Desabafo: humor e preconceito

Ultimamente tem me cansando muito ver gente acreditando que humor tem de ser irreverente e zombar das pessoas, mesmo quando reproduz os piores preconceitos do mundo. Consideram-se pessoas moderninhas, divertidas, criativas. Usam “humor” para segregar, pra esconder, pra criar constrangimento, para ridicularizar. Acreditam que é revolucionário zombar de minorias políticas e que progresso e modernidade estão intrinsecamente ligados a apagar todas as conquistas da geração anterior. Mas…

O humor nem sempre é progressista. O que caracteriza o humor é muito provavelmente o fato de que ele permite dizer alguma coisa mais ou menos proibida, mas não necessariamente crítica, no sentido corrente, isto é, revolucionária, contrária aos costumes arraigados e prejudiciais. O humor pode ser extremamente reacionário, quando é uma forma de manifestação de um discurso veiculador de preconceitos, caso em que acaba sendo contrário a costumes que são, de alguma forma, bons ou, pelo menos, razoáveis, civilizados, como os tendentes ao igualitarismo, sem dúvida melhores que os seus contrários.
POSSENTI, Sírio. Os humores da língua: análises linguísticas de piadas. Campinas: Mercado das Letras, 1998. p.49.

Ou seja, essas pessoas posam de modernas, mas são retrógradas. Não querem admitir o preconceito abertamente, então apelam pro humor, defendendo um estilo de vida ao estilo de 1950. Esquecem-se que tem uma Constituição no meio do caminho, e que ela veda qualquer tipo de discriminação. E, ao não terem a menor empatia pela situação de outras pessoas, isolam-se num mundo “ideal” que compreende, com boa vontade, 1% das pessoas. É triste ver que tem tanta gente que tem orgulho de viver em uma torre de marfim.

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7 pensamentos sobre “Desabafo: humor e preconceito

  1. Bem, eu deixei de ser ´’bem humorada’ faz tempo. Quando começam uma piada perto de mim e percebo que é racista ou sexista, aviso: se for assim assado não quero saber – prefiro perder a piada. Mas eu mesma não escapo, às vezes até brincando com o preconceito de forma que vira contra mim e, quando vejo, pareço preconceituosa. É o caso do cardiologista do meu marido: ele é negro, o que é raro entre médicos. E parte da família do meu marido é racista, mas já foi se tratar com esse médico. Então ironizamos, entre nós (casal), que fulano foi se tratar no “dr. negão”, que é como eles devem classificar o doutor. E acabamos parecendo racistas! Enfim. Eu tento me policiar, sempre. Bjk.

  2. nossa, eu ia escrever sobre isso hoje, dando sequência à discussão sobre o Doritos. O que eu acho engraçado é que, quando você critica um humor ofensivo, as pessoas se apressam para dizer que você é quem não tem senso de humor.

    …Mas na verdade, quem tem senso de humor limitado são elas. Porque elas só vêem humor na ofensa, na desgraça alheia. Só riem quando podem pensar “ah, que bom que eu não sou aquela pessoa”.

    O que se pede é para que amadureçam. Quando é que a gente vai passar do humor “segunda série do primário”? É criança que ri com a mera menção de palavras como xixi e cocô. É criança que fica dizendo: “lalala, fulaninho é gordo!”, “lalala, joãozinho é bicha!”. O que se pede é que façamos piadas como adultos. Que usemos o cérebro para bolar piadas que sejam engraçadas para todos.

  3. Cynthia, este seu desabafo vem muito a calhar. De fato, esta onda de uso do humor como algo que torna defensável todo e qualquer preconceito é de enfurecer. Já não podemos separar o joio do trigo, o que é ou não de mau gosto, ou ético, porque se instaurou que o humor não tem limites. E tem… e como tem.

  4. Tem que haver ética no humor, sim. Rir de quem está por baixo (as minorias políticas) é tripudiar, é sarcasmo, não é bom-humor. Se é pra desancar alguém, expôr ao ridículo, denunciar farsas e farsantes que se faça isso em relação às classes dominantes: com o mau-gosto dos muito ricos, com a desfaçatez dos políticos, com a estupidez das neo-celebrities.

    Seu post me lembrou de uma boa piada:

    Perguntaram a um ator inglês (o nome me escapa), famoso pelo seu mau-humor, se ele tinha algum preconceito contra negros ou judeus e tal.
    A resposta:
    -Não tenho preconceitos contra ninguém. Detesto, igualmente, a humanidade inteira.

  5. As pessoas posam de muitas coisas que acham bonito. Se posam de humoríscos (do tipo humor negro), se posam de machões, se posam de pegadores, se posam de brancos, se posam carnívoros avassaladores… Acham bonito. Uma beleza quase desumana de tão humana.

  6. Pingback: Uma charge infeliz « Sexismo na política

  7. Grande descoberta esse blog. Quantas vezes me senti solitária ao expressar meu “mau humor” em situações de piadinhas imbecis, comentários fúteis ou menção a falsos programas de humor? Lembro de numa das poucas vezes em que assiste ao famoso programa de televisão “irreverente”, ter visto que o cinegrafista utilizou a imagem de uma mulher machucada por ter caído de um avestruz.(Sim, a graça inicial seria ver uma bonitona correndo no animal) Seus seios foram filmados descaradamente enquanto ela chorava de dor….alguém me explique qual o QI de quem consegue rir disso?

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