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Cadastro de gestantes e bolsa-chocadeira

Cadastro de gestantes e bolsa-chocadeira

Uterus skirt, criada por Lucy, da Hissyfit

Nos últimos dias de 2011 fomos surpreendidos pela Medida Provisória 557, que criou o Sistema Nacional de Cadastro, Vigilância e Acompanhamento da Gestante e Puérpera para Prevenção da Mortalidade Materna.

Escrevi um artigo sobre a MP, em parceria com o Idelber Avelar. Nossa intenção foi fazer um post detalhado, listando e analisando pontos bastante controversos da medida provisória. O post foi publicado no blog do Idelber no site da Revista Fórum.

É preocupante que, sob a desculpa de combater a mortalidade materna, cheguemos ao ponto de termos políticas públicas que violam a privacidade da gestante e colocam o feto como sujeito de direitos em igualdade com ela.
Leia a íntegra do artigo em: Cadastro de gestantes e bolsa-chocadeira, por Cynthia Semíramis e Idelber Avelar.

Outros artigos e entrevistas criticando a MP 557/2011:

Links interessantes – pela legalização do aborto

Links interessantes – pela legalização do aborto

Dia 28 de setembro é o Dia de Luta pela Descriminalização do Aborto na América Latina e Caribe. Não vou fazer post neste ano, mas vou fazer aqui uma lista dos meus posts antigos e outros links de interesse:

Detalhe do meu cartaz na Marcha pelo Estado Laico em BH: Basta de rosários em nossos ovários!

Acompanhem também o twitter da FeministaBR e a blogagem coletiva no blogueiras feministas.

Pela legalização do aborto

Pela legalização do aborto

Dia 28 de setembro é o Dia de Luta pela Descriminalização do Aborto na América Latina e Caribe. Trata-se de uma data para lembrar que as mulheres ainda são consideradas menos cidadãs que os homens, sofrendo interferência sobre seus corpos e sua saúde.

Prosseguir ou interromper uma gravidez é algo que só diz respeito à mulher. Por mais que o homem contribua na concepção (e crie teorias que o valorizam como procriador), quem suporta toda a gravidez, quem passa pelo processo de parto, quem cria a criança praticamente sozinha e quem é responsável por ela é a mulher. É ela quem sabe o quanto terá de abdicar de sua vida para poder ter e criar a criança. É ela quem tem de decidir se e quando quer ter filhos. Estado, família e amigos dela devem apoiá-la e respeitá-la em sua decisão, permitindo meios dignos tanto para a continuidade quanto para a interrupção da gravidez.

Muitas pessoas não concordam com o direito da mulher abortar porque consideram que isso é uma violência contra o feto. Ao fazer isso, estão invertendo a ordem de prioridades: colocam um não-nascido como tendo prevalência sobre uma pessoa viva, como se a mulher tivesse menos direitos que ele. Temos aí uma hierarquia onde a mulher tem menos direitos, estando relegada à terceira classe: o homem tem prioridade em tudo, estando na primeira classe; o feto (que ainda não nasceu!), na segunda; a mulher, na terceira.

Essa é uma visão recente, como pode ser lido neste artigo sobre Igreja e aborto e neste post sobre o aborto na história. Até meados do século XIX aborto era questão íntima, que dizia respeito somente a gestantes e parteiras. É importante notar que o século XIX foi tanto o século da glorificação da maternidade quanto o início dos movimentos feministas, o que resultou na seguinte situação: à medida que as mulheres passaram a exigir participação na política e aquisição de direitos, o aborto se tornou uma questão de controle das mulheres, recebendo das autoridades punição religiosa (pecado) e jurídica (crime).

Criminalizar o aborto foi uma forma de interferir na vida das mulheres, restringindo o direito ao próprio corpo e retirando delas o poder de decidir sobre a própria vida. Lutamos hoje para que este direito seja restabelecido.

Descriminalizar é necessário. A descriminalização acabará com as clínicas clandestinas de aborto, sem higiene, e responsável por uma larga percentagem de mortalidade materna, especialmente entre mulheres pobres. Acabará com o tráfico de remédios abortivos, inclusive com os remédios falsos vendidos a peso de ouro como se fossem verdadeiros. Acabará com a aberração que é punir criminalmente uma mulher porque ela ousou decidir que não quer ser mãe em determinado momento de sua vida.

É necessário também legalizar o aborto. Isso significa que o Estado deve proporcionar condições para que a interrupção voluntária da gravidez seja um procedimento médico a ser realizado na rede pública de saúde, sem que a mulher sofra julgamentos ou sanções por ter escolhido interromper a gravidez. A mulher que escolhe abortar não deve ser tratada como culpada, nem como inferior ao feto, e muito menos pode ser maltratada por profissionais de saúde. Legalizar o aborto proporcionará atendimento digno para as mulheres, concedendo-lhes direitos plenos sobre o próprio corpo.

Observação: este post faz parte da blogagem coletiva pela legalização do aborto convocada pela @A_line_. Leia também os outros posts participantes.

Leia também:

A Face Negra da Deusa

A Face Negra da Deusa

A Face Negra da Deusa
por Márcia Frazão

A conheci na enfermaria da maternidade. Eu tinha acabado de parir meu filho e, desamparada pela solidão do quarto particular, dedicava as manhãs a perambular pela enfermaria. Era aconchegante estar reunida com aquele bando de mulheres que não entendia como eu podia querer estar ali junto a elas. E foi assim que a conheci. Uma mulata que já não ostentava o frescor dos seus poucos anos de vida. Ficava deitada numa cama,sem nenhuma assistência dos médicos e enfermeiras. Os médicos passavam por ela como se ela fosse um fantasma incômodo, uma mancha que o clorofórmio não limpava. Fedia muito. Um cheiro de maresia e carne podre. Não aguentava se levantar e ir ao banheiro. Os olhos vidrados miravam um ponto que só ela enxergava…

As mulheres da enfermaria, as mães, eram as únicas que a assistiam. Limpavam o seu corpo e dividiam com ela as suas parcas provisões (as enfermeiras quase não lhe davam comida). Eu, fechada na burrice burguesa e alienada da “vida real”, não entendia a razão da sua presença. Afinal, aquela era uma enfermaria para parturientes e ela não parira ninguém. Mas o que mais me intrigava era que as mães a reverenciavam como se ela tivesse parido Jesus!

Os dias se passaram e numa manhã o seu leito ficou vazio. Morrera à noite, cercada pelas mulheres que tão bem a conheciam. Não teve assistência dos médicos e nenhuma enfermeira foi lhe ver. Morrera com o rebento morto no ventre. Um rebento perfurado por uma agulha de tricô. Um aborto que não dera certo.

Foi enterrada como indigente e deixou para as ruas os seus quatro filhos, quatro crianças que ela criava às duras penas. No dia da sua morte as mulheres não sorriram nem embalaram os seus rebentos. Vestiram negro e se esconderam na sabedoria, como a lua se esconde no céu nos dias da Lua Negra!

Vi este texto da Marcia Frazão no Orkut, há muito tempo. Cada vez que o releio, fico impressionada em como ela descreveu bem a solidariedade entre mulheres contra a tirania da lei que proíbe mulheres de decidirem sobre o próprio corpo e sua prole.

Dia 28 de setembro, Dia de Luta pela Descriminalização do Aborto na América Latina e Caribe. Estamos lutando para que situações como a descrita acima não se repitam, condenando à morte as mulheres que não querem ser mães.

Outros posts meus sobre legalização do aborto: