Marcha das Vadias: a marcha pela liberdade das mulheres

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Embora já tenha sido obtida a igualdade jurídica entre homens e mulheres, às mulheres ainda é negado o direito à autonomia, especialmente em relação à sua sexualidade e aparência. As Marchas das Vadias que vêm ocorrendo no mundo problematizam essa questão e indicam o caminho para efetivar a liberdade das mulheres

Em abril de 2011, um policial canadense, ao fazer uma palestra sobre violência, afirmou que as mulheres evitariam estupros se não se vestissem como vadias, vagabundas (sluts). Ele classificou mulheres pela aparência: as roupas “certas”, discretas, evitariam violência, enquanto as roupas “erradas” tornariam a vítima culpada pelo estupro.

O policial canadense tratou mulheres como pessoas sem direito à liberdade, que precisam ter seu comportamento e suas roupas monitoradas para receberem proteção do Estado. Por ser um agente do Estado, o policial deveria cumprir a lei e proteger a vítima de um crime. Sua manifestação foi exatamente oposta: ao culpar a vítima, ele protegeu e perdoou quem cometeu o crime de estupro.

O que determina o estupro não é a roupa, é a relação de poder. Homens estupram porque consideram que as vítimas estão ali para satisfazer seus desejos, inclusive o de serem forçadas a se submeter a uma relação sexual. Colocar a culpa do estupro nas vítimas é ignorar que elas têm o direito de escolher se e quando vão se relacionar sexualmente com alguém. Roupas não têm nada a ver com isso.

Em resposta à fala do policial, surgiram reações indignadas em todos os níveis. Foram acionados os mecanismos legais, como um processo administrativo e discussão sobre a capacitação adequada de policiais. E também foi criada uma passeata denominada “Slutwalk” (Marcha das Vadias, no Brasil). Nela, mulheres protestaram contra o preconceito que vincula roupas curtas ao estupro, portando cartazes feministas e vestindo roupas curtas, que remetem ao estereótipo de “vadias”.

Demonstrando que a opressão das mulheres ainda é uma constante no mundo, a Marcha das Vadias se espalhou em efeito dominó. Milhares de mulheres de diversos países vêm saindo às ruas, desde abril, em diversas Slutwalks e Marchas das Vadias, deixando claro seu descontentamento com a forma como vêm sendo tratadas em razão de suas roupas e comportamento.

O feminismo da Marcha das Vadias

A Marcha das Vadias é feminista, pois denuncia o tratamento desigual para homens e mulheres. Um homem ou menino que sofra violência sexual não é acusado de ter merecido a violência por causa de suas roupas. No entanto, uma mulher ou menina vai ser sempre questionada sobre suas roupas, maquiagem ou consumo de bebidas alcoólicas.

É importante destacar o caráter feminista das Marchas das Vadias, pois o que se divulga na mídia atualmente é que o movimento feminista é inexistente ou desnecessário. Afirmam que as mulheres têm igualdade de direitos, independência (inclusive financeira), orgasmo e direito à contracepção, e não há mais pelo que lutar. Ou então, afirma-se que a única causa feminista relevante atualmente é combater a violência, especialmente a que ocorre em ambiente familiar.

Essas são afirmações que evidenciam a incompreensão acerca da situação das mulheres hoje. O movimento feminista existe, e continua ativo, atuando em nível institucional contra todo tipo de discriminação contra mulheres. E as Marchas das Vadias, espontâneas, organizadas de forma colaborativa e sem hierarquia, via internet, mostram pontos que ainda precisam de muita atenção, especialmente em relação ao respeito aos desejos sexuais das mulheres.

Disputando o controle da sexualidade feminina

Não há dúvidas de que as mulheres estão insatisfeitas com a situação em que vivem. Apesar de terem a igualdade de direitos na lei, no cotidiano essa igualdade é condicionada ao controle da sexualidade feminina. As mulheres perdem autonomia: elas não podem decidir a forma de exercer sua sexualidade, sendo sutilmente forçadas a escolher entre dois modelos bastante excludentes.

A mulher recatada, de vida sexual discreta, à espera do companheiro ideal (antigamente conhecido como príncipe encantado), ainda é valorizada como modelo de conduta. A mulher que não se censura, vivendo de acordo com seus desejos sexuais, é tratada como inadequada. Uma forma de fazer esta mulher perder sua autonomia e se enquadrar no modelo recatado é considerá-la culpada por tudo de ruim que acontecer com ela. Roupas são a forma pela qual essa distinção será tornada pública.

Porém, a autonomia feminina passa pelo poder de cada mulher escolher como se vestir, como se comportar, sem necessariamente ter de se enquadrar nesses dois modelos como obrigação eterna e imutável. A mulher pode escolher inclusive oscilar entre ambos os modelos, não se enquadrar em nenhum, ou criar um terceiro mais adequado à sua personalidade e seus gostos. E, mais importante, ela não deve perder direitos nem pode ser julgada por causa dessas escolhas.

A participação espontânea e bastante expressiva de mulheres jovens nas Marchas das Vadias mostra que o controle da sexualidade feminina é para elas um ponto importante a ser combatido. Essas mulheres nasceram em um mundo no qual, segundo os conservadores, as mulheres já conquistaram todos os direitos.

No entanto, as jovens comparecem massivamente às passeatas para mostrar que seu cotidiano é bem diferente: seus desejos e sua autonomia estão sendo sistematicamente cerceados por causa do controle da sexualidade feminina. Elas não estão livres, ainda não podem se comportar da forma que desejam.

O que essas jovens já perceberam, e estão se insurgindo contra isso, é que mulheres ainda são julgadas por não quererem obedecer a uma ordem social que pune seus desejos. Mulheres ainda são consideradas como máquinas de sexo para o prazer masculino enquanto têm de refrear a própria sexualidade. Elas ainda são espancadas e mortas por não se submeterem aos desejos masculinos em relação a sexo, maternidade e profissão.

O que o movimento feminista quer, e a Marcha das Vadias torna público, é que as mulheres não sejam julgadas nem punidas por não obedecerem a um sistema que as oprime. Querem exercer sua sexualidade livremente, sem serem discriminadas por suas roupas, idade, aparência, ou pelo número de parceiros e parceiras. Querem escolher se e quando terão filhos. Querem ter vida sexual depois que passarem pela menopausa. Querem dar vazão aos seus desejos, ao invés de se restringirem a um modelo binário de comportamento que limita suas possibilidades. Querem um mundo mais livre e menos violento para as mulheres.

Combatendo a violência contra mulheres

Pais, irmãos, maridos e companheiros são os responsáveis pela maior parte da violência cometida contra mulheres. Eles espancam porque elas escolhem usar roupas que não lhes agradam, porque elas não querem se divertir da forma que eles consideram adequada, porque se sentem mal por elas não dependerem deles financeiramente, porque elas não querem se relacionar sexualmente com eles na hora que eles desejam. E eles matam porque elas não querem obedecer nem continuar mantendo um relacionamento de subordinação com eles.

Esses relacionamentos são construídos com base na opressão feminina. Quanto mais a igualdade entre homens e mulheres é inscrita na lei, mais a opressão é deslocada para o controle da sexualidade feminina.

A lei garante direitos iguais, mas a liberdade sexual ainda é cuidadosamente controlada, especialmente pela influência da mídia. A maioria das revistas femininas não explica como a mulher pode chegar ao orgasmo; o foco é ensinar como a mulher faz o homem ter orgasmo. A lei proíbe agressões físicas, mas toda novela mostra uma mulher sendo espancada. Esse espancamento não é punido porque a mulher era uma vilã e estava agindo como “vadia”.

Quando a mídia mostra mulheres sofrendo violência, não as trata como vítimas de um crime. Elas são tratadas como desobedientes que “mereceram” uma punição. É o mesmo raciocínio do policial canadense, que desculpa o agressor e culpa a vítima. A violência é usada para constranger mulheres a cercear sua autonomia e obedecer ao agressor.

A Marcha das Vadias expõe essas questões, e expressa os desejos das mulheres: não querem que os relacionamentos que as oprimem sejam a regra. E não querem que o Estado encampe um recuo conservador, agindo para constranger as mulheres a voltar ao sistema de opressão institucionalizado que vigorou até recentemente.

É necessário direcionar todos os esforços do movimento feminista para impedir um retrocesso: não se deve voltar a um modelo de comportamento que nega a sexualidade e a liberdade femininas. Esse modelo de comportamento é a causa da violência contra mulheres. E é ele o maior obstáculo atual para as mulheres jovens.

As Marchas das Vadias indicam claramente que as mulheres não querem que seu comportamento e seus desejos continuem sendo controlados. Resta a todos nós entendermos isso e lutarmos para garantir que mulheres tenham o exercício pleno de suas vontades e de sua sexualidade.

É necessário parar de julgar mulheres pela sua sexualidade e aparência. É necessário punir quem comete crime ao não respeitar a vontade da mulher. E é necessário lembrar sempre que as mulheres não podem ser forçadas a se enquadrar em um modelo de comportamento que nega sua autonomia e sua liberdade.

Artigo publicado originalmente na edição impressa nº104 (setembro de 2011)da Revista Fórum

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