Arquivo do autor:Cynthia Semíramis

Sobre Cynthia Semíramis

Doutoranda em Direito na UFMG. Feminista. Militante pelo Estado laico, direitos das mulheres e direitos LGBT. Pesquisa história dos direitos das mulheres. blog: Cynthia Semiramis .org

Feminismo e depilação

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Recentemente fui entrevistada pela revista O Tempo Livre, do grupo do jornal O Tempo, pra comentar sobre o questionamento dos pelos femininos e a tendência de várias mulheres pararem de se depilar. Como a revista tem circulação limitada, posto aqui a íntegra das minhas respostas.

Por que o questionamento do papel da mulher e sua representação na sociedade passa pelos padrões estéticos?

Em nossa sociedade os papeis de gênero são divididos de forma binária e excludente. O que é considerado masculino deve ser bastante diferente do feminino, e essas regras precisam ser seguidas para que as pessoas tenham aceitação social. Para os homens foi reforçado o papel de líder e provedor; para as mulheres, o papel de frágil e esteticamente agradável. Homens podem ser feios, desde que provedores; mulheres devem ser bonitas e submissas. Questionar este modelo, inclusive o que é bonito ou não em determinada época e sociedade, ou se é válido limitar uma pessoa a um papel de gênero (seja ele relacionado à beleza ou ao suporte financeiro) implica em modificar esses valores sociais e propor outras possibilidades menos restritivas de existência.

Por que os pelos, nas mulheres, são motivo de tanto desprezo?

Essa é uma questão bastante recente, na verdade. Um século atrás não havia toda essa preocupação com pelos femininos: aceitava-se que as mulheres, tal como os homens, tinham pelos e que isso não era um problema nem um limitador social. À medida que mulheres passaram a reivindicar direitos e modificar roupas e costumes a pressão para demarcar papeis de gênero aumentou, influenciando também na aceitação dos pelos e de outras características que diferenciassem o masculino do feminino. Ter pelos, nessa perspectiva, tornou-se sinal de virilidade e marcador do masculino; uma mulher que não se depila invade um território marcado como masculino e é constrangida a controlar seu corpo – e seus pelos – para se feminilizar e ser aceita socialmente. O desprezo aos pelos femininos acabou, assim, sendo utilizado para deslocar a atenção da questão dos direitos e forçar mulheres a se adaptarem a pressões estéticas cada vez mais limitadoras de seu cotidiano.

Por que assumir os pelos se tornou um símbolo do feminismo?

O feminismo aponta e questiona os papeis de gênero que limitam a vida das pessoas, especialmente restringindo direitos das mulheres. E, quando se tem uma sociedade que associa mulheres à aparência, as características relacionadas a aparência devem ser questionadas. Foi assim na década de 60, quando o movimento feminista questionou espartilhos e maquiagem, e é assim hoje quando questionamos a obrigação de se depilar para ser considerada mulher. Esta não é a única pauta feminista, mas é bastante conhecida porque ainda se considera que mulheres devem ser julgadas não por suas atitudes e caráter, mas pela sua capacidade de se adequar a padrões estéticos como os modismos depilatórios.

Estar inserido dentro dos padrões estéticos e papéis impostos culturalmente, como o fato de ser depilar e usar salto alto, significa, necessariamente, estar do lado oposto ao feminismo?

Depilar, usar maquiagem, salto alto, roupas justas ou qualquer outra questão relacionada à aparência não é, por si só, nem feminista nem antifeminista. Pode-se encontrar tanto uma mulher feminista que use maquiagem e decotes, quanto uma mulher religiosa, antifeminista, que considera inadequado se depilar, usar roupas coloridas, salto alto ou maquiagem. É importante ressaltar que feminismo é um movimento social que reivindica direitos e oportunidades iguais para mulheres, e uma das formas de fazer isso é expor os mecanismos sociais que restringem direitos com base na aparência das mulheres. Ou seja, é um movimento de luta por direitos, e não uma seita para impor formas “adequadas” de se vestir ou de se comportar – para isso já existem a moda, religião, família, empresa e diversas outras instituições impondo esses comportamentos. Como as pessoas decidem usar os questionamentos feministas, seja para se rebelar, seguir alguns padrões estéticos, ou todos os padrões, é um exercício de sua liberdade e que não deve ser interpretado como feminismo, antifeminismo nem como algo que limite seus direitos.

De que forma a aceitação dos pelos, por parte das mulheres, tem ajudado a sociedade a refletir as representações de gêneros?

Aceitar os próprios pelos, ou brincar com eles, modificando-os, é uma forma de questionar as obrigações sociais atribuídas às mulheres. Ao questionar e optar por fugir dessas obrigações o que se tem é a percepção de que mulheres e homens são livres para decidirem o que fazer com sua aparência, não perdendo direitos por conta disso. Libertam-se desse tipo de pressão e tornam-se mais satisfeitos com seus próprios corpos. Pelos, roupas, corte de cabelo ou maquiagem são acessórios estéticos; não determinam caráter e jamais deveriam ser levados em conta para respeitabilidade social.

Em que medida e de que maneira o nosso corpo se torna ferramenta para expressar aquilo que pensamos e acreditamos?

O corpo é um espaço em disputa. É pelo corpo que nos situamos no mundo, que nos expressamos, que mostramos como somos e o que desejamos, mas o corpo é também espaço de agressão e de limitação. Quanto mais direitos são reivindicados, mais há uma pressão sobre os corpos para se adaptarem a padrões irreais de beleza. Uma das maiores violências é procurar determinar como as pessoas podem – ou não – usar seus corpos. Isso limita suas possibilidades, subordinando-as a papeis de gênero e a limites que nada têm a ver com a liberdade de se aceitar e de tornar seu corpo o que for mais agradável para si mesma. Negar às pessoas a autodeterminação de seus corpos é uma violência que não deve ser tolerada, pois limita a liberdade e as possibilidades de expressão de felicidade de cada pessoa.

IV Seminário Internacional Política e Feminismo

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nepem 30 anos

Hoje tem início na UFMG o IV Seminário Internacional Política e Feminismo. Ele ocorre em homenagem aos 30 anos do Núcleo de estudos e pesquisa sobre a mulher da UFMG (NEPEM), que tem sido fundamental na formação das gerações de feministas.

As atividades ocorrerão em Belo Horizonte, no campus Pampulha da UFMG, entre os dias 10 a 13 de setembro.

Serão 4 conferências (3 internacionais), 12 mesas redondas e um “diálogo intergeracional” que vai reunir mulheres para discutir os 20 anos do processo de Conferência Internacional de Beijing (Pequim), um marco no debate internacional sobre os direitos das mulheres e nas articulações feministas internacionais.

A abertura será feita por Nadine Gasman, Representante do Escritório da ONU Mulheres no Brasil. A equatoriana Magdalena Leon falará sobre Trajetórias teóricas e diversidade de práticas do campo feminista. A argentina Karina Bidaseca fará Conferência sobre Interseccionalidade e diversidade de teorias e práticas no campo feminista. Na Conferência de encerramento, Claudia Junqueira de Lima Costa – da Universidade Federal de Santa Catarina – aborda o tema Descolonizando e despatriarcalizando os corpos, as sociedades e os Estados.

A programação completa inclui conferências interessantíssimas, oficinas e mesas redondas. Vale MUITO acompanhar o evento.

Eu participo da mesa redonda 8, sobre Feminismos e Ativismos 2.0, junto com a Bruna Provazi (InterAgentes Comunicação Digital), Juliana de Faria Kenski (Campanha Chega de Fiu Fiu) e Natalia Duarte (UFMG). Nos encontraremos na sexta-feira, dia 12 de setembro, 8:30 da manhã. Compareçam!

Saúde, educação e legalização do aborto

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“Untitled (your body is a battleground)” Barbara Kruger, 1989

“Untitled (your body is a battleground)” Barbara Kruger, 1989

Ao longo dos anos setembro se tornou um mês dedicado a discutir o direito ao aborto. Ao invés de nos focarmos no dia 28 de setembro, que é o Dia de Luta pela Descriminalização do Aborto na América Latina e Caribe (e vê-lo apropriado de forma completamente distorcida nas eleições de 2010), dedicar o mês à discussão sobre este direito nos permite aprofundar mais no tema e cair menos nos estereótipos e disputas políticas.

Defendo e continuarei defendendo o direito da mulher de decidir sobre o próprio corpo. Ela é a única pessoa que tem autonomia para dizer se e quando quer ter filhos, e de que forma. A mulher não deixa de ser uma pessoa, sujeito de direitos, por engravidar, e nem deve ser considerada um ser humano menor (ou sem direitos sobre o próprio corpo) simplesmente porque engravidou. Respeitar a mulher (e suas decisões) é respeitar um ser humano.

Deveria ser simples, mas a pressão religiosa e o discurso conservador ainda insistem que mulheres não são gente o suficiente para decidir sobre o próprio corpo.

Meu pesadelo é que essas forças se tornem mais fortes do que já estão, e façam com o Brasil o que aconteceu na Nicarágua ou em diversas regiões do México: a pressão religiosa fez com que qualquer tipo de aborto fosse proibido e o feto fosse considerado como sujeito de direitos. Nessa perspectiva não importa se a mulher corre risco de morte, ou se a gravidez é derivada do estupro (que são os casos de aborto legal atualmente permitidos no Brasil): qualquer tipo de aborto é considerado homicídio, e é qualificado pelo parentesco, acarretando em penas muito mais altas do que as previstas antigamente para o aborto.

Há ainda um terror-bônus: como não é possível identificar se o aborto foi espontâneo (que atinge cerca de 25 a 30% das gestações) ou voluntário, há mulheres (pobres, obviamente, porque as ricas encontram meios seguros para abortar) que estão sendo presas e condenadas por terem sofrido aborto espontâneo.

Situação jurídica do direito ao aborto, segundo dados de 2011 da ONU. Em azul, legalização em todos os casos. Em verde, legalização em caso de estupro, risco de vida, problemas de saúde, fatores socioeconômicos ou má-formação do feto. Em marrom, caso do Brasil atual, legalizado em caso de estupro, risco de vida ou problemas de saúde. Em preto, varia de região para região. Em vermelho o aborto é proibido em todos os casos – a passar o Estatuto do Nascituro, esta será a cor do Brasil.

Situação jurídica do direito ao aborto, segundo dados de 2011 da ONU. Em azul, legalização em todos os casos. Em verde, legalização em caso de estupro, risco de vida, problemas de saúde, fatores socioeconômicos ou má-formação do feto. Em marrom, caso do Brasil atual, legalizado em caso de estupro, risco de vida ou problemas de saúde. Em preto, varia de região para região. Em vermelho o aborto é proibido em todos os casos – a passar o Estatuto do Nascituro, esta será a cor do Brasil.

Nas manifestações de 2013 os atos contra o Estatuto do Nascituro foram engolidos por menções a “mais saúde e educação”. Pois então, precisamos retomar essa discussão: mais saúde para mulheres implica para impedir o Estatuto do Nascituro, legalizar o aborto e diminuir a mortalidade materna; mais educação, para as mulheres, implica em educação jurídica para que as pessoas entendam que mulheres são seres humanos, autônomas, sujeitos de direitos que decidem se e quando terão filhos. Não podem, de forma alguma, serem inferiores e com menos direitos que um feto.

Mulheres não são seres que devem ser obrigados a ter filhos, tal como homens não o são. Mulheres são seres humanos, e têm a liberdade para decidir se querem ser mães, ou não, e de que forma. Cabe a nós respeitarmos essa decisão.

E cabe ao Estado não só descriminalizar, mas principalmente legalizar o aborto, ofertando saúde pública de qualidade para todas as fases do processo reprodutivo (e não só para a prevenção da gravidez, pois ignora os casos de estupro). Isso é o mínimo a ser feito para estancar o horror de clínicas clandestinas e violência que as mulheres atualmente são forçadas a se submeter para exercer o seu direito de escolher quando terão filhos.

Leia também outros artigos meus sobre direito ao aborto e direitos reprodutivos:

Carta aberta à vadiagem de BH

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Desde 2011 construímos e participamos da Marcha das Vadias de Belo Horizonte em uma perspectiva feminista, polifônica, pautada e conduzida por mulheres, com ajuda e apoio de homens. Nosso interesse sempre foi o combate ao senso comum que atribui a culpa à mulher (especialmente pela violência sexual), e também visibilizar questões relacionadas aos direitos e à violência contra prostitutas, contra mulheres negras, lésbicas e transexuais.

Nesse processo procuramos estimular um espaço horizontal e transparente, calcado no respeito e na diversidade. Partimos sempre da percepção de liberdade sexual, autonomia e respeito, bem como da inclusão e diálogo com outros setores. Procuramos o desenvolvimento de atividades em conjunto com diversos coletivos tais como APROSMIG, Palhaças Vadias, Agrupamento Obscena, Coletivo Paisagens Urbanas, Baque de Mina, Espaço Comum Luiz Estrela, Negras Ativas… Buscamos incentivar outras formas de linguagem, como o deboche e as fantasias, tornando as manifestações um espaço lúdico que estimulasse a liberdade e o questionamento de papeis de gênero.

Sem ignorar que algumas de nós já não vínhamos dispondo de tempo e energia para se dedicar à agenda da Marcha, e, com isso, não pudemos comparecer a todos debates presenciais, as tensões que temos encontrado nas tentativas de diálogo na Marcha das Vadias Belo Horizonte dos últimos meses evidenciaram que as participantes atuais não estão de acordo com os valores que orientaram o coletivo até então.

Não cabe aqui fazer a retrospectiva dessa dificuldade de diálogo entre todas as pessoas que participam do grupo de organização do coletivo. Podemos resumir a questão a uma postagem recente em que houve um posicionamento explícito das novas integrantes: ignoraram a construção anterior, criticaram as antigas administradoras da página da Marcha das Vadias BH, demonstraram ignorância a respeito dos critérios que sempre foram utilizados para incluir moderadoras e optaram por implantar uma nova política editorial em relação ao conteúdo a ser divulgado.

Não há informações claras sobre qual é essa nova política, embora perceba-se a mudança de enfoque: a página vem sendo alimentada com conteúdo que reforça a vitimização das mulheres, além de comentários transfóbicos e desinformação sobre exploração sexual e prostituição. Nota-se uma tentativa de hierarquizar situações de violência para privilegiar uma ideia de sororidade polarizada e maniqueísta, pautada na androfobia, transfobia e silenciamento das discordâncias. Isso dificulta o diálogo com outros setores da sociedade, excluindo diversas perspectivas, igualmente válidas, sobre identidade e igualdade de gênero, políticas anti-discriminação e respeito aos direitos de todas as mulheres.

Consideramos que a falta de explicações mais claras sobre a nova política editorial, a tendência a segregar algumas mulheres, a apartar quem expressa discordância a ideias, a reforçar a vitimização das mulheres e a tratar homens como necessariamente agressores ou inimigos – ignorando os debates prévios no grupo acerca de binarismos, identidade de gênero e diálogo com homens – são condutas que não estão de acordo com os valores que nortearam, até então, a criação da Marcha das Vadias de Belo Horizonte.

Se, por um lado, entendemos que divergências, mais que bem-vindas, são necessárias à construção de um grupo de luta que se pretenda múltiplo e polifônico, por outro, consideramos que a existência de qualquer coletivo deva também estar alicerçada em pilares ideológicos comuns, cenário que não pode ser vislumbrado neste momento.

Assim, após quatro anos contribuindo para a construção do movimento, optamos por nos desvincular do seu núcleo de organização, por não estarmos de acordo com as diretrizes que vem sendo propostas.

Nossa luta continua – seja em outros coletivos dos quais fazemos parte, seja nas nossas trajetórias individuais – na busca por mais liberdade, vadiagem e um feminismo que ultrapasse os binarismos de gênero.

Adriana Torres
Cynthia Semíramis
Débora Vieira
Renata de Oliveira Lima

Publicado originalmente no Facebook em 02 de julho de 2014.

Feminismos, protagonismo e manipulação política

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Estou bem chocada com uma situação bizarra que está acontecendo aqui em Belo Horizonte. Um rapaz tirou foto apoiando a Marcha das Vadias de BH. A foto dele recebeu comentários extremamente agressivos e ele foi acusado de estar roubando o protagonismo da Marcha. Me expliquem: como que UMA FOTO de um apoiador pode ser encarada como roubo de protagonismo?

Como se não bastasse essa supervalorização da foto, ela foi colocada em uma montagem com a seguinte frase: “Vou tirar delas a única coisa que elas ainda têm: o protagonismo em seus movimentos“.

Atribuíram ao rapaz a intenção deliberada de usurpar o protagonismo das mulheres no movimento feminista. Ou seja, quem INVENTOU que ele era protagonista ESCOLHEU a foto dele pra protagonista e ampliou o discurso para virar uma oposição homens x mulheres, sendo os homens os vilões e as mulheres as mocinhas, vítimas indefesas.

Tem uma série de problemas nesse discurso:

1. a frase da fotomontagem parte da ideia de que mulheres não obtiveram até hoje nenhuma melhora em suas vidas, o movimento feminista é pra reivindicar, reivindicar, e só. Isso é MENTIRA. Nós, feministas, conquistamos DIREITOS para mulheres. Muitos. Nunca foi tão bom ser mulher: houve época que não éramos nem sujeitos de direito, não podíamos estudar, divorciar, ter guarda dos filhos, liberdade sexual, direitos trabalhistas. Temos muito pra melhorar e ampliar nossos direitos ainda (e taí o movimento feminista agindo pra mudar isso) mas daí a ignorar todas as conquistas feministas das últimas décadas vai uma longa distância. E é disseminar ignorância fingir que não conquistamos nada.

2. Homens como opressores e mulheres como vítimas. Esse é o raciocínio conservador, que retira das mulheres a capacidade de agência. Aí mulheres são reconhecidas apenas quando são vítimas. É uma pena que parte do movimento feminista venha trabalhando somente com essa hipótese, perdendo de vista as nuances que tornam seres humanos tão interessantes e complexos. Homens não são necessariamente vilões, mulheres não são necessariamente vítimas ou boazinhas. Seres humanos são complexos e têm intenções nem sempre tão evidentes assim, que podem tranquilamente ser mascaradas (sério que vocês nunca viram um homem que é agressivo para esconder fragilidade ou uma mulher que se faz de vítima para ter direitos reconhecidos?) Raciocínio feminista é exatamente o oposto: mulheres não são vítimas da sociedade, elas têm capacidade de decidir o que fazer com suas vidas e direcionar suas lutas.

3. Homem sempre como o opressor. É a continuação do raciocínio anterior. Tratar homens como opressores, manipuladores e inimigos a priori rotula as partes e impede o diálogo e a mudança de mentalidade. Isso não ajuda em nada a ampliar o debate sobre discriminação de gênero. Mas atende muito bem a quem quer brincar de novela e criar um inimigo pra ser combatido. Gostaria muito que se lembrassem que não é tudo tão fixo assim: a resistência à reivindicação de direitos existe tanto por parte de homens quanto de mulheres. E as conquistas de direitos das mulheres sempre tiveram apoio masculino (muitas vezes, eram somente eles decidindo, como no direito de voto feminino). Enquanto parte do movimento feminista ficar na presunção de que homem é sempre opressor não vai ter diálogo nem mudança de mentalidade ou conquista de direitos. Ou seja, um mundo muito pior pras mulheres. É esse o objetivo? Espero que não.

Enfim: protagonismo é um processo LENTO de construção. E é preocupante que feministas vejam uma foto de um homem apoiando o movimento e O ELEJAM para protagonista, apenas para criticá-lo. Linchar um pretenso inimigo desvia o foco do que realmente interessa, que são os direitos das mulheres. E não é nada bonito acusar os homens de manipuladores quando o que se está fazendo é manipular uma foto, retirando-a de contexto, para criar um bode expiatório.

Não sei a quem interessa essa confusão, mas certamente, não contribuiu em nada para mudarmos a mentalidade e melhorarmos a discussão sobre direitos das mulheres.

Publicado originalmente no Facebook em 25 de maio de 2014