Uma categoria infeliz

A Ju Sampaio me avisou de um concurso de blogs bastante exótico. Fizeram listas de finalistas para diversas categorias. Duas delas são impressionantes, e estão listadas assim no site:

FINALISTAS – WEBMUSA 2008: A menina mais gata/gostosa/simpática da Internet brasileira.
FINALISTAS – BLOGUEIRO DO ANO: Blogueiro brasileiro que tenha assumido um papel relevante na sua área de atuação

A polêmica está na categoria webmusa. Por que limitar as mulheres à estética? Por que colocá-las em fotos produzidas? Por que chamar mulheres de meninas? Por que só usar critérios sociais? Por que mencionar idade? Por que mencionar estado civil? Por que não focar no que as mulheres escrevem?

E colocar essa categoria esdrúxula de webmusa antes da categoria blogueiro foi o maior ato falho que já vi: mulheres para enfeitar o mundo, homens pra mostrar conteúdo. Tudo em sequência, pra deixar bem claro o lugar e o tipo de importância de cada um.

É impressionante como muitas pessoas não perceberam que não é “natural” a inclusão de uma categoria voltada à aparência feminina em um concurso. Isso é reflexo de uma sociedade que só enxerga a aparência das mulheres, dando pouco valor ao trabalho que desenvolvem.

Vi alguns comentários sugerindo a criação da categoria webmuso. Esse recurso não atenuaria o machismo nem mudaria o fato de que as mulheres são sempre analisadas primeiro por sua aparência (ela é bonita e, oh!, competente), enquanto os homens teriam o privilégio de ter mais uma faceta para serem vistos (bastava ser competente mas, olha que interessante, é bonito também). Para eles, estética é um bônus. Para elas, é uma obrigação. Ou seja, continua havendo uma desigualdade, e as mulheres continuam sendo tratadas principalmente como objetos.

Devido às críticas recebidas, foi incluída uma atualização afirmando que a categoria não foi exclusiva para homens, e que até tinha blogueiras como pré-finalistas, mas elas não conseguiram votos suficientes para chegar à final. Apenas confirmaram a situação atual das mulheres na sociedade: elas só conseguem se destacar pela aparência e por alguns trabalhos isolados.

Na semana que antecede o Dia Internacional da Mulher, isso é nada mais, nada menos, do que a prova de que ainda temos muita coisa pra mudar.

Quer começar a mudança? Aprenda a tratar a beleza feminina em público. Não quer mudar? Então pense no que você vai falar no dia 08 de março e veja com qual machista você se identifica mais.

Também falaram (e bem melhor que eu) sobre esse concurso: Lola | Mary w. | Duas Fridas | mais Lola

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5 pensamentos sobre “Uma categoria infeliz

  1. Muito bom o teu post, Cynthia. Senti o mesmo incômodo ao ver as categorias desse concurso. E no Dia Internacional da Mulher, preparemo-nos para uma avalanche de clichês.

  2. Pingback: Sobre o famigerado concurso « Marjorie Rodrigues

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