nenhuma justificativa lógica para essa desvalorização de algo que é agradável, útil e lucrativo. Ou a “justificativa” é que os trabalhos manuais não merecem valor só porque são tradicionalmente feitos por mulheres?

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  1. Oi!!! Olha só, eu li essa semana que as atrizes Catherine Zeta Jones e Julia Roberts faziam parte, recentemente, de um clube de “tricoteiras”. Elas combinavam (ou reservavam, não me lembro) horários de cinema e iam todas, muitas e mitas mulheres, literalmente para tricotar enquanto assistiam filmes. Se o mundo deu uma volta, ele continua girando…

    Um beijo,
    Príncia. Mara.

  2. Cheguei aqui por causa dos gatos!
    Tb sou gateira e advogada, em Porto Alegre, RS.
    Entro para os meu favoritos.
    Voltarei por aqui.
    Um abraço!

  3. Excelente tema. De fato, atividades “femininas” só são consideradas elaboradas e sofisticadas quando desempenhadas por homens: culinária, costura, ensino…

  4. Muito bom. Eu sei tricotar, a minha irmã costura. Li há algum tempo atrás um texto que fazia uma análise sobre a dominação patriarcal que dizia que a opressão dos talentos criativos da mulher visa mantê-la ainda mais dependente e submissa. Criar é libertador.