Lavadora de roupas, o Vaticano e Betty Friedan

Estou com milhares de pendências aqui, mas essa eu tenho de parar tudo pra comentar: estão falando que o Osservatore Romano (o jornal oficial do Vaticano – que parece ter uma filial na imprensa brasileira, dado o empenho dos nossos jornais em agirem como divulgadores das opiniões da Igreja em casos que envolvem estupro e aborto legal) publicou, em “homenagem” ao Dia Internacional da Mulher, uma análise do quanto a a máquina de lavar roupas foi o item mais importante da emancipação feminina.

Eu não duvidaria se fosse um boato. Mas este PDF com a capa da edição do dia 08 de março tem a chamada para um artigo de Giulia Galeotti na página 5 falando da lavadora de roupas e a emancipação feminina. Não vi o artigo na íntegra, mas pelo que pode ser entendido do que foi divulgado, com certeza distorce palavras da Betty Friedan. Como já falei antes, em a Mística Feminina, Betty Friedan critica os eletrodomésticos como algo que forçaram a mulher a se dedicar mais aos afazeres domésticos.

Na introdução do livro “Mística Feminina”, ao explicar o desânimo e a frustração que acometiam as mulheres de classe média focadas apenas nos cuidados com a família, ela descreveu a vida durante o pós Segunda Guerra:

Nos quinze anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, esta mística de realização feminina tornou-se o centro querido e intocável da cultura americana contemporânea. Milhões de mulheres moldavam sua vida à imagem daquelas bonitas fotos de esposa suburbana beijando o marido diante do janelão da casa, descarregando um carro cheio de crianças no pátio da escola e sorrindo ao passar o novo espalhador de cera no chão de uma cozinha impecável. Faziam pão em casa, costuravam a roupa da família inteira e mantinham a máquina de lavar e secar em constante funcionamento. Mudavam os lençóis duas vezes por semana, em lugar de uma só, faziam cursos de tapeçaria e lamentavam suas pobres mães frustradas, que haviam sonhado seguir uma carreira. Seu sonho único era ser esposa e mãe perfeita. Sua mais alta ambição, ter cinco filhos e uma bonita casa. Sua única luta, conquistar e prender o marido. Não pensavam nos problemas do mundo para além das paredes do lar e, felizes em seu papel de mulher, desejavam que os homens tomassem as decisões mais importantes, e escreviam, orgulhosas, na ficha do recenseamento: «Ocupação: dona de casa».
Fonte: FRIEDAN, Betty. Mística Feminina. Petrópolis: Vozes, 1971. p. 18

E, no decorrer do livro, Betty Friedan criticou diversos aspectos criados por essa situação, desde a indigência intelectual, a dependência financeira até o problema sem nome, caracterizado pelo vazio da vida dessas mulheres, focada apenas no trabalho doméstico. Parecia que os eletrodomésticos facilitavam a vida, mas na verdade, aumentavam o trabalho a ser feito:

Cada avanço científico que poderia ter libertado a mulher do trabalho de cozinhar, lavar, passar, proporcionando-lhe tempo para outras atividades, passou a impor-lhe maiores esforços, fazendo com que as tarefas domésticas não só preenchessem o tempo disponível, como nem sequer pudessem ser realizadas no decorrer do dia.

O secador de roupa automático não poupa as quatro ou cinco horas por semana que ela passava pendurando roupas se, por exemplo, resolver ligá-lo diariamente. Afinal, ainda é preciso carregar e descarregar a máquina, separar as peças, guardá-las. É como dizia uma jovem mãe:

— “Agora podemos ter lençóis limpos duas vezes por semana. Há dias, quando o secador enguiçou, a roupa de cama teve que durar mais tempo. Todo mundo se queixou. Todos nos sentimos sujos. Eu fiquei com remorsos. Não é um absurdo?”

A moderna dona de casa americana gasta muito mais tempo lavando, secando e passando do que sua mãe costumava gastar. Caso possua um congelador e um liquidificador, passa mais horas na cozinha do que a que não possui utensílios que economizem trabalho. O congelador, pelo simples fato de existir, ocupa tempo: ervilhas cultivadas no quintal precisam ser preparadas para congelamento. É necessário usar o liquidificador, aventurando-se naquelas receitas complicadas, com purée de amêndoas e nozes, que levam mais tempo no preparo que costeletas de carneiro.

Fonte: FRIEDAN, Betty. Mística Feminina. Petrópolis: Vozes, 1971. p. 208

Portanto, quem disse que Betty Friedan estava louvando os eletrodomésticos não entendeu o que leu. E, ao divulgar isso, ou estava de má-fé ou estava fazendo piada de mau gosto. De toda forma, estava querendo esconder algo que não se pode negar: o movimento de emancipação feminina foi o resultado direto da extrema opressão sofrida pela mulheres, e o Vaticano foi um dos responsáveis por toda essa opressão.

Atualização: como observei lá na Bárbara, essa história das máquinas se esquece de uma coisa: existe uma profissão chamada lavadeira. Afinal, quem pode pagar sempre transfere o interminável serviço doméstico para alguém que faça o trabalho profissionalmente. Então a mulher que já pagava lavadeira e cozinheira era emancipada e não sabia… só faltava ter direito a voto, a herança, a trabalhar sem precisar de autorização do marido, a ir pra escola e pra faculdade, a andar sozinha na rua… que emancipação é essa, mesmo? Não faz o menor sentido falar em emancipação pela máquina de lavar roupas.

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6 pensamentos sobre “Lavadora de roupas, o Vaticano e Betty Friedan

  1. Ótimo texto, Cynthia. Eu fiquei sem vontade de escrever sobre “a última do Vaticano”. Mas, no jornal, a autora menciona a Betty Friedan? Eu fiquei com a impressão que nem isso. Ainda assim, o seu post também é ótimo por contextualizar a questão. Obrigada!

  2. Então, pelo texto da Abril, eu fiquei meio em dúvida sobre quem está citando a Betty. O jornalista ou o Osservatore Romano.

    Como é um despacho da France Presse, pode ser também um erro de tradução… Não sei se a France Presse tem uma equipe de tradutores aqui no Brasil, como a Reuters, ou se eles mandam o despacho em inglês mesmo e o próprio pessoal da Abril traduz. Enfim.

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