Tropa de Elite, ou a exaltação da masculinidade agressiva e anacrônica

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Não se iludam, não vou comentar o filme, tem ótimas críticas em vários lugares. O que eu quero é apenas dividir com vocês o que eu observei: o efeito do filme nos homens é impressionante, eles ficam fascinados com as falas e atitudes dos policiais, especialmente do capitão Nascimento.

Susan Faludi escreveu um livro interessantíssimo chamado “Backlash: o contra-ataque na guerra não declarada contra as mulheres” (neste link tem uma ótima resenha da Carla Rodrigues). O livro analisa a reação conservadora da década de 80, contrária aos direitos femininos conquistados na década de 70.

Na parte sobre cinema, Susan Faludi observa que os papéis para mulheres diminuíram na década de 80, enquanto aumentavam – e muito – os filmes nos quais os homens apareciam como personagens principais, na pele de machões, provedores, salvadores do mundo. Mesmo quando a trama não envolvia o militarismo paranóico da Guerra Fria, era direcionada ao exercício do poder masculino sobre todos em volta, seja no trabalho ou na família, utilizando um modelo de masculinidade antigo e focado no herói valente.

Me lembrei imediatamente dessa parte do livro quando vi a reação dos homens ao filme. Nos dizeres de um amigo meu, “o capitão Nascimento é o paradigma do homem ideal”. Másculo, agressivo, controlador, poderoso (é chefe!), com falas brilhantes. Eles só conseguem ver isso, e não percebem que o Capitão Nascimento não é tão maravilhoso assim: preocupado com o nascimento de um filho que ele esquece na primeira oportunidade, tem síndrome de pânico mas não trata corretamente, é incapaz de ter uma relação familiar sem ser na base do autoritarismo, desrespeita a lei (que ele deve fazer cumprir) para exercer vinganças pessoais. Isso lá deveria ser modelo para alguém?

Parece que temos um abismo aqui: os homens continuam reagindo como se sua masculinidade fosse derivada da autoridade sobre as pessoas à sua volta, enquanto as mulheres já passaram da fase de querer um homem-provedor, preferindo uma companhia em pé de igualdade e sem tanta agressividade. Pra quê ter um companheiro que te trata como competidora ou inferior?

Sim, eu sei que estou generalizando e que nem tudo é tão demarcado assim, mas não tem como deixar de pensar nisso quando vejo as reações ao filme. São objetivos opostos, com estilos de vida totalmente opostos. E vão gerar grandes atritos: elas, por preferirem companheiros; eles, por não abdicarem da agressividade e violência para serem donos da verdade (e, portanto, obedecidos, como se o resto do mundo devesse estar a seus pés). Elas não têm muitos modelos de relacionamento a seguir (pois ainda estão em construção, e raramente aparecem na mídia), eles só têm modelos agressivos patrocinados por filmes de temática conservadora. Antes eram só filmes de Hollywood e as novelas, agora também há o modelo que vem do filme brasileiro mais assistido do ano.

O resultado desse conflito é, no mínimo, exacerbação da agressividade em todas as esferas, mas que vai resultar em violência doméstica, tanto psicológica quanto física. E não é possível combater violência doméstica trabalhando apenas a auto-estima das mulheres, pois o agressor continua agressivo, e logo poderá fazer outra vítima, em qualquer local em que se encontre.

O filme pelo menos teve a decência de fazer a companheira do capitão abandoná-lo quando ele fez um escândalo sem o menor sentido, mas não fomos informados do quanto ela deve ter sofrido até chegar a esse ponto sem volta na relação. E vale dizer que, se a pessoa não sabe separar o espaço de casa do espaço do trabalho, descontando problemas profissionais nos familiares, está criando um abismo perigoso, pois não há companheirismo que suporte eternamente o fardo de ser a válvula de escape da frustração dos outros.

Gostaria muito que os homens pensassem mais sobre o que é a masculinidade ideal, e quais os impactos dela em suas vidas. Esse cultivo da agressividade como sinônimo de masculinidade (aliado à sensação de impotência por não ser o único provedor da família) deveria ter ficado no passado. As relações hoje são outras, mais igualitárias, e isso não significa uma diminuição no papel masculino que necessite ser “compensada” pela violência, doméstica ou não, mas uma adaptação na qual o homem possa se humanizar e não precise parecer que é um herói o tempo todo.

Enquanto os homens continuarem acreditando que o capitão Nascimento é um herói, um homem ideal, vamos ter grandes problemas com essa agressividade e tendência de resolver problemas através da violência, vingança e autoritarismo que desrespeitam não só as leis, mas seres humanos.

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  1. Gostei muito do seu comentário, Cynthia, e quero dividir com você uma experiência que tive no ano passado. Espero não estar mudando de assunto.

    Eu trabalhava na área jurídica e tivemos, eu e meus colegas, uma conversa em um desses expedientes modorrentos, em que falávamos sobre violência policial.

    Veja bem, todos eram bacharéis em direito (menos eu) e, entre os homens, todos defendiam, na maior cara-de-pau, a idéia de que a polícia tinha mesmo que transgredir as leis, porque se não fosse assim nada funcionava.

    As mulheres do grupo, ao contrário, faziam valer o discurso óbvio de quem militava na área, de que as salvaguardas constitucionais são um ponto fundamental da democracia e do estado de direito.

    Percebi, lá, uma clara divisão de gênero: parecia que a defesa de arbitrariedades policiais tinha mais a ver com certa agressividade masculina do que com o arcabouço intelectual de cada um.

  2. Também já percebi essa divisão, Marcus. Em sala de aula, dependendo do assunto, a discussão vira uma forma disfarçada de guerra dos sexos. E os homens, que tanto reclamam que as mulheres falam demais, exageram nos argumentos, nos gritos e na ênfase sobre os pontos de vista deles…

  3. Oi, Cynthia. Finalmente, uma questão nova sobre o filme do J. Padilha foi dita… Ontem saí do cinema com um rapaz repetindo uma das falas de efeito do C. Nascimento, todo admirado. E na cena em que ele surta e chega em casa esculachando a mulher, pôde-se ouvir a “torcida dos machões” comemorando. O filme em si não me irritou tanto quanto a reação dos caras…

  4. Falou e disse. Marido foi ver ontem à tarde – eu não ia querer – e voltou repetindo os bordões.
    Afe.

  5. e o meu irmão hoje, gente!
    é a testosterona? tenho mais é vontade de por a culpa na testosterona, pq às vezes dá tanta preguiça de entender… 😦