Minha avó nasceu na década de 20, quando mulheres ainda não podiam votar. Mulheres eram tão invisíveis que não figuravam no Código Eleitoral nem como possíveis eleitoras nem como proibidas de votar. O direito ao voto feminino só foi conquistado em 1932.
Quando minha mãe nasceu, as mulheres já podiam votar e ser votadas. Mas era época da “mística feminina”, de forçar mulheres a se submeterem ao papel de mãe, esposa e dona-de-casa. Nessa época, mulheres ainda estavam submetidas ao marido, e sequer podiam trabalhar sem sua autorização. As grandes mudanças que minha mãe viu na adolescência foram o Estatuto da Mulher Casada de 1962, que libertou a mulher do jugo do marido (embora ele continuasse como chefe da família), e o golpe militar de 1964 que nos mergulhou em um inferno.
Eu nasci na década de 70, quando o Brasil vivia uma ditadura militar. Não existia liberdade de expressão nem divórcio. As mulheres se organizavam para lutar pelos seus direitos (aprovando a Lei do Divórcio em 1977) e contra o governo militar. Cresci vivendo a redemocratização, lembro da eleição indireta do Tancredo, da TV Mulher, da luta contra a inflação, do impeachment de Collor, do Plano Real, das privatizações, do sucateamento das universidades públicas.
A eleição de 2002 foi inesquecível. Havia um clima emocionante de esperança. Quando Lula foi eleito, foi uma festa! Revolucionamos ao eleger um torneiro mecânico como presidente, e ele honrou nossos votos. Houve uma melhora substancial no padrão de vida brasileiro, consolidação do Estado democrático, liberdade de expressão, um novo e fantástico jeito de fazer política externa, e o mais importante: enfoque em políticas públicas não-elitistas, de valorização dos direitos humanos, inclusive dos direitos das mulheres.
E agora, revolucionamos novamente ao eleger uma mulher. A primeira mulher presidenta do Brasil! Fizemos isso em menos de 80 anos depois de nós, mulheres, conquistarmos direito de voto. As gerações mais novas vivem em um mundo completamente diferente – e muito melhor para as mulheres – do que o mundo em que minha avó, minha mãe e eu nascemos.
No Dia Internacional da Mulher de 2005 o presidente Lula disse que não era para nós sermos desaforadas e querermos a presidência. Sinto muito informar, presidente, mas somos desaforadas, sim, e queremos direitos iguais em todas as áreas. Se homens podem ser presidentes, mulheres podem ser presidentas. Isso não é pressa de poder, é igualdade de oportunidades.
E fico feliz que o nosso desaforo tenha resultado na eleição da presidenta Dilma Rousseff, uma revolucionária. Ela poderia ter seguido a tradição mineira da “mística feminina”, poderia ter acatado o silêncio em que o país mergulhou em 1964, poderia ter escolhido uma área profissional considerada feminina. Porém, Dilma Rousseff foi à luta: optou pelo caminho da independência pessoal, optou por lutar contra a ditadura militar (sendo presa e torturada por ter feito essa escolha de vida) e optou por trabalhar em áreas consideradas masculinas, como economia e administração. Ela foi secretária municipal da Fazenda, secretária estadual de Minas e Energia e Ministra de Minas e Energia, e ministra-chefe da Casa Civil. Em todos os cargos, sempre se destacou pela competência profissional.
É interessante perceber que a primeira mulher a chegar à presidência do Brasil não tenha vindo da política (uma das áreas mais machistas que existe): ela se destacou e foi escolhida como candidata pela sua capacidade profissional. É um exemplo e uma esperança para tantas mulheres que são excelentes profissionais, mas que mas encontram um teto de vidro impedindo o reconhecimento de seu trabalho e sua ascensão aos mais altos cargos.
É maravilhoso saber que quebramos o teto de vidro e elegemos Dilma Rousseff: uma profissional extremamente competente que será uma presidenta de esquerda.
Semíramis, belíssimo e pungente depoimento.
Eu espero que esse seja o início de uma quebra concreta de barreiras para entrada das mulheres na política brasileira.
Pode soar meio bobo mas… eu estou muito feliz!!! \o/
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Encontrei seu texto agora. Muito bom!
Ainda quero voltar aqui para tecer meu comentário.
Abs
Prezada Cynthia,
Compartilhando sua opinião sobre esse momento histórico, pergunto-me se isso que o presidente disse no 8 de março de 2005 não teria um teor de ironia, no sentido mais positivo do termo. Ele não estaria pedindo justamente o contrário às mulheres? Pois machista não é um adjetivo que lhe caiba, ao meu ponto de vista.
Beto, mesmo que o discurso tenha sido irônico (o que eu duvido), não era o momento adequado. Em pleno Dia Internacional da Mulher, uma data de luta contra injustiças e para ampliar direitos das mulheres, um chefe de Estado não pode sair “brincando” ou “ironizando” a dificuldade de acesso das mulheres a cargos políticos, pois são dificuldades reais, que precisam ser diminuídas. O discurso tem de ser afirmativo, positivo, e não dar margens a dúvidas e más interpretações. Particularmente, desconfio que o discurso tenha tido endereço certo, pra desestimular alguma mulher a não fazer pré-campanha à presidência, mas foi deselegante, pois ocorreu no evento e momento errados…
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