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Sobre Cynthia Semíramis

Doutoranda em Direito na UFMG. Feminista. Pesquisa história dos direitos das mulheres. blog: Cynthia Semiramis .org

Feminismos, neofeminismo e a luta pelos direitos das mulheres

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Existe muita desinformação sobre feminismo. É comum as pessoas acharem – erroneamente – que qualquer movimento de mulheres é feminista, ou que qualquer tema de estudo que envolva mulheres é feminista. Também é comum falar em movimentos neofeministas como uma etapa mais contemporânea do feminismo, sendo que muitas vezes se trata de movimentos anti-feministas.

O que caracteriza o feminismo é a discussão sobre igualdade de direitos. As mulheres foram (e ainda são) discriminadas juridicamente, e são as feministas que lutam para que essa discriminação deixe de existir.

Porém o feminismo não é único. Há controvérsias teóricas sobre como esses direitos devem ser interpretados, e cada grupo feminista tem uma abordagem diferente acerca desses direitos e possibilidades.

Publiquei na Revista Fórum nº119 um artigo expondo as diferentes vertentes feministas sob a ótica jurídica e seus métodos de atuação.

Para se afirmar que um movimento é feminista é necessário que ele seja um movimento que procure questionar o papel das mulheres na sociedade e que atue para ampliar os seus direitos. Cabe lembrar que historicamente as mulheres foram consideradas juridicamente incapazes e subordinadas aos homens. O que o movimento feminista faz é lutar para que as mulheres obtenham os mesmos direitos que os homens já têm desde o início do século XIX. Para fazer isso, é necessário que haja uma mudança jurídica que proporcione a igualdade de gênero. Porém, os posicionamentos ideológicos dos grupos feministas variam, produzindo resultados diferentes em relação aos direitos das mulheres.

Quando se fala de feminismos e de uma nova geração feminista, é necessário atentar para os direitos que estão sendo discutidos. Se é uma restrição, relegando as mulheres ao papel tradicional de símbolo sexual, mãe, esposa e dona de casa, trata-se de um movimento antifeminista, e não há rótulo como neofeminismo ou pós-feminismo capaz de modificar o fato de que estão limitando as possibilidades de vida para as mulheres. Se são usados novos métodos para velhas reivindicações, ampliando e consolidando direitos, estamos falando do movimento feminista. O mesmo que, desde o início do século XX, luta para melhorar a vida das mulheres, ampliando seus direitos e suas possibilidades de escolher o que é melhor para sua vida.

Continue lendo o artigo no site da Revista Fórum

Em defesa do Estado

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Tenho visto com bastante frequência o argumento de que não se deve fortalecer o Estado para lutar por direitos humanos. Afirmam que o Estado por si só é poderoso demais e que devemos fortalecer outras instituições para que se igualem em poder ao Estado. E muitas das pessoas que defendem esse pensamento optam por se retirar da arena política, fragilizando a discussão sobre Estado e direitos humanos.

Na Revista Fórum nº 109 publiquei um artigo criticando esse posicionamento e explicando por que é tão prejudicial à discussão sobre direitos humanos e responsabilidade do Estado.

Abandonar a luta política e optar por desvalorizar o Estado significa a negação de um processo de conquista de direitos de grupos historicamente discriminados. As mulheres só obtiveram direitos porque argumentaram pela igualdade com base nas regras do Estado moderno; de outra forma, estariam ainda sendo proibidas de estudar, porque a instituição família e a maioria das instituições religiosas consideram que mulheres não precisam de educação quando sua função é ser apenas mães e esposas. Da mesma forma, se hoje o racismo é combatido, o casamento não é mais perpétuo e pessoas homossexuais têm seus direitos civis reconhecidos, isso se deve à compreensão do papel do Estado nas sociedades modernas: ele possibilitou a construção de um discurso para reivindicar direitos e impedir que fossem restringidos por causa das regras de uma ou outra instituição.

Leia o artigo completo no site da Revista Fórum

Uma “homenagem” abusiva

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Esse anúncio horrendo foi publicado pela Agência Black (de Porto Alegre) como “homenagem” pelo dia dos ginecologistas. As críticas foram tantas que a agência já tirou o anúncio do ar (a imagem acima é um print feito pelo Edgar Demutti) e agora tem de lidar com a repercussão negativa. Infelizmente, vi várias pessoas rindo e achando que é uma brincadeira, que é papo de buteco. Não é.

Existe um mito de que mulher é linda e que tem de ser admirada. Só que mulher não é enfeite, tipo um vaso ou um quadro cuja única função é ser admirado. Mulheres são seres humanos, e suas vidas são bem mais complexas do que a de um enfeite. Mulheres não precisam ser admiradas a todo momento, e não faz o menor sentido serem admiradas quando estão em uma consulta médica para cuidar da saúde. Mulheres têm o direito de escolher se e quando querem ser tocadas, inclusive de forma sexual – e certamente não vão querer que a consulta médica se transforme em uma sessão não consentida de atos sexuais, como é o subtexto desse tipo de “homenagem” ou “piada”.

A inveja dos publicitários não é por ginecologistas trabalharem cuidando das partes íntimas femininas, mas por terem a oportunidade de assédio sem serem punidos e ainda serem pagos pra fazer isso.

Existem profissionais sérios na área de saúde. Só que há também muitos e muitos casos de assédio nas consultas e exames. Roger Abdelmassih é o mais famoso, e só ficou famoso porque abusou de pacientes ricas. Muitas mulheres têm medo de voltar ao médico por causa de assédio, e têm medo de reclamar e serem mais maltratadas do que já foram. Descuidar da saúde acaba sendo melhor para elas do que continuar sofrendo nas consultas e exames.

Não ajuda nada que na foto da “homenagem” tenha colocado uma adolescente, jogando com o fetiche da estudante e reforçando o conteúdo de abuso sexual.

Não importa o quanto algumas pessoas gostem de mulheres no sentido afetivo e sexual, isso não dá a essas pessoas o direito de achar que mulher está na frente delas apenas para ser admirada ou assediada, deixando a discussão sobre saúde e sobre seu consentimento em segundo (ou último) plano.

E a quem achou interessante a ideia de inveja, um aviso: perceba que você incorporarou automaticamente o papel do abusador, do médico sem ética que aproveita a consulta para violar a paciente. Por favor, exercite a empatia, coloque-se no lugar da paciente e pense se realmente gostaria de ser alvo desse tipo de “homenagem” abusiva.

Femen Brazil: o reality show

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Nas últimas semanas as pessoas têm me perguntado qual a minha opinião sobre o Femen. Pelo que já li, não compartilho com as ideias do grupo em relação à prostituição, mas estava esperando para ver como o grupo se desenvolve, e especialmente como seria a adaptação das ideias das ucranianas (que a gente só conhece por vias tortas, através de mil traduções e reportagens que podem não ser confiáveis) ao Brasil. O Femen ucraniano existe desde 2008, mas o brasileiro só começou depois que Sara Winter foi fazer um estágio na Ucrânia em junho deste ano.

Bom, eu continuo esperando maiores informações. E não só eu. Várias feministas [ver lista de links no final deste post] estão questionando o Femen Brazil (é, com Z mesmo) e tentando saber ao certo quais os objetivos do Femen, que vem sendo apresentado pela mídia como o que há de mais importante no feminismo atual. Porém, o que vimos até agora não é nada animador.

Semana passada estouraram no Facebook inúmeras críticas a Sara Winter, porta-voz do Femen BR. Um post antigo dela criticava veementemente a Marcha das Vadias (sendo que em entrevistas recentes Sara afirmou que parte da inspiração do Femen BR se deve à Marcha das Vadias). Também foi criticada por se definir como direita nacionalista, ter tatuado uma cruz de ferro e considerar Plínio Salgado, Ronald Reagan e Getúlio Vargas (notórios opositores dos direitos das mulheres) como pessoas que a inspiram.

Em resposta às críticas, o Femen BR publicou no facebook uma nota dizendo-se apolítico (lembrando que feminismo é um movimento de caráter político). Tentaram consertar para apartidário, mas a confusão nos comentários foi tanta que apagaram o tópico. Sara Winter pediu que enviássemos perguntas, fez uma twitcam para se explicar, mas não explicou muita coisa.

A última nota de esclarecimentos Femen BR é rasa, não explicando questões importantes: por que se definem como neofeministas, a qual feminismo se filiam, quais são seus objetivos, quais serão as ações concretas do grupo, etc. Gabi Santos, que chegou a entrar para o Femen BR, fez uma carta aberta explicando por que estava saindo do grupo e reclamando da falta de informações.

O que tem me intrigado é que o Femen Br está em seu início ainda, não é registrado como ong e nem está consolidado, mas já recebe doações, vende produtos e é tratado pela mídia como um grupo feminista tradicional que merece todas as atenções (inclusive entrevista na Marília Gabriela, participação no SuperPop e na CasaTPM).

Cada ação do Femen BR recebe atenção midiática, transformando a criação e ampliação do grupo em um reality show. Sabemos que nudez feminina rende cliques e anunciantes enquanto manifestações tradicionais são descritas como “gente chata atrapalhando o trânsito”. Mas eu não imaginava que o desespero por cliques que caracteriza o jornalismo punheteiro havia chegado ao ponto de divulgarem cada manifestação de 2 ou 3 mulheres de topless pertencentes a um grupo que não disse ainda a que veio.

Enquanto a mídia deslumbrada se dedica ao reality show Femen Br, a blogosfera (especialmente no facebook) mais uma vez faz o que jornalistas se esqueceram de fazer: desconfiar dos silêncios, das respostas fáceis e da falta de diálogo com movimentos sociais:

Enfim, é curioso constatar que a blogosfera tem feito as perguntas incômodas, não respeitado os silêncios e ido atrás das respostas, fazendo o trabalho que jornalistas têm evitado fazer. E agora, como parte do reality show, o que temos visto é a apropriação das investigações pela grande mídia, criando o cenário para demonizar Sara Winter (pelo seu passado) e o Femen Br pelos silêncios.

A novela segue, mas o que me incomoda é que até agora não sabemos exatamente o que o Femen Br quer, ou quais são seus planos, questionamentos e contribuições para o feminismo brasileiro.

Leiam também:

Marcha das Vadias 2012

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No dia 26 de maio, sábado, teremos Marcha das Vadias em diversas cidades brasileiras. A lista completa das cidades participantes pode ser lida neste link.

A Marcha das Vadias de Belo Horizonte será no sábado 26 de maio, 13.00h, faça chuva, frio ou sol. A concentração será na Praça da Rodoviária às 13h. Saída às 14:00h em direção à Praça da Estação, passando pela Rua Guaicurus. Da Praça da Estação, a marcha sobe a rua da Bahia em direção à Praça da Liberdade. Venham participar também!

Como já falei antes, a Marcha das Vadias é uma passeata feminista pela liberdade das mulheres: para que as mulheres possam ser livres para serem quem quiserem ser, sem sofrerem violência ou precisarem se adequar a regras restritivas e ofensivas. O termo “vadia” é fundamental aqui, pois simboliza o xingamento máximo para mulheres atualmente. Somos chamadas de vadias porque queremos ser livres. E é impressionante como liberdade incomoda a ponto de quererem nos agredir e nos calar. Precisamos quebrar esse ciclo!

Recebeu cantada na rua? Só pode ser porque está vestida como uma vadia. Passaram a mão em você no ônibus? Vadia, se deu ao desfrute! Resolveu ir com uma saia curta na faculdade? Chame-se Geisy ou não, você será declarada como vadia. Transou com o cara no primeiro encontro? Vadia, disponível. Já teve mais de cinco namorados? Nossa, vadia! Foi estuprada? O que você fez para provocar isso? Que mole você deu? [continue lendo "Vadias somos todas nós" no blog da Maíra Kubík Mano]

Na mesma linha tem este vídeo da Marcha das Vadias do Distrito Federal: Ai, que vadia!