Mais uma responsabilidade pras mães

Vi na Vanessa tanto o link pro vídeo acima (que ela viu na Laura, que viu na Gabriela) quanto pra uma reportagem do Fantástico (pode ser acessada por vídeo ou texto) que apresenta os resultados de uma pesquisa interessante: 52% da influência sobre a imagem das meninas vem da mãe, 49% das amigas, 15% dos meninos e apenas 7% da mídia.

A primeira coisa que pensei foi “sempre temos de culpar a mãe!” A segunda foi “faz um pouco de sentido”.

Alguns exemplos da reportagem sobre o poder materno de interferir na imagem e auto-estima de suas filhas foram os seguintes depoimentos:

  • “A minha mãe é como se fosse uma visão do que os outros vêem de mim”
  • “Às vezes eu botava muita comida no prato e ela falava para eu não comer tanto. Eu me sentia um pouco culpada, gorda. Porque se eu estivesse magra ela não falaria isso”

E já vi alguns outros comentários maternos ou familiares na mesma linha:

  • várias mães que comparavam a beleza de seus bebês na frente deles já crescidinhos, no estilo “nossa, você nasceu um bebê tão feio, e hoje é uma graça”, ou “você ERA uma criança tão linda”, ou “eu queria um bebê igual ao de propaganda de fraldas, MAS fiquei tão feliz quando te vi”
  • faziam graça de alguma característica física mais marcante, sem deixar claro se ser magro, ter pernas longas, ou grossas, ou cabelo cacheado era uma vantagem ou um demérito
  • em conversas de parentes ou amigos, na frente das crianças, profetizavam coisas do tipo “você vai ser mais gordinho, já Fulana terá um rosto mais feio, e a Beltrana vai ter um corpão”
  • depois que fiz este post, soube que a menina de 12 anos que não queria ficar de biquini na praia (achava que tinha pernas finas) tem uma mãe-barbie, obcecada por aparência e cirurgias plásticas

Mesmo reconhecendo que é gigantesca a influência das mães para a auto-estima d@s filh@s (ou vocês acham que homem não tem auto-estima nem se preocupa com aparência?), não consigo afastar a culpa da mídia. Na reportagem, a impressão que temos é que a mãe não está satisfeita com o próprio corpo e desconta suas frustrações na filha.

Mas… por que ela não está satisfeita? De onde saíram os padrões de beleza que a mãe tenta perpetuar? Será que foi só da cabeça da mãe ou das amigas dela, ou será que boa parte deles vem das informações que são recebidas diariamente pelos meios de comunicação? Quem sabe o real poder de influência de:

  • uma reportagem dizendo o quanto de dinheiro as mulheres precisam gastar para ficar “lindas”
  • propaganda de emagrecedores em programas femininos
  • imagens de mulheres totalmente alteradas digitalmente ilustrando cada anúncio
  • uma declaração da modelo-namorada de jogador de futebol (famoso e fora de forma), defendendo-o ao dizer “eu é que estou gorda“, sendo que, para as proporções dela (1,79 m e 62 kg), está dentro da normalidade (o IMC dela é 19,35kg/m2)?

E quando eu digo que essa questão de auto-estima é mais uma responsabilidade pras mães, não se trata de culpá-las, e ficar por isso mesmo, mas de mostrar que comentários aparentemente banais podem trazer grandes problemas, especialmente quando o alvo são @s filh@s. A responsabilidade está em mudar o foco da conduta: identificar as próprias frustrações, analisar como elas interferem na relação com outras pessoas, e procurar sempre falar dos aspectos positivos de cada pessoa ou situação.

Parece fácil de falar, né? Mas isso vale pra todo mundo e é bem difícil de praticar… é mais fácil jogar a culpa toda na mãe, como fez a reportagem do Fantástico, do que forçar uma reflexão sobre nossa responsabilidade na perpetuação de uma estética discriminatória, e incentivar uma mudança de comportamento, como fez a propaganda da Dove.

Alguns links:

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