Feminista só sabe falar sobre feminismo?

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Este é o terceiro de uma série de posts contando um pouco sobre como a divulgação de mentiras sobre feminismo atrapalha a vida de feministas (o primeiro post é sobre o mito de que feministas querem dominar os homens e o segundo é mostrando que feministas têm vida pessoal). Não costumo fazer posts falando de minha vida privada, mas acho que vale a pena contar um pouco sobre situações que passei pra mostrar que mesmo atitudes banais revelam a ignorância e o preconceito contra feministas, interferindo de forma prejudicial em nosso cotidiano.

Mentira: feminista só sabe falar sobre feminismo

Uma mentira irritante sobre feminismo é a presunção de que feminista só fala de feminismo, ou vive em luta perpétua contra opressões machistas a ponto de só falar disso o tempo todo. É como se eu fosse um fantoche que só tem vida se for pra falar de feminismo, e depois tem de desaparecer, sumir na caixa pra só voltar a ter vida em uma nova discussão feminista. Isso aí está bem longe da verdade.

Existe o momento certo pra todo e qualquer assunto. Eu analiso o mundo com olhar feminista, mas isso não significa que vou falar de feminismo o tempo todo. Não adianta nada ficar falando de feminismo, de trabalho ou militância política em uma mesa com pessoas bêbadas, certo? Eu também quero beber, me divertir e falar de futilidades depois de um dia cansativo de trabalho. Não quero me transformar em uma pessoa que só fala de trabalho, inclusive nos momentos de lazer.

Em um encontro ou evento feminista, vou falar de feminismo. Em um blog sobre feminismo, vou falar de feminismo. Em uma encontro com pessoas de outras áreas, ou em uma mesa de buteco, vou falar de outras coisas. Isso deveria ser óbvio, já que é princípio de boa educação não ficar falando de trabalho fora do ambiente de trabalho. E muito menos é educado ou inteligente ficar tentando converter as pessoas para sua causa durante momentos de lazer.

É impressionante o tanto de gente que quer me forçar a discutir feminismo nos momentos mais esdrúxulos. Falam frases machistas torcendo para eu corrigir as besteiras, desviam os assuntos para impor uma discussão sobre situação das mulheres. E ficam decepcionadas ao descobrir que não estou interessada em discutir, e muito menos me adequar ao que fantasiam que deva ser uma feminista.

O pessoal que propositalmente fala coisas machistas é o mais estranho pra mim. Primeiro, porque acha que vai me irritar, o que mostra um grau de inocência impressionante: qualquer feminista já espera de antemão ouvir comentários machistas o tempo todo; o que fazemos é selecionar quais merecem uma resposta, ou não. Segundo, porque na verdade não estão irritando, mas decepcionando: uma pessoa que faz questão de falar besteiras para ver outra pessoa irritada está na verdade mostrando seus valores, que incluem defender situações que legitimam violência e amplificar absurdos. Afinal, quem realmente repudia machismo e violência não vai fazer de conta que mudou de lado apenas para irritar outras pessoas, da mesma forma que quem é de esquerda não vai ficar se passando por direita apenas para “irritar” ou zombar de pessoas de esquerda.

Todas essas pessoas estão tentando limitar minha vida, me colocando em situações constrangedoras, seja porque eu encarei a besteira machista como papo de bêbado e não quis discutir, seja porque a fantasia de discussão/reclamação é tão forte que mesmo ficando calada as pessoas presumem que eu estou discutindo. Já teve situação em que houve uma discussão na mesa, mas eu não participei (estava conversando com outra pessoa); depois fui acusada de ter sido agressiva durante essa mesma discussão que não participei!

Outra situação bastante comum é encontrar em eventos sociais pessoas que não sabem que sou feminista. Na maior parte das vezes, nem falamos de feminismo, e muitas vezes a pessoa continua sem saber que sou feminista. Mais tarde, ficará surpresa ao descobrir o óbvio: oh, feministas falam de outras coisas que não feminismo!

Existem circunstâncias em que, ao invés de ignorar as besteiras, é necessário fazer um comentário mais enfático, até para a conversa não descambar para machismos constrangedores. Teve uma vez que não sabiam que sou feminista e vieram choramingar que não existe a lei João da Penha. Apenas perguntei: “tem certezaque quer falar sobre isso?” Em seguida mudamos pra um assunto mais leve, sem fazer drama e sem estragar o clima da festa.

Ou seja, quem acha que feministas só falam de feminismo e não perdem a oportunidade de reclamar das opressões machistas está totalmente enganado. O problema está no excesso de imaginação com base em estereótipos (inclusive no estereótipo machista de que mulher, seja feminista ou não, deve realizar a sua vontade). Seria melhor se as pessoas tivessem um pouco mais educação e procurassem saber um pouco mais sobre feminismo pra não perder a amizade nem criar climas constrangedores em eventos sociais.

Publicado no Blogueiras Feministas em 24 de julho de 2011.

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