Feminismos, protagonismo e manipulação política

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Estou bem chocada com uma situação bizarra que está acontecendo aqui em Belo Horizonte. Um rapaz tirou foto apoiando a Marcha das Vadias de BH. A foto dele recebeu comentários extremamente agressivos e ele foi acusado de estar roubando o protagonismo da Marcha. Me expliquem: como que UMA FOTO de um apoiador pode ser encarada como roubo de protagonismo?

Como se não bastasse essa supervalorização da foto, ela foi colocada em uma montagem com a seguinte frase: “Vou tirar delas a única coisa que elas ainda têm: o protagonismo em seus movimentos“.

Atribuíram ao rapaz a intenção deliberada de usurpar o protagonismo das mulheres no movimento feminista. Ou seja, quem INVENTOU que ele era protagonista ESCOLHEU a foto dele pra protagonista e ampliou o discurso para virar uma oposição homens x mulheres, sendo os homens os vilões e as mulheres as mocinhas, vítimas indefesas.

Tem uma série de problemas nesse discurso:

1. a frase da fotomontagem parte da ideia de que mulheres não obtiveram até hoje nenhuma melhora em suas vidas, o movimento feminista é pra reivindicar, reivindicar, e só. Isso é MENTIRA. Nós, feministas, conquistamos DIREITOS para mulheres. Muitos. Nunca foi tão bom ser mulher: houve época que não éramos nem sujeitos de direito, não podíamos estudar, divorciar, ter guarda dos filhos, liberdade sexual, direitos trabalhistas. Temos muito pra melhorar e ampliar nossos direitos ainda (e taí o movimento feminista agindo pra mudar isso) mas daí a ignorar todas as conquistas feministas das últimas décadas vai uma longa distância. E é disseminar ignorância fingir que não conquistamos nada.

2. Homens como opressores e mulheres como vítimas. Esse é o raciocínio conservador, que retira das mulheres a capacidade de agência. Aí mulheres são reconhecidas apenas quando são vítimas. É uma pena que parte do movimento feminista venha trabalhando somente com essa hipótese, perdendo de vista as nuances que tornam seres humanos tão interessantes e complexos. Homens não são necessariamente vilões, mulheres não são necessariamente vítimas ou boazinhas. Seres humanos são complexos e têm intenções nem sempre tão evidentes assim, que podem tranquilamente ser mascaradas (sério que vocês nunca viram um homem que é agressivo para esconder fragilidade ou uma mulher que se faz de vítima para ter direitos reconhecidos?) Raciocínio feminista é exatamente o oposto: mulheres não são vítimas da sociedade, elas têm capacidade de decidir o que fazer com suas vidas e direcionar suas lutas.

3. Homem sempre como o opressor. É a continuação do raciocínio anterior. Tratar homens como opressores, manipuladores e inimigos a priori rotula as partes e impede o diálogo e a mudança de mentalidade. Isso não ajuda em nada a ampliar o debate sobre discriminação de gênero. Mas atende muito bem a quem quer brincar de novela e criar um inimigo pra ser combatido. Gostaria muito que se lembrassem que não é tudo tão fixo assim: a resistência à reivindicação de direitos existe tanto por parte de homens quanto de mulheres. E as conquistas de direitos das mulheres sempre tiveram apoio masculino (muitas vezes, eram somente eles decidindo, como no direito de voto feminino). Enquanto parte do movimento feminista ficar na presunção de que homem é sempre opressor não vai ter diálogo nem mudança de mentalidade ou conquista de direitos. Ou seja, um mundo muito pior pras mulheres. É esse o objetivo? Espero que não.

Enfim: protagonismo é um processo LENTO de construção. E é preocupante que feministas vejam uma foto de um homem apoiando o movimento e O ELEJAM para protagonista, apenas para criticá-lo. Linchar um pretenso inimigo desvia o foco do que realmente interessa, que são os direitos das mulheres. E não é nada bonito acusar os homens de manipuladores quando o que se está fazendo é manipular uma foto, retirando-a de contexto, para criar um bode expiatório.

Não sei a quem interessa essa confusão, mas certamente, não contribuiu em nada para mudarmos a mentalidade e melhorarmos a discussão sobre direitos das mulheres.

Publicado originalmente no Facebook em 25 de maio de 2014

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