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Entre o conservadorismo e a autonomia

Entre o conservadorismo e a autonomia

Em dezembro de 2011 ocorreu a 3ª Conferência Nacional de Políticas para Mulheres. Acompanhei a Conferência e escrevi sobre o que presenciei, analisando políticas públicas, conservadorismo e empecilhos para igualdade de gênero:

Em março do ano passado, a presidenta Dilma Rousseff convocou a 3ª Conferência Nacional de Políticas para Mulheres (CNPM), realizada em Brasília em dezembro de 2011. A Conferência tem vários objetivos: analisar a realidade nacional e os desafios para a construção da igualdade de gênero, avaliar e aprimorar as ações e políticas que integraram o II Plano Nacional de Políticas para as Mulheres e definir as prioridades para os próximos anos. A exemplo das edições anteriores (que ocorreram em 2004 e 2007), a 3ª Conferência provavelmente resultará no 3º Plano Nacional de Políticas para Mulheres, norteando o governo Dilma em relação a políticas de combate à desigualdade de gênero.

É necessário discutir qual o caráter das políticas a serem traçadas pela Conferência Nacional, para que elas não reforcem valores conservadores, acentuando a desigualdade de gênero.

Leia o artigo completo no site da Revista Fórum

Dia Internacional da Mulher em Belo Horizonte

Dia Internacional da Mulher em Belo Horizonte

O Dia Internacional da Mulher é uma data de luta, e também de balanço das conquistas e retrocessos nos direitos das mulheres. Há atividades em todas as áreas do conhecimento, em todos os espaços. No Blogueiras Feministas tem uma lista de atividades e manifestações que acontecerão em diversas cidades brasileiras.

Aqui em Belo Horizonte destaco as seguintes atividades:

Teremos também o Ato Público pelo Dia Internacional da Mulher. Ele terá início na Praça da Estação a partir das 15h e seguirá com passeata e ações pelas ruas do centro de BH, terminando na Praça Sete.

Participaram da construção do 08 de março em Minas Gerais: Blogueiras Feministas, Obscena Agrupamento; ALEM; AMB; ANEL; Associação Cultural Odum Orixá; Brigadas Populares; CAAP/UFMG; CACE/UFMG; CACS/UFMG; Coletivo Ana Montenegro; Coletivo Marias de Minas/Lavras; Coletivo Nada Frágil; Coletivo “Paisagens poéticas”; COMDIM; Comitê Popular dos Atingidos pela Copa; Consulta Popular; CRESS/MG; Conselho Regional de Psicologia-MG; CSP-Conlutas; CUT-MG; Instituto Albam; Instituto Helena Greco de Direitos Humanos e Cidadania; Levante Popular da Juventude; MAB; Marcha Mundial de Mulheres; Movimento Mulheres em Luta; Movimento de Mulheres Olga Benário; MPM; MST; PCB; PCR; PSOL; PSTU; PT-BH; Primavera nos Dentes; Quilombo Raça e Classe; Rede Feminista de Saúde; Sind-REDE/BH; Sitraemg; UBM; UNEGRO, Via Campesina.

O NEPEM/UFMG organizou duas atividades: a defesa da tese de Ana Carolina Ogando sobre relações de gênero no Brasil e uma mesa-redonda com as professoras Neuma Aguiar e Marlise Matos:

Compareçam e participem! E, se souberem de outros eventos, deixem as informações aqui nos comentários.

Roda de Conversa: história das desigualdades entre mulheres e homens

Roda de Conversa: história das desigualdades entre mulheres e homens

Durante a 3ª Conferência Nacional de Políticas para Mulheres ocorreram diversas rodas de convesa, algumas delas registradas no blog do evento. Uma das rodas de conversa foi sobre História das Desigualdades entre Mulheres e Homens, direcionada por apresentações das historiadoras Maria Izilda Santos de Matos (PUC-SP) e Natalia Pietra Méndez (UCS). Fui ao auditório para acompanhar a roda de conversa como parte do público, pois o tema me interessa bastante. Houve uma coincidência de horários que fez com que a coordenadora e a relatora originalmente designadas ficassem presas em uma outra reunião. Palestrantes e público optaram por começar sem elas e na redistribuição de papéis acabou que eu me tornei a relatora da roda de conversa. este post é pra fazer um breve resumo de pontos da conversa que me pareceram mais relevantes, e espero poder colocar aqui futuramente o relatório na íntegra.

Maria Izilda contou a história do movimento feminista, mostrando que embora tenha havido grandes mudanças nas relações entre feminino e masculino, ainda há uma separação entre espaço público (englobando trabalho e política, consideradas áreas masculinas) e espaço privado (englobando o espaço doméstico e sendo considerado área exclusivamente feminina) que precisa ser modificada para que haja efetivo combate às desigualdades.

Ao falar sobre temas que considera mais importantes atualmente, Maria Izilda destacou os que se relacionam ao corpo das mulheres. Infartos e doenças cardiovasculares são as principais causas de morte feminina, mas as políticas de saúde estão reduzidas aos órgãos reprodutivos: “é como se mulher não tivesse coração, só tivesse útero”, lamentou. Em seguida, provocou: o que o saber médico, o discurso jurídico e religioso nos ensinaram a fazer com nosso corpo? E como nesse processo nós construímos noções de feminino e masculino a partir desses discursos do corpo? Essas são questões importantes para combater as desigualdades, pois mostram que a construção de discursos sobre os corpos pode limitar as oportunidades das mulheres.

Natalia Pietra falou sobre o trabalho feminino, explicando que mulheres sempre trabalharam, mas as autoridades consideravam que esse trabalho não era legítimo, e por isso não o registravam. Isso invisibilizou o trabalho feminino, criando o mito de que mulheres só passaram a trabalhar no século XX.

Explicando sobre diferença de salários, Natalia observou que existe uma diferenciação sexual do trabalho que reforça a discriminação: valores atribuídos ao masculino (liderança, astúcia para negócios) são considerados como resultado de investimento em aprendizado e que por isso deve ser bem remunerado, enquanto que os valores associados ao trabalho feminino (cuidado com outras pessoas, destreza manual, artesanato, trabalho doméstico) são considerados um dom, sem investimento em aprendizado, e que por isso não mereceriam remuneração ou teriam valor menor que o trabalho masculino. É necessário romper essa barreira, mostrando que o trabalho feminino também decorre de investimento em aprendizado, para que diminuam as desigualdades no mundo do trabalho.

Uma questão importante que foi abordada é a alegação de que mulheres não ascendem a cargos de liderança porque não podem trabalhar até mais tarde, dobrar turnos ou viajar. Natalia desmontou esse argumento lembrando que ele não é sequer mencionado quando a área de trabalho é considerada feminina (como nos longos turnos de profissionais de saúde e viagens constantes de aeromoças). Ou seja, o discurso empresarial é discriminatório, negando às mulheres o direito de atuarem em áreas consideradas masculinas.

Durante a conversa foi mencionada pela participante Rose Vargas a tese da profa.Ângela Maria da Silva Gomes, defendida na UFMG em 2009. A tese Rotas e diálogos de saberes da etnobotânica transatlântica negroafricana: terreiros, quilombos, quintais da Grande BH [PDF]. A pesquisa analisou as plantas indicadas em terreiros de candomblé, concluindo que são as mesmas plantas que nossas antepassadas tinham nos quintais e usavam para cuidar dos doentes. Ao rastrear a origem dessas plantas, a pesquisa identificou que são de origem africana. Esses saberes não são nem reconhecidos nem valorizados, invisibilizando a história das mulheres negras.

Um ponto em comum em diversas falas foi a nítida preocupação de todas em relação à conquista e manutenção de direitos para as mulheres. Como possíveis caminhos a serem seguidos, Maria Izilda considera que é importante resgatar a história das mulheres, que corre o risco de ser apagada. Além disso, é necessário tirar as questões das mulheres da marginalidade, desenvolvendo pesquisas aliadas com ação política.

A participante Fabíola observou que programas como o Proerd influenciam as crianças, modificando seu comportamento e levando a discussão para dentro de casa. Ela questiona: por que a gente não consegue fazer programas como esses para entrar nas casas e modificar o comportamento de todas as pessoas, a começar pelas crianças, para diminuir as desigualdades entre mulheres e homens?

Natalia Pietra considerou que a história de qualquer coletivo, inclusive das mulheres, é uma história em construção, não linear, com avanços e recuos. Ela acha que é necessário estarmos atentas a movimentos de recuo (como a atual transformação do 08 de março em data de consumo, e não de luta), pois estão esvaziando datas de luta e reflexão, aumentando as desigualdades entre mulheres e homens.

Michelle Bachelet fala sobre internet às Blogueiras Feministas

Michelle Bachelet fala sobre internet às Blogueiras Feministas

Michelle Bachelet lutou contra a ditatura chilena e, em 2006, tornou-se a primeira presidenta do Chile. Atualmente ela é a diretora executiva da ONU Mulheres, uma entidade das Nações Unidas dedicada à igualdade de gênero e ao empoderamento das mulheres.

Na noite do dia 14 de dezembro, Michelle Bachelet discursou (transcrição em espanhol) na 3° Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres. Afirmou que não há desenvolvimento, nem sustentabilidade, sem que as mulheres sejam incluídas em todos os processos, áreas e níveis, inclusive em relação a participação política. Ressaltou a união das mulheres brasileiras em torno de um processo político de luta, que inclui mulheres dos mais remotos lugares da selva amazônica, do agreste nordestino, da periferia das grandes metrópoles, das comunidades rurais, entre outras. Todas representantes e conhecedoras da realidade cotidiana das mulheres e preparadas para construir juntas propostas e reivindicações fundamentais para uma sociedade mais justa e igualitária.

É a primeira vez que Michelle Bachelet visita o Brasil na qualidade de Subsecretária Geral da ONU e Diretora Executiva da ONU Mulheres, entidade criada em 2010, que iniciou suas atividades em 2011. A criação da Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres, denominada ONU Mulheres, é uma vitória para o movimento de defesa das mulheres no mundo. E reforça a importância da existência de órgãos governamentais específicos para mulheres.

Quando presidiu o Chile, Michelle Bachelet contou que percebeu que os programas econômicos não eram suficientes para acolher mulheres desempregadas, por exemplo. “Não pode haver políticas neutras porque elas não atingem as mulheres. As políticas precisam ter especificidade de gênero, senão o resultado não será sustentado e nem garantirá os direitos”, disse a representante das Nações Unidas (ONU), ao participar da 3ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, iniciada na última segunda-feira (12).

Sobre desafios a serem superados, a diretora apontou o baixo número de mulheres em cargos políticos e também nos postos de negociação de acordos de paz em países com conflitos e guerras civis. Dos 194 países integrantes das Nações Unidas, somente 20 são chefiados por uma mulher e elas ocupam menos de 20% das cadeiras nos parlamentos mundiais. Para Michelle Bachelet, a reforma política é um bom caminho para mudar esse cenário trazendo como opção listas fechadas com número igual de candidatos homens e mulheres.

Continue lendo em Michelle Bachelet defende que políticas econômicas e sociais levem em conta as necessidades das mulheres. Matéria de Carolina Pimentel, repórter da Agência Brasil.

Bachelet relembrou semelhanças entre ela e a presidenta Dilma. Ambas, há trinta anos atrás, eram jovens comprometidas com a atividade política, militando pela democracia em contextos extremamente desfavoráveis em seus países. Naquela época a presença de mulheres em altos cargos era um sonho, mas hoje, afirma Bacheler: “nós podemos”. Ao finalizar seu discurso pediu a todas as mulheres presentes que tenham sempre em mente o que já foi conquistado para se inspirarem no futuro, pois, tomando emprestadas as palavras de Dilma: “tenho certeza, senhoras e senhores, de que este será o século das mulheres”.

Maíra Kubik e eu enfrentamos o sufoco criado por diversos jornalistas, fotógrafos e fãs que avançaram sobre Michelle Bachelet na sua saída do palco. No meio da confusão tivemos a oportunidade de perguntar sobre a importância da internet para mobilizar as mulheres. Confira o áudio com a resposta de Bachelet e abaixo a transcrição:

https://player.soundcloud.com/player.swf?url=http%3A%2F%2Fapi.soundcloud.com%2Ftracks%2F30704507 Michelle Bachelet fala sobre internet by srtabia

“É uma ferramenta moderna, que pode chegar aos jovens de uma maneira atrativa e interessante para uma mensagem muito importante, como a da liberdade da mulher. Mas também para informar, para denunciar, para democratizar a informação. Vimos um processo político na África do Norte, onde tive a oportunidade de estar com jovens da Praça Tahir, onde eles usaram meios novos e além disso, tinha uma reunião com elas e estavam mandando Twitter a todos os seus amigos e amigas. A reunião foi muito maior” [tradução de Maíra Kubik]

Texto elaborado em parceria com a Srta. Bia e publicado originalmente no Blogueiras Feministas em 15/12/2011.