Cachorros, ossos e absurdos

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Uma coisa que me irrita bastante, quando a conversa entra na questão da estética feminina, é ouvir dos rapazes: “mas quem gosta de osso é cachorro, homem quer ter onde pegar”.

Com uma “piadinha” dessas (e há quem ache engraçado), desqualificam, de cara, todas as mulheres que são naturalmente magras. E ainda mostram que estão num pedestal, distribuindo sua “sabedoria” sobre qual é a estética correta para as mulheres seguirem, de forma a agradá-los. Não pensam que estão criando um padrão de gosto individual a ser seguido, no mesmo estilo de quem escolhe a cor do carro ou se prefere o peito ou a coxa do frango.

No tempo da vovó, quando as mocinhas só precisavam agradar dois homens na vida (o pai e o marido), as preferências masculinas até podiam ter grande destaque. Nos últimos tempos, as mulheres conquistaram espaço na sociedade e, embora muitos as vejam apenas como objeto sexual, insistindo em questões como docilidade, submissão e beleza, esse ponto de vista é diminuído ou anulado à medida que a pessoa se percebe como indivíduo, com vontade, personalidade e aparência próprias.

Há, ainda, o reconhecimento da diversidade de formas. Ninguém tem a obrigação de seguir a moda, se vestir e se pentear igual aos outros, se fazer isso vai contra o seu tipo físico ou a sua vontade. Se cinqüenta anos atrás as pessoas se vestiam e se penteavam de forma igual, hoje a tônica é a liberdade e o respeito ao próprio corpo.

Para completar, essa história de “agradar ao outro” encontra um grande obstáculo na possibilidade de se ter várias relações amorosas durante a vida. Mesmo que se queira agradar um parceiro, é impossível agradar a todo mundo. Opiniões e gostos são tão diferentes que é difícil definir um padrão. Sendo assim, o jeito é cada um cuidar de si, e se aceitar como é. Se tiver sorte, às vezes o corpo coincide com o gosto do parceiro. Mas, se não for assim, e a relação for boa, pra quê estragá-la com uma questão superficial?

Mas os rapazes lá do primeiro parágrafo ainda não entenderam isso. Para eles, o mundo não mudou. Mulher deve apenas ser esteticamente agradável. E, mesmo dizendo que “quem gosta de osso é cachorro”, adoram as imagens que aparecem em comerciais, revistas e televisão, e comparam a namorada com a moça da propaganda de cerveja. Continuam no pedestal, impondo sua “sabedoria” acerca do que uma mulher deve ser ou parecer, mas não percebem que, agindo com tanto autoritarismo, não respeitam a mulher que está na frente deles. Ela simplesmente se torna mais um item a ser catalogado como “boa para cachorro” ou não…

Post escrito em 25/01/2006, publicado originalmente no meu blog antigo.

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  1. Pingback: Um basta ao excesso de magreza na moda « Cynthia Semíramis

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