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Marias Premium: cerveja e violência contra mulheres

Marias Premium: cerveja e violência contra mulheres

A imagem acima [ampliada] estava nas paredes da UFC e foi fotografada pelo Miguel Stédile. Assemelha-se a um cardápio, mas nele estão os nomes de diversas mulheres, idade e circunstâncias da morte de cada uma delas.

É uma forma interessante de mostrar que bebidas alcoólicas não são só uma forma de integração social, mas também são responsáveis por muita violência, especialmente contra mulheres. E a maioria dessas vítimas é silenciosa, pois a agressão ocorre no ambiente familiar, e na maioria das vezes só vem a público até que seja tarde demais.

Há outra questão embutida no cartaz: precisamos dar mais visibilidade para as mulheres vítimas de violência. Elas são reais, sofrem feminicídio, e merecem ser lembradas. Mais ainda, é necessário criar indignação, gerando pressão para punir os agressores, já que eles raramente são punidos.

Iniciativas como a do cartaz acima, e como as que a Sandra Azevêdo descreveu no Fazendo Gênero, são fundamentais para diminuirmos a violência contra mulheres.

Este é um post que faz parte da campanha pelo fim da violência contra mulher. No twitter, acompanhe a hashtag #FimDaViolenciaContraMulher.

E o caso do juiz de Sete Lagoas continua…

E o caso do juiz de Sete Lagoas continua…

Quem me acompanha há mais tempo conhece este caso: em outubro de 2007 Edilson Rumbelsperger Rodrigues, juiz em Sete Lagoas, se recusou a aplicar a lei Maria da Penha, negando medidas protetivas para mulheres que queriam dar um “basta” na violência que sofriam. Entre outros argumentos discriminatórios, o juiz alegou que a Lei Maria da Penha é um “conjunto normativo de regras diabólicas”, “monstrengo tinhoso”, inconstitucional e que o mundo é e deve continuar a ser masculino. Trechos da sentença podem ser conferidos no Conjur.

Em 2008, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais considerou a lei Maria da Penha constitucional, obrigando todos os juízes a aplicá-la. Em 2009, foi aberto processo administrativo disciplinar contra o juiz no CNJ por considerar que há indícios de uso de linguagem imprópria e preconceituosa.

Ontem saiu o resultado do processo administrativo disciplinar: O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aprovou por nove votos a seis a disponibilidade compulsória (afastamento das atividades profissionais por 2 anos, recebendo salário proporcional) do juiz Edilson Rodrigues, da Comarca de Sete Lagoas (MG) por ter utilizado declarações discriminatórias de gênero. Ainda cabe recurso ao STF.

A diferença de votos (nove a seis) se deve a outro tipo de punição analisada pelo CNJ: censura ao magistrado e realização de teste para aferir sua sanidade mental. Prevaleceu a punição mais grave possível, que é a disponibilidade.

Essa decisão é uma vitória, especialmente porque o Judiciário é talvez o poder mais machista que há. Pra quem duvida, houve o questionamento sobre sanidade mental do juiz (como se machismo fosse uma doença, quando na verdade é uma prática cultural) no CNJ, e tem a repercussão na comunidade jurídica. Basta olhar o nível dos comentários apoiando o juiz em sites jurídicos especializados, como no Conjur para ver que falta muito ainda para o Judiciário reconhecer igualdade de gênero.

Fazendo Gênero 9 – um resumo do que eu acompanhei

Fazendo Gênero 9 – um resumo do que eu acompanhei

Quem já viu a programação do Fazendo Gênero sabe muito bem que são várias atividades acontecendo ao mesmo tempo e é impossível acompanhar tudo o que acontece por lá. Por isso, acho importante deixar aqui um resumo do que acompanhei nas discussões sobre violência contra mulheres, pois pode dar uma ideia do ponto onde estamos, e ser um bom ponto de partida para outros debates.

Antes mesmo da abertura oficial, houve uma reunião para apresentar um projeto da Fiocruz coordenado pela Elizabeth Fleury e pela Stela Meneghel: Dicionário feminino da infâmia: diagnóstico e acolhimento de mulheres em situação de violência, que visa orientar profissionais da área de saúde em relação à violência contra mulheres. Fiquei tão interessada no projeto que, ao voltar a Belo Horizonte, candidatei-me ao processo seletivo para obter uma bolsa e participar do projeto como pesquisadora. Hoje recebi a ótima notícia de que fui aprovada no processo seletivo e participarei da elaboração do dicionário :D

Mesa sobre feminicídio

A mesa que mais me chamou a atenção foi a de feminicídio. Primeiro, porque ou as palestrantes eram estrangeiras, ou discutiam apenas autoras estrangeiras; conceituar feminicídio no Brasil é um passo urgente a ser dado. Fiquei bastante chateada ao descobrir que o sistema de proteção às mulheres vítimas de violência no Brasil é um horror, perdendo fortemente para o do México (antes que critiquem, saibam que Teresa Lisboa fez um trabalho muito sério comparando os sistemas de proteção dos dois países). Foi feita também uma crítica às tentativas de glamurizar a violência contra mulheres, como várias empresas de moda e cosméticos vêm fazendo (a Denise já fez diversos posts excelentes sobre o tema). Foi citado o absurdo caso da MAC, que fez uma coleção explorando e banalizando o horror da violência contra mulheres em Ciudad Juarez.

Já conhecia alguns artigos da Rita Segato e mesmo assim ela me surpreendeu com uma das melhores palestras que já vi, e que se encaixou com tudo o que venho estudando nos últimos anos. Fazendo uma síntese grosseira, que não faz jus a todo o raciocínio que Rita Segato desenvolveu, ela afirmou que a lei é um sistema de crenças que só faz efeito se puder convencer as pessoas a obedecê-la. A lei discute setores da sociedade e sua capacidade de se inscrever na lei. E a luta pelo direito não é para mudar a sociedade, mas para mostrar quem tem poder, quem conseguiu inscrever seu nome e suas causas nas “tábuas da lei”. Ou seja, trata-se de uma guerra de dominação.

Por isso, e aqui são minhas observações, quando exigimos cumprimento da Lei Maria da Penha, quando exigimos que a violência contra mulheres seja considerada de caráter público (e não privado, como os “donos da lei” querem nos fazer crer), quando insistimos na legalização do aborto e na efetivação da igualdade jurídica em todos os aspectos estamos brigando para que o poder constituído reconheça as mulheres como um setor da sociedade que merece ter seus direitos reconhecidos, instituídos e respeitados e efetivados.

Mesa sobre Memórias do Feminismo

Outra mesa que acho interessante destacar foi sobre “Memórias do Feminismo”. A palestra da Sônia Malheiros Miguel, da Secretaria de Políticas para Mulheres me impressionou ao apresentar vídeos feitos na década de 80. De repente, entendi que houve uma época em que causas feministas eram discutidas em vinhetas de televisão e havia incentivo para as mulheres pressionarem a Assembleia Constituinte para que a nova Constituição inscrevesse direitos das mulheres. Que diferença para hoje, quando temos de debater feminismo em blogs porque não há espaço na mídia tradicional para essas questões!

Nesta mesma mesa redonda, adorei a Eva Blay sendo enfática ao criticar quem reclama que leis não funcionam: para ela, isso faz parte da democracia, e é necessário haver pressão social e política para que as leis funcionem. Notem que, mesmo partindo de pontos diferentes, há muito em comum entre as falas de Eva Blay e Rita Segato.

Dora Barrancos apresentou um histórico do feminismo argentino e algumas questões recentes e bem interessantes, como os cursos sobre igualdade de gênero que ela leciona no Ministério da Defesa argentino (uma área tradicionalmente masculina tem umA ministrA). Ela contou que fala para os alunos (militares de alta patente inclusive) que “não há homem suficientemente progressista em matéria de direitos das mulheres”, e considera que tanto militares quanto universitários são bastante lentos na hora de reconhecer e modificar situações de discriminação. Dora não se incomoda com pessoas que agem como feministas, embora recusem-se a serem chamadas de feministas; para ela, o perigo é abrir mão das reivindicações feministas, e não exatamente do nome em si (esta é uma situação recorrente nas discussões da blogosfera; particularmente, eu acho que se reconhecer feminista é importante, sim)

Simpósio Temático sobre Feminicídio

Apresentei um trabalho sobre o caso Eloá no Simpósio Temático sobre Feminicidio y violencia de género. Uma coisa interessante que aconteceu foi que, de tod@s @s participantes do dia, estávamos quatro representantes de Minas Gerais: Helcira, Adélcio, Margarita e eu. À medida que conversávamos com outras pessoas e assistíamos às apresentações, percebíamos que a situação de violência contra mulheres em Minas Gerais é mais grave que em outras regiões. A Sandra Azevêdo, da UFCG, mostrou como as organizações de mulheres na Paraíba conseguiram se mobilizar e pautar a mídia em dois casos de assassinatos de mulheres. E nós, de Minas, ficamos lamentando que aqui esses casos são pouco noticiados e, quando o são, acabam por merecer poucas linhas e/ou colocar a culpa na vítima.

Mesa sobre Violência de Gênero

A mesa sobre Violência de Gênero foi bastante interessante. Muitas informações novas, e bastante assustadoras, reforçando as impressões da mesa sobre feminicídio em relação à pouca proteção que as mulheres desfrutam no Brasil. Cecília Sardenberg apontou duas situações que considerei sérias. Uma é a dificuldade que as pessoas, inclusive mulheres vítimas de violência, têm em diferenciar “proteção da família” e “proteção da mulher”, e com isso acabam por aceitar violência em nome da família (já escrevi sobre isso neste post). Outra questão é a dificuldade que profissionais de segurança pública têm em reconhecer a violência contra mulheres como crime, chegando ao ponto de afirmar absurdos do tipo “estou acostumado a mexer com vagabundo, não com pai de família” para se esquivar de aplicar a Lei Maria da Penha.

Parry Scott fez uma apresentação bem interessante, mostrando questões de mobilidade aplicadas a situações rurais e urbanas, e como influenciam na vida e na violência sofrida pelas mulheres. E destacou: “mobilidade incomoda. Temos uma cultura que procura restringir a mobilidade da mulher“.

Como já escrevi antes, e fui incentivada pela professora Neuma Aguiar a comentar na Mesa sobre violência de gênero, as faculdades de Direito passam longe das discussões de gênero, formando profissionais extremamente despreparados para lidar com essas questões. É necessário proporcionar formação com ênfase em questões mais práticas, não só para policiais (que tem sido o público mais frequente dos cursos) mas também de juízes, promotores e advogados. Pelo que tenho acompanhado, o grande problema hoje é fazer com que esses profissionais consigam reconhecer em situações práticas a teoria que lhes foi ensinada, procurando respeitar e efetivar os direitos das mulheres.

Uma esperança de mudanças muito bem-vinda foi quando Mônica Ovinski de Camargo, professora em Criciúma, me contou que conseguiu inscrever no currículo de uma faculdade a disciplina optativa “Direitos Humanos das Mulheres“.

Observação final: cadê o povo do Direito?

Obviamente, o Fazendo Gênero, mesmo pra mim, não se resumiu aos pontos listados neste post. E espero que em 2012 a gente consiga pelo menos organizar um Simpósio Temático para reunir pesquisadores da área jurídica, como estive conversando com o Daniel Caye e diversas outras pessoas da área jurídica. O que percebemos é que estávamos espalhados por diversos simpósios, e não conseguimos nos reunir o suficiente para analisar a situação específica de nossa área de atuação. Espero que consertemos esse obstáculo e ampliemos as discussões sobre gênero e direito no Fazendo Gênero 10.

Campanha incentivando violência contra candidata

Campanha incentivando violência contra candidata

Passei a última semana no Fazendo Gênero 9, talvez o maior evento do mundo para discutir gênero e feminismos. Foi muito interessante, especialmente por causa das diversas mesas redondas e simpósios temáticos sobre violência contra mulheres. Ao final, depois de compararmos a situação brasileira com a de outros países, saímos com a sensação de que o Brasil, apesar de várias iniciativas para combater a violência contra mulheres, ainda está bem atrasado nesta questão.

Essa impressão foi reforçada quando soube que estão divulgando uma “campanha”, na mesma linha da fala da Maitê Proença, usando uma faixa com os seguintes dizeres:

Bruno, só você pode salvar o Brasil. Engravide a Dilma, e depois avisa pro Macarrão e pro Bola

A legenda diz que é uma campanha “pró-Brasil”. Este é o link para a campanha; caso saia do ar, aqui está a cópia da imagem.

O caso Eliza Samúdio não deveria ser motivo de riso, pois não há motivo alguma para rir de um caso de tortura e morte de mulher por causa da recusa de um homem em assumir a paternidade de uma criança. Associar esse caso à eliminação de uma candidata a cargo eletivo, além de ser uma atitude totalmente anti-democrática, é uma forma de banalizar a violência contra mulheres, legitimando agressão, estupro e morte.

Há ainda um complicador nesse história. Na divulgação da campanha, ela foi parar no Mobiliza Mulher PSDB:

RT @Dilze RT @Caradorno Vamos lançar esta campanha Pró Brasil! http://twitpic.com/2iet4f //#euri muitoooo

Ou seja, um twitter destinado à militância tucana feminina não tem pudor de endossar – e ainda rir – de uma campanha que estimula violência contra mulheres somente porque o alvo da campanha é uma candidata de oposição.

Existem feministas históricas no PSDB, e tenho certeza que nenhuma delas endossaria uma campanha de violência contra mulheres, e muito menos admitiria risadas, fosse ou não a campanha destinada a alguma mulher de quem discordassem politicamente.

Combater a violência contra mulheres é uma questão que vai além de disputas partidárias e que precisa ser tratada com mais seriedade no Brasil. Um twitter de militância política deveria dar o exemplo, mostrando empatia pelo sofrimento das mulheres e se recusando a endossar ou rir campanhas que incentivem violência.

[publicado originalmente no Sexismo na política]

Fazendo Gênero 9

Fazendo Gênero 9

Depois de quase nove meses de planejamento, finalmente consegui colocar em prática um desejo antigo: vir a Florianópolis participar do Fazendo Gênero.

Estou encantada com as mesas-redondas e trabalhos, especialmente os que discutem violência contra mulheres. Não imaginava nem que fôssemos tantas pessoas interessadas no tema, nem que a situação de Minas Gerais fosse tão ruim e traumática.

Para quem me conheceu nas discussões sobre feminicídio no Fazendo Gênero e está chegando ao blog agora, sugiro que veja os posts arquivados na categoria violência. Especificamente sobre o caso Eloá, escrevi dois posts e um artigo para o Observatório da Imprensa. Sobre o caso Islaine, que ocorreu na minha cidade em 2010, também escrevi um artigo para o Observatório da Imprensa.

Uma coisa que chamou a atenção na mesa sobre Memórias do Feminismo foi a conclusão de que jovens estão chegando ao feminismo, mas não se sabe bem de onde. Pra mim, a resposta é óbvia: Internet. Não tenho a menor condição de colocar os links agora, mas temos várias comunidades feministas no Orkut, sites e blogs feministas de longa data, todos possibilitando informações, troca de experiências e facilitando o acesso ao feminismo. Na coluna da direita deste blog tem uma lista para outros blogs, vários deles feministas. E no Twitter sempre divulgo textos sobre feminismo e direitos das mulheres.