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Roda de Conversa: história das desigualdades entre mulheres e homens

Roda de Conversa: história das desigualdades entre mulheres e homens

Durante a 3ª Conferência Nacional de Políticas para Mulheres ocorreram diversas rodas de convesa, algumas delas registradas no blog do evento. Uma das rodas de conversa foi sobre História das Desigualdades entre Mulheres e Homens, direcionada por apresentações das historiadoras Maria Izilda Santos de Matos (PUC-SP) e Natalia Pietra Méndez (UCS). Fui ao auditório para acompanhar a roda de conversa como parte do público, pois o tema me interessa bastante. Houve uma coincidência de horários que fez com que a coordenadora e a relatora originalmente designadas ficassem presas em uma outra reunião. Palestrantes e público optaram por começar sem elas e na redistribuição de papéis acabou que eu me tornei a relatora da roda de conversa. este post é pra fazer um breve resumo de pontos da conversa que me pareceram mais relevantes, e espero poder colocar aqui futuramente o relatório na íntegra.

Maria Izilda contou a história do movimento feminista, mostrando que embora tenha havido grandes mudanças nas relações entre feminino e masculino, ainda há uma separação entre espaço público (englobando trabalho e política, consideradas áreas masculinas) e espaço privado (englobando o espaço doméstico e sendo considerado área exclusivamente feminina) que precisa ser modificada para que haja efetivo combate às desigualdades.

Ao falar sobre temas que considera mais importantes atualmente, Maria Izilda destacou os que se relacionam ao corpo das mulheres. Infartos e doenças cardiovasculares são as principais causas de morte feminina, mas as políticas de saúde estão reduzidas aos órgãos reprodutivos: “é como se mulher não tivesse coração, só tivesse útero”, lamentou. Em seguida, provocou: o que o saber médico, o discurso jurídico e religioso nos ensinaram a fazer com nosso corpo? E como nesse processo nós construímos noções de feminino e masculino a partir desses discursos do corpo? Essas são questões importantes para combater as desigualdades, pois mostram que a construção de discursos sobre os corpos pode limitar as oportunidades das mulheres.

Natalia Pietra falou sobre o trabalho feminino, explicando que mulheres sempre trabalharam, mas as autoridades consideravam que esse trabalho não era legítimo, e por isso não o registravam. Isso invisibilizou o trabalho feminino, criando o mito de que mulheres só passaram a trabalhar no século XX.

Explicando sobre diferença de salários, Natalia observou que existe uma diferenciação sexual do trabalho que reforça a discriminação: valores atribuídos ao masculino (liderança, astúcia para negócios) são considerados como resultado de investimento em aprendizado e que por isso deve ser bem remunerado, enquanto que os valores associados ao trabalho feminino (cuidado com outras pessoas, destreza manual, artesanato, trabalho doméstico) são considerados um dom, sem investimento em aprendizado, e que por isso não mereceriam remuneração ou teriam valor menor que o trabalho masculino. É necessário romper essa barreira, mostrando que o trabalho feminino também decorre de investimento em aprendizado, para que diminuam as desigualdades no mundo do trabalho.

Uma questão importante que foi abordada é a alegação de que mulheres não ascendem a cargos de liderança porque não podem trabalhar até mais tarde, dobrar turnos ou viajar. Natalia desmontou esse argumento lembrando que ele não é sequer mencionado quando a área de trabalho é considerada feminina (como nos longos turnos de profissionais de saúde e viagens constantes de aeromoças). Ou seja, o discurso empresarial é discriminatório, negando às mulheres o direito de atuarem em áreas consideradas masculinas.

Durante a conversa foi mencionada pela participante Rose Vargas a tese da profa.Ângela Maria da Silva Gomes, defendida na UFMG em 2009. A tese Rotas e diálogos de saberes da etnobotânica transatlântica negroafricana: terreiros, quilombos, quintais da Grande BH [PDF]. A pesquisa analisou as plantas indicadas em terreiros de candomblé, concluindo que são as mesmas plantas que nossas antepassadas tinham nos quintais e usavam para cuidar dos doentes. Ao rastrear a origem dessas plantas, a pesquisa identificou que são de origem africana. Esses saberes não são nem reconhecidos nem valorizados, invisibilizando a história das mulheres negras.

Um ponto em comum em diversas falas foi a nítida preocupação de todas em relação à conquista e manutenção de direitos para as mulheres. Como possíveis caminhos a serem seguidos, Maria Izilda considera que é importante resgatar a história das mulheres, que corre o risco de ser apagada. Além disso, é necessário tirar as questões das mulheres da marginalidade, desenvolvendo pesquisas aliadas com ação política.

A participante Fabíola observou que programas como o Proerd influenciam as crianças, modificando seu comportamento e levando a discussão para dentro de casa. Ela questiona: por que a gente não consegue fazer programas como esses para entrar nas casas e modificar o comportamento de todas as pessoas, a começar pelas crianças, para diminuir as desigualdades entre mulheres e homens?

Natalia Pietra considerou que a história de qualquer coletivo, inclusive das mulheres, é uma história em construção, não linear, com avanços e recuos. Ela acha que é necessário estarmos atentas a movimentos de recuo (como a atual transformação do 08 de março em data de consumo, e não de luta), pois estão esvaziando datas de luta e reflexão, aumentando as desigualdades entre mulheres e homens.

Michelle Bachelet fala sobre internet às Blogueiras Feministas

Michelle Bachelet fala sobre internet às Blogueiras Feministas

Michelle Bachelet lutou contra a ditatura chilena e, em 2006, tornou-se a primeira presidenta do Chile. Atualmente ela é a diretora executiva da ONU Mulheres, uma entidade das Nações Unidas dedicada à igualdade de gênero e ao empoderamento das mulheres.

Na noite do dia 14 de dezembro, Michelle Bachelet discursou (transcrição em espanhol) na 3° Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres. Afirmou que não há desenvolvimento, nem sustentabilidade, sem que as mulheres sejam incluídas em todos os processos, áreas e níveis, inclusive em relação a participação política. Ressaltou a união das mulheres brasileiras em torno de um processo político de luta, que inclui mulheres dos mais remotos lugares da selva amazônica, do agreste nordestino, da periferia das grandes metrópoles, das comunidades rurais, entre outras. Todas representantes e conhecedoras da realidade cotidiana das mulheres e preparadas para construir juntas propostas e reivindicações fundamentais para uma sociedade mais justa e igualitária.

É a primeira vez que Michelle Bachelet visita o Brasil na qualidade de Subsecretária Geral da ONU e Diretora Executiva da ONU Mulheres, entidade criada em 2010, que iniciou suas atividades em 2011. A criação da Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres, denominada ONU Mulheres, é uma vitória para o movimento de defesa das mulheres no mundo. E reforça a importância da existência de órgãos governamentais específicos para mulheres.

Quando presidiu o Chile, Michelle Bachelet contou que percebeu que os programas econômicos não eram suficientes para acolher mulheres desempregadas, por exemplo. “Não pode haver políticas neutras porque elas não atingem as mulheres. As políticas precisam ter especificidade de gênero, senão o resultado não será sustentado e nem garantirá os direitos”, disse a representante das Nações Unidas (ONU), ao participar da 3ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, iniciada na última segunda-feira (12).

Sobre desafios a serem superados, a diretora apontou o baixo número de mulheres em cargos políticos e também nos postos de negociação de acordos de paz em países com conflitos e guerras civis. Dos 194 países integrantes das Nações Unidas, somente 20 são chefiados por uma mulher e elas ocupam menos de 20% das cadeiras nos parlamentos mundiais. Para Michelle Bachelet, a reforma política é um bom caminho para mudar esse cenário trazendo como opção listas fechadas com número igual de candidatos homens e mulheres.

Continue lendo em Michelle Bachelet defende que políticas econômicas e sociais levem em conta as necessidades das mulheres. Matéria de Carolina Pimentel, repórter da Agência Brasil.

Bachelet relembrou semelhanças entre ela e a presidenta Dilma. Ambas, há trinta anos atrás, eram jovens comprometidas com a atividade política, militando pela democracia em contextos extremamente desfavoráveis em seus países. Naquela época a presença de mulheres em altos cargos era um sonho, mas hoje, afirma Bacheler: “nós podemos”. Ao finalizar seu discurso pediu a todas as mulheres presentes que tenham sempre em mente o que já foi conquistado para se inspirarem no futuro, pois, tomando emprestadas as palavras de Dilma: “tenho certeza, senhoras e senhores, de que este será o século das mulheres”.

Maíra Kubik e eu enfrentamos o sufoco criado por diversos jornalistas, fotógrafos e fãs que avançaram sobre Michelle Bachelet na sua saída do palco. No meio da confusão tivemos a oportunidade de perguntar sobre a importância da internet para mobilizar as mulheres. Confira o áudio com a resposta de Bachelet e abaixo a transcrição:

https://player.soundcloud.com/player.swf?url=http%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F30704507 Michelle Bachelet fala sobre internet by srtabia

“É uma ferramenta moderna, que pode chegar aos jovens de uma maneira atrativa e interessante para uma mensagem muito importante, como a da liberdade da mulher. Mas também para informar, para denunciar, para democratizar a informação. Vimos um processo político na África do Norte, onde tive a oportunidade de estar com jovens da Praça Tahir, onde eles usaram meios novos e além disso, tinha uma reunião com elas e estavam mandando Twitter a todos os seus amigos e amigas. A reunião foi muito maior” [tradução de Maíra Kubik]

Texto elaborado em parceria com a Srta. Bia e publicado originalmente no Blogueiras Feministas em 15/12/2011.

Hino Nacional na abertura da 3ª Conferência Nacional de Políticas para Mulheres

Hino Nacional na abertura da 3ª Conferência Nacional de Políticas para Mulheres

A abertura da Conferência ocorreu no dia 12 de dezembro. Fiz um post para o Blogueiras Feministas focando em pontos bastante delicados do discurso da presidenta Dilma Rousseff.

Aqui eu quero falar de um momento marcante para mim. Não sou fã da execução do Hino Nacional em eventos. Cresci durante a ditadura militar, aprendi a cantar o hino em “hora cívica” toda semana, e ainda hoje associo o Hino Nacional a opressão, autoritarismo e ditadura. E não ajuda em nada que o Hino seja sempre cantado/tocado de forma burocrática, bem de acordo com as regras que prevaleciam trinta anos atrás.

Por isso, foi fabuloso ouvir na abertura da 3ª Conferência uma versão lindíssima do Hino Nacional, cantada por Ellen Oléria e tocado pelo grupo feminino de percussão Batalá.

Ainda não consegui encontrar o vídeo da cerimônia de abertura com a execução do Hino Nacional, portanto deixo aqui um vídeo do ensaio:

Abertura da 3ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres

Abertura da 3ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres

A abertura da 3ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres teve a atriz Dira Paes como mestre de cerimônia.O Hino Nacional recebeu uma versão belíssima cantado por Ellen Oléria e tocado pelo grupo feminino de percussão Batalá.

A fala da ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), Iriny Lopes, abriu a Conferência. Pulou as saudações de praxe para se direcionar às participantes, explicando os problemas estruturais enfrentados pela organização: a empresa que venceu a licitação para organizar a Conferência simplesmente desistiu de organizá-la faltando 10 dias para o evento, cancelando todas as reservas e providências já realizadas. A SPM optou por manter o evento na data prevista e fazer nova contratação, mas o prazo foi curto demais e na data da abertura ainda estavam resolvendo alguns problemas. A ministra enfatizou o empenho da SPM para realizar a Conferência. Afinal, se fosse adiada para o ano que vem a Conferência provavelmente não aconteceria (é ano eleitoral, interferindo no calendário administrativo). A ministra finalizou destacando que a única das Conferências Nacionais que terá a presença da presidenta é esta, de políticas para mulheres.

Em seguida, a presidenta Dilma Rousseff fez seu discurso [aúdio em mp3 | transcrição]. Iniciou garantindo a todas as participantes hospedagem e alimentação, e que elas não seriam prejudicadas pelas falhas da organização.

O ponto alto do discurso da presidenta, e que está em todas as notícias de hoje, foi o momento em que ela garantiu que a SPM não será extinta nem fundida a outro ministério, acabando com boatos a esse respeito. No entanto, a presidenta não falou nada sobre a redução do orçamento para a SPM.

A presidenta focou seu discurso nas políticas para mulheres que perpassaram o governo Lula e que estão sendo desenvolvidas em sua gestão. Afirmou que as mulheres têm uma força imensa porque geram vida e, acrescentou que são elas as responsáveis pela criação de homens e mulheres. Reforçou a responsabilidade das mães pontuando diversas políticas públicas e benefícios voltados para a família, que tem recursos entregues diretamente a elas. Ao falar de saúde da mulher, falou apenas das gestantes e da prevenção de câncer de mama e do colo de útero, deixando de lado questões de saúde que atingem as mulheres e que não estão ligadas a reprodução.

Essas observações me parecem bastante preocupantes, pois associam mulheres a maternidade – quando maternidade deveria ser uma opção, não uma obrigação. Além disso, reforçam estereótipos sobre mulheres que vêm sendo criticados por feministas nos últimos cinquenta anos, especialmente a pressão para mulheres serem perfeitas e o mito de que só mulheres são responsáveis pela criação e educação das pessoas. Na Conferência, o discurso soou bastante deslocado. Como observou Maíra Kubík Mano: Talvez não fosse o lugar para louvar a maternidade como característica mais importante da mulher..

Um ponto específico do discurso me incomodou bastante:

Sabemos que o exercício da violência privada é um momento dramático porque mostra para crianças algo que as crianças deviam evitar também, que é o contato com uma forma de violência covarde, é o contato com uma forma de violência que não tem justificativa e, por isso, tem de ser criminalizada, sim.

A violência privada é um momento dramático porque a dignidade, a integridade física e psicológica da mulher estão sendo violadas. As crianças assistirem a momentos violentos é um problema, sim, mas menor do que a violência sofrida pela mulher, seja com ou sem testemunhas. É importante reforçar este ponto, pois a violência contra mulher não pode ser jamais relativizada em nome da família, sob pena de colocar a mulher como cidadã de segunda classe, com menos direitos do que o homem e os filhos. Preservar a família ou proteger as crianças não pode se tornar sinônimo de tolerância com a violência contra mulheres.

Espero que os debates na Conferência adotem um ponto de vista mais feminista e menos conservador do que o discurso da presidenta.

Post publicado originalmente no Blogueiras Feministas no dia 13/12/2011.