A nova lei: as entrelinhas de Minority Report
Autora: Cynthia Semíramis Machado Vianna
Minority Report é um filme desagradável. Não pela produção, bem cuidada, ou pelas “homenagens” a clássicos do cinema, que criam um clima déjà-vu, mas pela banalização de questões importantes, como a privacidade, o consumismo e as novas formas de controle e repressão, baseadas na identificação total e perda de privacidade. A produção se esmerou tanto que é fácil acreditar que o futuro será semelhante ao que está no filme, e o deslumbramento impede o público de perceber situações que banalizam direitos fundamentais. Analisarei, neste artigo, algumas das questões deixadas em segundo plano pelo filme, explicando sua relação com a violação de direitos fundamentais.
Em princípio, chama a atenção o tema do filme: trata-se de um processo de adivinhação sobre quem será o próximo homicida, a caçada que é feita para impedir o crime e a prisão perpétua por tentativa de homicídio. Só mesmo nos Estados Unidos, reconhecido como pouco respeitoso aos direitos humanos quando se trata de crimes, para que se tenha uma lei dessas. Impedem que o crime se consume, mas punem como se consumado fosse. Sem julgamento, sem possibilidade de defesa, o que importa é apenas a retirada do convívio social de um provável perigo à sociedade. Se realmente houve perigo, não interessa, desde que haja o afastamento da sociedade. Reinserção social, então, nem pensar. E é esse o país que é considerado democrático. Se realmente o fosse, jamais se cogitaria de uma lei, mesmo que em ficção, que restringisse a defesa, desprezasse julgamentos e permitisse prisão perpétua com base em uma denúncia premonitória.
Outra questão interessante no filme é que há duas sociedades: uma, rica, que freqüenta shoppings e tem acesso a boa moradia e computadores fabulosos, e a outra, pobre, espremida em condomínios imensos, caóticos e mal iluminados, sem grandes recursos ou esperanças. Com essa desigualdade social, era de se esperar que o combate ao crime visasse furtos e roubos, mas tal não acontece: a moderna tecnologia se volta apenas para o combate ao homicídio. Fica a dúvida: furtos não são importantes na sociedade do futuro, ou houve algo semelhante a uma domesticação social, para não dizer alienação ou lobotomia coletiva, que impede os crimes originados pela desigualdade social?
A disparidade social também se mostra como reflexo da sociedade de consumo. Quem pode consumir freqüenta shoppings bonitos, bem iluminados, com publicidade em todos os espaços possíveis, é educadamente identificado por um reconhecedor de íris ao entrar no local, sendo induzido ainda a fazer uma compra. Quem não pode consumir é interceptado, em sua moradia, por robôs em forma de aranhas que reconhecem compulsoriamente a íris de todos os que se encontram no local, só lhes restando a submissão a essa invasão. Ou seja, o tratamento diferenciado em função do poder aquisitivo continua existindo no futuro: quem pode pagar recebe identificação suave e respeitosa, quem não pode tem seu domicílio e sua privacidade desrespeitados de forma truculenta.
O reconhecimento de íris segue um raciocínio perverso à parte: ele permite a identificação de qualquer pessoa, mas o filme não explicita como isso é possível, mostrando apenas a parte “divertida” (sugerir produtos para compra), ou menos perigosa, da situação. Mas não é difícil perceber que a identificação é feita através de um banco de dados monumental que interliga reconhecedores de íris nos mais variados locais, arquivos da polícia e empresas de publicidade dirigida. Assim, esse processo de identificação tem duas funções: incentivar o consumo e localizar as pessoas, sejam suspeitas ou não. Essa liberdade vigiada, com traços consumistas, é um atentado à privacidade e ainda um incentivo a um governo totalitário, pois quem tiver acesso a esses bancos de dados pode ser considerado, pelas arbitrariedades que poderá fazer, o dono do mundo.
Outro tipo de arbitrariedade presente no filme é um tema atual, a manipulação da mídia. Tão logo o personagem principal foge e se refugia no metrô, os jornais se alteram para mostrar sua foto, em uma modernização dos cartazes de “Wanted” dos filmes de faroeste. Não há investigação, jornalismo, comunicação isenta. O jornal apenas reproduz a mensagem oficial, enviada pela polícia, e isso passa para a sociedade como se fosse jornalismo.
E, com a divulgação da foto, nota-se ainda um incentivo velado à delação. A simples menção de “procura-se”, com a conivência da mídia, causa medo nas pessoas, e a delação se torna a melhor forma de eliminar a fonte desse medo, restabelecendo a sensação de segurança social. Sabe-se que a sociedade estadunidense, ao longo de sua história, encarou a delação como um benefício social, muitas vezes bem remunerado ou que alivia penalidades para os cúmplices, mas é chocante perceber traços desse comportamento em um filme futurista. Será possível que o passar do tempo manterá essa sociedade obcecada com delações e recompensas? Ou isso faz parte da estrutura social, e impedir tal comportamento é destruir a essência norte-americana?
Após diversas reviravoltas, o filme termina de forma moralista e tocante. Lição do dia: deve-se tomar cuidados para que uma tecnologia tão boa não tenha falhas que podem gerar a dúvida quanto à sua eficácia e implementação. E todos saem felizes do cinema.
Todos? Não! Uma minoria que reconhece o valor ideológico presente no cinema norte-americano está incomodada. Hollywood sempre teve como vilões os inimigos dos estadunidenses, vide gângsters na época da Lei Seca, japoneses e alemães na Segunda Guerra, russos na Guerra Fria, para ficar nos exemplos mais banais. Em Minority Report, o inimigo está disfarçado, e é tão sutil que só será percebido quando for tarde demais e aprovarem “a nova lei”.
Explicando melhor, o filme é, do início ao fim, um atentado à privacidade. Só que, em vez de se questionar ou explicitar essa questão, como filmes excelentes já fizeram (vide 1984 e Matrix), passa-se a idéia de que não existe e não existirá privacidade no futuro, que todos devemos ser completamente identificados e localizados. Mas isso é feito de uma forma tão sutil que é assimilado como verdade.
Já estamos vivendo em uma época em que a privacidade é devassada de inúmeras formas, mas ainda há quem lute para que as novas tecnologias não destruam o que resta de nossa individualidade. Porém, filmes como Minority Report não tratam diretamente essa questão mas criam, por meios sutis, a sensação de que não há contra o que lutar, que é normal não existir vida privada, e que é mais seguro que seja assim. É um filme traidor, pois, disfarçado de história policial moralista, induz a comportamentos prejudiciais à humanidade. E, daqui a alguns anos, quando vier “a nova lei” sobre a identificação plena, é provável que não exista gente suficiente para lutar contra ela.
É essa banalização sutil do controle estatal que torna o filme tão desagradável. É doloroso perceber, a cada cena, que a questão mais importante para a sociedade atual é tratada cuidadosamente para que se reflita contra as pessoas daqui a alguns anos. Pior ainda é pensar que o futuro não será tão limpo e asséptico quanto Minority Report, mas bem semelhante a 1984, com uma sociedade totalmente monitorada e alienada, e sem a menor possibilidade de sair dessa miséria psicológica. Será que ainda seremos humanos, ou um bando de cordeiros caminhado pro abatedouro?