Estado laico = mulheres livres

Durante muito tempo, as políticas de Estado para mulheres foram definidas a partir da visão religiosa de mundo, especialmente a católica. Nessa perspectiva, as mulheres seriam inferiores e por causa disso deveriam se submeter eternamente ao marido (o divórcio era proibido) ou pai, e não poderiam ter direitos políticos. Casamento e maternidade são tratados como as únicas formas possíveis de vida feminina. O direito à educação só deveria existir para treinar mulheres para a maternidade e administração do lar, pois se considerava que o trabalho intelectual impediria a gravidez. Com isso, as mulheres foram relegadas ao analfabetismo ou a uma educação escolar rudimentar. As mulheres que não se encaixavam nesse modelo (lésbicas, prostitutas, mães solteiras, mulheres separadas do marido, etc) foram (e ainda são) perseguidas tanto pela religião quanto pelo Estado.

Porém, mulheres são muito mais plurais do que a visão religiosa – e limitada – de mundo, e não se contentam com essas restrições: querem viver sem serem obrigadas a serem mães, querem trabalhar e estudar na área que desejarem (mesmo que não seja “feminina”), querem ter relacionamentos afetivos além dos modelos sacralizados pela religião. E não querem ser perseguidas por viverem de forma diferente da que as religiões preconizam para elas.

No entanto, não é bem isso o que vem acontecendo no Brasil, que teoricamente é um Estado Laico. Diversas propostas legislativas, calcadas no discurso religioso, querem forçar as mulheres a se submeter apenas aos papéis determinados por um tipo de religião (bolsa-estupro, cadastro de gestantes, para ficar nos mais óbvios). Políticas públicas (como a Rede Cegonha) estão sendo desenvolvidas com prioridade, reforçando a maternidade e ignorando outras possibilidades em relação à vida e saúde das mulheres. Tanto decisões judiciais quanto a abordagem midiática toleram a violência contra mulheres por meio do discurso religioso que as sacrifica em nome da maternidade e da família.

A liberdade de escolher quem queremos ser só é possível quando o Estado é laico. Se a religião interfere no Estado, traçando leis e políticas públicas de caráter religioso, a pluralidade de opções para mulheres deixa de existir. As mulheres só são livres para escolher o que querem para suas vidas quando vivem em um Estado laico.

Para garantir que não haja um retrocesso na vida das mulheres, calcado em um modelo religioso que limita a liberdade, é importante que nós, mulheres, nos engajemos na defesa do Estado Laico. Participem das Marchas pelo Estado Laico que estão acontecendo no Brasil (amanhã, 17 de setembro, tem Marcha em Belo Horizonte e Curitiba), e se engajem nos grupos de discussão que estão surgindo para abordar o tema e garantir a efetiva liberdade de todas as pessoas, independente de opção religiosa.

Uma última observação: Este blog é sobre feminismo, e por isso que estou enfatizando a questão da liberdade das mulheres. Mas é bom lembrar que o Estado laico é importante para homens também, para que eles possam escolher se querem ou não se adequar à ideia de masculinidade, também bastante restritiva, divulgada pelo discurso religioso.

Marcha pelo Estado Laico em Belo Horizonte


Data:
sábado, 17 de setembro de 2011

Horário: 14:00

Ponto de concentração: praça Afonso Arinos (entroncamento de Augusto de Lima, Álvares Cabral e João Pinheiro)

Para maiores informações, consulte nosso blog e a página no facebook.

Estamos usando no Twitter a hashtag #EstadoLaicoBH.

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5 pensamentos sobre “Estado laico = mulheres livres

  1. Oi Cynthia,

    Por mais que eu seja uma ativista até do estado laico, não concordo com vc quando diz que as políticas públicas voltadas para a mulher que vc citou reforcem maternidade, etc e sejam pautadas pela visão da religião dominante: a católica. Acho que essas políticas tem o objetivo de dar à mulher – inserida ainda em uma sociedade machista – condições para dar conta dos papeis que foram impostos a ela (casar, ser mãe, ser estuprada, ser dona de casa) e, ainda, lutar para construir uma vida pessoal autônoma, fora desses papeis.

    Enquanto a gente não conquistar uma sociedade verdadeiramente igualitária não dá para deixar as mulheres gestantes, mães, etc, na mão. Se eu tive um filho (mesmo contra a minha vontade) e agora não tenho creche e o meu marido ou o pai da criança se recusa, por machismo, a cuidar desse filho, é afirmativo que o estado possibilite que eu tenha creche de qualidade para me ajudar a criar esse filho e, ainda, estudar/trabalhar/etc.

    você não acha?

    • Aiaiai, não tenho nada contra a existência de políticas públicas voltadas para mães, muito pelo contrário, elas PRECISAM existir e são fundamentais pra melhorar a vida das mulheres (e dos filhos e da família também).

      O problema é que a tendência atual está em SÓ reforçar a maternidade, respondendo a uma visão religiosa que privilegia a mãe (especialmente a abnegada) e se esquece das outras possibilidades. Lésbicas têm dificuldade pra encontrar informações sobre prevenção de DSTs, por exemplo, e são super mal-atendidas em postos de saúde. Doenças de mulheres não são só ligadas à reprodução, mas o discurso de prevenção de doenças é focado só na reprodução, se esquecendo de infartos e AVCs. A vida profissional das mulheres ainda é tratada como “opcional” e de menor valor em relação ao trabalho do marido (como se casamento fosse obrigatório), e há uma pressão para que a mulher cuide mais das crianças e se sacrifique em nome dos filhos, mesmo que isso signifique abandonar o emprego ou se submeter ao marido violento. Só ter políticas que valorizam a maternidade, nesse contexto, dificulta muito a vida das mulheres, inclusive das que são mães.

  2. Pingback: Estado laico = mulheres livres « Marcha Pelo Estado Laico em BH

  3. As religiões, de modo geral, são muito apegadas à tradição e por isso não conseguem acompanhar as mudanças sociais. Tanto a relação entre religião e estado quanto a repressão às mulheres são coisas antigas, que não se sustentam na sociedade de hoje. Para os religiosos isso pode ser muito difícil de entender.

  4. Pingback: Segurança pública, políticas públicas e violência contra mulheres « Cynthia Semíramis

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