auto-estima

Outubro rosa: o que não dizer

Tuesday, October 14th, 2008 | auto-estima, blogagem coletiva | 1 Comentário

Outro dia, li em um blog um post criticando quem, ao ouvir que outra pessoa tem câncer, sai falando coisas como “é de fundo emocional”, “isso só acontece com pessoas amargas e rancorosas”, e outros preconceitos semelhantes.

Existem “teorias” a respeito da relação entre emoções e doenças, mas pouca comprovação científica. E, mesmo assim, muita gente pode ser exceção à regra, ou as pesquisas podem estar erradas ou embasadas em preconceitos. Se não quer magoar nem julgar alguém, não aplique esses estereótipos a quem tem questões urgentes de saúde a resolver.

Na maioria das vezes, uma doença é só uma doença. E, mesmo se não for, não adianta forçar, se arvorar como dono/a da verdade e sair julgando os pretensos sentimentos das outras pessoas. Até porque, para quem tem uma doença grave e que precisa se cuidar logo, teorias sobre sentimentos e emoções geram dúvidas e diminuem a auto-estima, não ajudam no tratamento, e muitas vezes podem atrasar ou dificultar o diagnóstico.

Quantas mulheres vão querer fazer exames e se cuidar se esse preconceito sobre câncer ser doença de pessoa rancorosa for considerado verdadeiro? Quem quer ser julgada como amarga e rancorosa porque está com câncer? Já pensaram no que acontece se o/a médico/a acreditar nisso e resolver tratar mal a paciente porque ele pensa que ela, com suas emoções, foi quem provocou a doença, e agora “merece” o sofrimento? Então, por que divulgar esse tipo de “teoria”, que não traz nada de bom pra quem está doente?

Se não pode ajudar, não atrapalhe. Diga palavras de apoio e conforto, ao invés de apontar o dedo ou estender um livro milagroso sobre curar a vida dos outros. A cura vem do tratamento, dos remédios e do apoio dos amigos. E apoio não significa, nunca, julgamentos a partir de estereótipos e “teorias” sem fundamentação.

Para mais posts sobre o Outubro Rosa, veja os links no Luluzinha Camp.

Nem 8 nem 80!

Sunday, August 17th, 2008 | auto-estima, direitos | 4 Comentários

Outro dia, estava cortando o cabelo quando o papo do salão se tornou o corpo das atletas. Falamos do excesso de músculos, da falta de gordura, da masculinização do corpo feminino, etc. Uma mocinha discordou, dizendo que é melhor ser musculosa do que gorda.

Em que mundo eu estava que não notei que pras pessoas hoje tudo é 8 ou 80? Cadê o meio-termo? E lá fomos nós (3 mulheres com mais de 30 anos) explicar pra ela que existe um meio termo entre gorda e macérrima, e que esse meio-termo é onde a maioria das mulheres está. Não é uma questão de ser melhor ou pior, existem diversas nuances a serem c”onsideradas. O que mais me doeu foi entender que vivemos hoje num mundo que só valoriza a estética masculina, com pouca gordura e músculos ressaltados.

Desconfio que a pressão da mídia para só mostrar corpos magros (como ideal de beleza) ou corpos extremamente obesos (como algo a ser banido da sociedade) está levando as pessoas a só pensarem em termos de extremos. Está mais do que na hora de insistirmos em mostrar e valorizar a diversidade de corpos, ao invés de ficar apenas pendendo para extremos que correspondem a uma parcela ínfima da sociedade.

E ainda sobre o tema da ojeriza à obesidade feminina, a Lola fez uma série de posts excelentes: parte 1, parte 2, parte 3.

Duas coisas que me deixaram feliz hoje

Wednesday, March 26th, 2008 | auto-estima, gatinhos | 3 Comentários


O vídeo acima me deixou muito feliz porque mostra as feministas como mulheres normais, comuns. Parece tolice, mas estou cansada de pressuporem que eu reclamo o tempo todo, ando com um rolo de macarrão na bolsa pronta pra agredir os machistas de plantão, não cuido da minha aparência, detesto roupas sensuais, ou quero implantar uma ditadura das mulheres, só porque a mídia criou essa imagem das feministas para tentar nos desmoralizar. Não somos assim e, pra dizer a verdade, não conheço ninguém assim.
Pra quem não conseguiu entender o inglês do vídeo, a Denise postou a tradução feita pela Maffalda.

Outra coisas que me deixou feliz foi saber que o Conselho Federal de Medicina Veterinária proibiu, através da resolução 877/2008, diversos procedimentos cirúrgicos que mutilam animais de pequeno porte. Os exemplos mais cruéis, pra mim, são o corte de cordas vocais de cães e a retirada das unhas dos gatos. Perdi dois sofás porque os gatos adoravam usá-los como arranhador, mas nunca passou pela minha cabeça mandar retirar as unhas deles e deixá-los sem defesa. E só de pensar em animais que têm as cordas vocais mutiladas para que não possam se expressar pela voz, tenho vontade de arrancar as cordas vocais do infeliz que inventou isso, pra ver se ele gostaria de provar da própria “solução”. Até que enfim alguém tomou uma providência contra esse desrespeito aos animais.

Valorizando as mulheres

Saturday, March 8th, 2008 | auto-estima, blogagem coletiva, violência | 6 Comentários

Blogagem ColetivaA Lys e a Meiroca organizaram uma blogagem coletiva com o tema “valorização da mulher”. É possível falar desse assunto por dias, e é necessário tomar um grande cuidado pra não ser moralista e entender valorização da mulher como recato e vida sexual controlada.

Creio que a principal questão para valorização das mulheres é incentivá-las a serem menos passivas e definirem melhor seus objetivos. Ainda hoje encontramos mulheres que foram educadas e agem sempre para os outros, raramente pensando em si mesmas. De tanto lerem, ouvirem e serem bombardeadas com a idéia de que a função das mulheres é tornar o mundo mais agradável e confortável para as outras pessoas (mesmo que precisem se sacrificar para fazer isso) as mulheres acabam agindo assim.

E aí temos as mulheres adultas preocupadas em agradar aos outros, inclusive sexualmente, sem se perguntar se elas estão satisfeitas com a situação. Temos as mulheres preocupadas com o marido cansado e que assumem mais tarefas domésticas, sem perceber que estão sem dormir e trabalhando mais do que o marido. Temos a senhora das antigas que abafava os gritos durante o parto para não assustar o marido nem as crianças. Temos a mãe que esconde suas doenças para não trazer preocupações para a família, e assim atrasa o diagnóstico e a cura. Temos a mulher agredida pelo companheiro ou parente, e que não quer denunciá-lo para a vida dele não se tornar um pesadelo (mas a dela já é um…) Temos a adolescente que fica calada em sala de aula e se faz de idiota para que seu amigo pareça ser inteligente.

Isso é uma forma extremamente perversa de desvalorização das mulheres, pois as coloca no papel de coadjuvantes do sucesso alheio. Elas ficam tão condicionadas a agir PARA os outros que deixam seus sentimentos e vontades de lado, e aos poucos se anulam, se tornam objetos.

Se puder, ajude a valorizar as crianças para que elas não se tornem adultos extremamente passivos e sem personalidade. As meninas recebem menos incentivos na escola do que os meninos (especialmente quando o assunto são ciências exatas), não são estimuladas a manifestar sua opinião e muitas vezes são consideradas como burrinhas esforçadas. Não deixe que isso aconteça com as meninas com quem você convive. Peça sempre para ela opinar e fundamentar sua posição. Se o raciocínio tiver falhas, explique os erros. Ela entenderá, não os repetirá mais e ainda ficará muito agradecida porque você fez uma coisa raríssima: a tratou como um ser pensante, e não como mais uma carinha bonita e sem conteúdo. Isso fortalecerá a auto-estima dela e dificilmente ela se tornará uma vítima de agressões no futuro.

Não basta estimular os homens a respeitarem as mulheres. Falta, ainda, fazer com que as mulheres aprendam a dar valor a si mesmas. Então, se posso falar e fazer alguma coisa para valorização das mulheres hoje, creio que é fundamental tratá-las como sujeitos, e fazê-las perceber que podem ser protagonistas de suas vidas, ao invés de facilitadoras da vida alheia. Não ignoro quem goste de ajudar os outros, mas o meu ponto aqui é diferente: não aceite que, em troca de ajudar as pessoas, você precise disfarçar sua personalidade, esconder sua opinião ou abrir mão de seus direitos e vontades!

Direitos, feminismo e opressão social

Sunday, January 6th, 2008 | auto-estima, direitos, história | 2 Comentários

Outro dia caí em um blog em que uma moça reclama do feminismo. Diz que é ridículo fazer as mulheres serem iguais aos homens, que não há mérito em igualar as mulheres aos absurdos dos homens, como arrotar ou beber cerveja no gargalo. Quer ser frágil e ser tratada como frágil, e acha absurdo que o feminismo tenha acabado com isso.

Não sei o que é mais irritante ao ler isso: se é a falta de informação sobre o que é feminismo (que não acabou com nada da fragilidade, apenas proporcionou liberdade e visibilidade para todas as mulheres, sejam elas do tipo “frágil”, ou não), se é a ignorância sobre o próprio corpo (todos os seres humanos arrotam, urinam, defecam, soltam gases, vomitam, etc, e acreditar que, por ser mulher, isso tenha de ser abolido ou ocorrer de forma “delicadinha” é restringir bastante a pessoa em questão, colocando um ideal de “feminino” acima da questão biológica), ou se é a incapacidade de entender que cada pessoa tem a liberdade para ser o que quiser. Se quer ser – ou parecer – frágil, ou agressiva, ou um meio termo, é livre para isso. O que não pode acontecer é se reprimir para seguir a moda ou a pressão da sociedade.

Desprezar o feminismo implica em não aceitar lutas políticas que querem acabar com a idéia de que a mulher não é um ser humano, mas uma escrava (inclusive sexual) a serviço dos homens. Parece uma definição exagerada? Então vamos à situação feminina pré-feminismo. Que tal:

  • só poder trabalhar fora de casa se tiver autorização do marido
  • só poder estudar o suficiente para saber gerenciar uma casa
  • não poder sair de casa sozinha, sob pena de ser considerada impura e adúltera
  • seu marido decide onde vocês vão morar, não importa a sua vontade
  • não existir igualdade entre homens e mulheres perante a lei. Por isso, a mulher era considerada inferior e menos qualificada que o homem
  • não poder votar, isto é, ter voz sobre os destinos políticos e jurídicos do país (inclusive questões sobre direitos das mulheres)
  • o marido ter o direito de “corrigir” a esposa à base de pancadas
  • não ser considerada vítima de estupro se não for honesta (leia-se virgem ou ostensivamente monogâmica)
  • o marido ter o direito de fazer sexo com você quando quiser, a hora que quiser, mesmo que você esteja sem vontade, doente, ou de resguardo. Se mesmo assim você se recusar, ele pode te espancar e os juízes darão razão a ele
  • ser considerada tão incapaz para a vida civil quanto seus filhos menores de idade
  • se o casamento não der certo, não ter direito ao divórcio
  • os filhos não terem direito a pensão caso o marido a abandone
  • perder a guarda dos filhos caso queira se separar
  • não poder consumir bebidas alcoólicas, nem fumar, nem comer muito, para não ser considerada vulgar
  • seu respeito na sociedade estar ligado ao tamanho da saia e ao uso de maquiagem
  • não poder fazer curso superior
  • sua área profissional estar limitada a trabalhos manuais e domésticos (só no fim do século dezenove é que as mulheres abriram espaços no magistério infantil e secretariado)
  • se você tiver filhos fora do casamento, ser considerada uma vagabunda que não merece respeito da sociedade e precisa sofrer muito para se redimir. Às vezes, seria considerada prostituta também
  • se você tiver de se submeter à “vergonha” de trabalhar fora de casa, seu salário ser mais baixo que o dos homens, embora sua jornada de trabalho seja maior que a deles
  • se você quiser processar alguém, precisar da autorização do marido
  • se seu pai ou marido destruir suas coisas ou roubar suas economias, nada acontecerá com ele

Muitas dessas questões foram resolvidas com uma intervenção direta nas leis, através de esforços feministas. Outras só se tornaram visíveis e foram problematizadas graças aos estudos feministas. E algumas até hoje não foram resolvidas.

É claro que temos muita coisa a mudar, ainda. Mas não tem como negar que o feminismo já fez muitas mudanças na sociedade, proporcionando maior liberdade e respeito às mulheres. O problema é que tem gente que prefere associar o feminismo apenas a uma percepção de “vulgarização” feminina, enaltecendo uma época em que havia um extremo controle sobre o comportamento das mulheres, em detrimento da vontade delas. Feminismo é exatamente o contrário, pois é um dos grandes responsáveis pela liberação desse fardo de controle e desigualdade social. É uma pena que tenha tanta gente que não entende isso e queira, mesmo indiretamente, o retorno à opressão.

Mulheres e a administração das finanças

Sunday, September 23rd, 2007 | auto-estima, direitos | 7 Comentários

Revistas femininas adoram falar o quanto a mulher deve se enfeitar e se preparar para encontrar “o homem”. Só que, ao invés disso, deveriam criticar o quanto a mulher é condicionada, desde a infância, para depender de outras pessoas, especialmente no gerenciamento de dinheiro. Depois de encontrar “o homem”, uma mulher pode encontrar também sua ruína financeira, simplesmente porque confia nele a ponto de emprestar seu nome, suas economias, assumir empresas, pagar dívidas que não contraiu, viver na miséria…

Matéria de hoje no O Tempo aborda exatamente o problema das mulheres que, confiando no marido ou namorado, perderam o controle financeiro e se afundaram em dívidas. Lá também tem algumas superficialidades, como vincular o tipo de gasto com signos do zodíaco, mas isso não compromete o objetivo da reportagem: abrir os olhos das mulheres para que saibam separar a relação amorosa da relação financeira.

Quando li “O Machismo Invisível“, da Marina Castañeda, fiquei impressionada com o capítulo dedicado à relação – praticamente nula – das mulheres com o dinheiro. Somos condicionadas a acreditar que só os homens são especialistas em finanças e que o controle do dinheiro está vinculado à opinião masculina (forçando mulheres a prestarem contas – como se fossem crianças – e usarem artimanhas para obter o dinheiro necessário para as despesas domésticas, sendo que raramente há prestação de contas da parte masculina). Há ainda o mito romântico de que a relação amorosa, para as mulheres, deva ser de confiança e compartilhamento total, resultando em decepções financeiras durante o casamento ou divórcio.

Já se foi a época em que o salário das mulheres era todo entregue ao marido, mas infelizmente ainda falta muito para as mulheres aprenderem a gerenciar suas finanças sozinhas. Como resolver isso? Exigindo participar da administração dos bens da família, falando de dinheiro, fiscalizando investimentos e gastos, separando emoção e finanças. Mulheres sabem administrar dinheiro, sim, tanto é que administram as necessidades de suas casas, muitas vezes sem apoio da própria família. O problema está em entenderem que não vale a pena transferir sua independência administrativa para a opinião masculina, só porque existe o mito de que homens são melhores administradores. Se o fossem, mesmo, aquela reportagem que citei acima não existiria.

Sobre mulheres e cabelos

Tuesday, July 10th, 2007 | auto-estima, corpo | 1 Comentário

Não posso postar por estes dias, mas não podia deixar de citar dois posts maravilhosos sobre o maior amor/ódio de todas as mulheres: os cabelos. É impressionante, mas mesmo as mulheres que estão felizes com seus cabelos têm algo a reclamar (eu, inclusive).

Helê, das Duas Fridas, fez um post maravilhoso sobre cabelos e a aceitação de suas particularidades, relacionando-os a música. Ficou um post lindíssimo, ótimo para discutir e rever nossa postura com os cabelos. Uma pequena amostra do post delas: Porque com já disse uma militante, de maneira brilhante: em se tratando de cabelo, não importa o que você faz, mas porque faz.

Isso nos leva à observação da Vanessa, comparando as mocinhas de novela: as ricas, e as que enriquecem, têm cabelos lisos ou alisados! Não tinha reparado nessa relação (até porque raramente ligo a tv), mas é um reflexo do quanto nós somos manipuladas pela mídia para vincular nossa aparência a uma luta de classes, sem perceber as implicações disso na nossa auto-estima.

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Cynthia Semíramis

Professora de Direito, desenvolve pesquisa sobre direitos das mulheres. Mora em Belo Horizonte-MG.

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