Arquivo da categoria: corpo

Desafios do direito à saúde: laicidade e autonomia das mulheres

Padrão

No início de 2015 a revista Radis (Escola Nacional de Saúde Pública – Fiocruz) me solicitou uma declaração sobre o que eu considero desafio para o direito à saúde das mulheres em 2015. Destaquei as questões sobre laicidade e autonomia:

Laicidade nas políticas de saúde e autonomia das mulheres para decidirem sobre seus corpos são temas destacados pela advogada Cynthia Semíramis, doutoranda em Direito na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Temos visto diversos ataques a essa autonomia impactando direitos como aborto, contracepção e situações de violência intrafamiliar, violência obstétrica”, adverte a pesquisadora, que credita esta realidade a uma onda conservadora que procura reduzir mulheres a situações relacionadas a família e maternidade e ignora seus projetos pessoais e profissionais através do “controle médico da vida reprodutiva”. Cynthia alerta para a necessidade de revisão do Código Penal, no que diz respeito à legislação sobre o aborto e para o risco que representam projetos como o “estatuto do nascituro”, que trata o embrião como sujeito de direitos ao mesmo tempo em que trata mulheres como incubadoras descartáveis. “A luta pela legalização do aborto deve ser pensada como uma luta não só por autonomia, mas também contra o racismo, já que são as mulheres negras as maiores vítimas de mortalidade materna”, indica. A pesquisadora acredita ainda que deve-se pensar a saúde como laica, sem interferência religiosa de nenhum tipo. “Não cabe pensar em saúde da mulher apenas pelo viés de uma religião que considera o embrião como superior à gestante, pois existem outras interpretações, e existe uma mulher adulta que juridicamente é sujeito de direitos, tem prevalência sobre o embrião (pois ele só tem expectativa de direito) e por ser sujeito, ela tem autonomia para gerir sua vida”.

Conheça todos os desafios de 2015 à efetivação do direito à saúde no site da Revista Radis.

Feminismo e depilação

Padrão

Recentemente fui entrevistada pela revista O Tempo Livre, do grupo do jornal O Tempo, pra comentar sobre o questionamento dos pelos femininos e a tendência de várias mulheres pararem de se depilar. Como a revista tem circulação limitada, posto aqui a íntegra das minhas respostas.

Por que o questionamento do papel da mulher e sua representação na sociedade passa pelos padrões estéticos?

Em nossa sociedade os papeis de gênero são divididos de forma binária e excludente. O que é considerado masculino deve ser bastante diferente do feminino, e essas regras precisam ser seguidas para que as pessoas tenham aceitação social. Para os homens foi reforçado o papel de líder e provedor; para as mulheres, o papel de frágil e esteticamente agradável. Homens podem ser feios, desde que provedores; mulheres devem ser bonitas e submissas. Questionar este modelo, inclusive o que é bonito ou não em determinada época e sociedade, ou se é válido limitar uma pessoa a um papel de gênero (seja ele relacionado à beleza ou ao suporte financeiro) implica em modificar esses valores sociais e propor outras possibilidades menos restritivas de existência.

Por que os pelos, nas mulheres, são motivo de tanto desprezo?

Essa é uma questão bastante recente, na verdade. Um século atrás não havia toda essa preocupação com pelos femininos: aceitava-se que as mulheres, tal como os homens, tinham pelos e que isso não era um problema nem um limitador social. À medida que mulheres passaram a reivindicar direitos e modificar roupas e costumes a pressão para demarcar papeis de gênero aumentou, influenciando também na aceitação dos pelos e de outras características que diferenciassem o masculino do feminino. Ter pelos, nessa perspectiva, tornou-se sinal de virilidade e marcador do masculino; uma mulher que não se depila invade um território marcado como masculino e é constrangida a controlar seu corpo – e seus pelos – para se feminilizar e ser aceita socialmente. O desprezo aos pelos femininos acabou, assim, sendo utilizado para deslocar a atenção da questão dos direitos e forçar mulheres a se adaptarem a pressões estéticas cada vez mais limitadoras de seu cotidiano.

Por que assumir os pelos se tornou um símbolo do feminismo?

O feminismo aponta e questiona os papeis de gênero que limitam a vida das pessoas, especialmente restringindo direitos das mulheres. E, quando se tem uma sociedade que associa mulheres à aparência, as características relacionadas a aparência devem ser questionadas. Foi assim na década de 60, quando o movimento feminista questionou espartilhos e maquiagem, e é assim hoje quando questionamos a obrigação de se depilar para ser considerada mulher. Esta não é a única pauta feminista, mas é bastante conhecida porque ainda se considera que mulheres devem ser julgadas não por suas atitudes e caráter, mas pela sua capacidade de se adequar a padrões estéticos como os modismos depilatórios.

Estar inserido dentro dos padrões estéticos e papéis impostos culturalmente, como o fato de ser depilar e usar salto alto, significa, necessariamente, estar do lado oposto ao feminismo?

Depilar, usar maquiagem, salto alto, roupas justas ou qualquer outra questão relacionada à aparência não é, por si só, nem feminista nem antifeminista. Pode-se encontrar tanto uma mulher feminista que use maquiagem e decotes, quanto uma mulher religiosa, antifeminista, que considera inadequado se depilar, usar roupas coloridas, salto alto ou maquiagem. É importante ressaltar que feminismo é um movimento social que reivindica direitos e oportunidades iguais para mulheres, e uma das formas de fazer isso é expor os mecanismos sociais que restringem direitos com base na aparência das mulheres. Ou seja, é um movimento de luta por direitos, e não uma seita para impor formas “adequadas” de se vestir ou de se comportar – para isso já existem a moda, religião, família, empresa e diversas outras instituições impondo esses comportamentos. Como as pessoas decidem usar os questionamentos feministas, seja para se rebelar, seguir alguns padrões estéticos, ou todos os padrões, é um exercício de sua liberdade e que não deve ser interpretado como feminismo, antifeminismo nem como algo que limite seus direitos.

De que forma a aceitação dos pelos, por parte das mulheres, tem ajudado a sociedade a refletir as representações de gêneros?

Aceitar os próprios pelos, ou brincar com eles, modificando-os, é uma forma de questionar as obrigações sociais atribuídas às mulheres. Ao questionar e optar por fugir dessas obrigações o que se tem é a percepção de que mulheres e homens são livres para decidirem o que fazer com sua aparência, não perdendo direitos por conta disso. Libertam-se desse tipo de pressão e tornam-se mais satisfeitos com seus próprios corpos. Pelos, roupas, corte de cabelo ou maquiagem são acessórios estéticos; não determinam caráter e jamais deveriam ser levados em conta para respeitabilidade social.

Em que medida e de que maneira o nosso corpo se torna ferramenta para expressar aquilo que pensamos e acreditamos?

O corpo é um espaço em disputa. É pelo corpo que nos situamos no mundo, que nos expressamos, que mostramos como somos e o que desejamos, mas o corpo é também espaço de agressão e de limitação. Quanto mais direitos são reivindicados, mais há uma pressão sobre os corpos para se adaptarem a padrões irreais de beleza. Uma das maiores violências é procurar determinar como as pessoas podem – ou não – usar seus corpos. Isso limita suas possibilidades, subordinando-as a papeis de gênero e a limites que nada têm a ver com a liberdade de se aceitar e de tornar seu corpo o que for mais agradável para si mesma. Negar às pessoas a autodeterminação de seus corpos é uma violência que não deve ser tolerada, pois limita a liberdade e as possibilidades de expressão de felicidade de cada pessoa.

Respondendo dúvidas sobre a Marcha das Vadias

Padrão

Marcha das Vadias 2014 em Belo Horizonte: concentração na Praça da Rodoviária às 13h.

Marcha das Vadias 2014 em Belo Horizonte: concentração na Praça da Rodoviária às 13h.

Nesta semana várias cidades receberão a Marcha das Vadias. Trata-se de uma manifestação feminista reivindicando liberdade e uma vida com menos violência para as mulheres. Porém, como tenho visto muitas dúvidas sobre a Marcha, achei adequado fazer uma listinha esclarecendo as questões que mais tenho ouvido nas últimas semanas. Se tiverem outras dúvidas, postem nos comentários.

Afinal, Marcha das Vadias é sobre violência ou sobre liberdade?
Esta não é uma questão simples de responder, pois ainda não há consenso entre as participantes. Eu defendo que se trata de uma manifestação pela liberdade das mulheres. A violência contra mulheres decorre dessa liberdade: é usada para constranger mulheres a negarem seus desejos e sua liberdade, caracterizando a cultura do estupro. E sem liberdade para as mulheres não há como ter igualdade entre mulheres e homens.

Com que roupa eu devo ir na Marcha das Vadias?
Com a roupa que você quiser. A Marcha se originou em protesto a um policial que queria negar proteção estatal a mulheres por conta de suas roupas, como se a violência ocorresse por conta das roupas, e não da relação de poder que se estabelece entre agressor e vítima. Defendemos a ideia de que você não pode sofrer violência, não importa qual roupa esteja usando, ou qual seja seu comportamento. Marcha das vadias é sobre liberdade para as mulheres e isso inclui liberdade para dizer NÃO, para escolher com quem vai se relacionar, para escolher que roupa vai usar, inclusive na passeata, e se quer tirá – la ou não. A escolha é sua, não é obrigada a fazer nada. Portanto, exerça sua liberdade de usar a roupa que quiser e com a qual se sentir melhor.

Eu tenho de tirar a roupa durante a passeata?
Não. A Marcha das Vadias é uma manifestação pela liberdade: pela SUA liberdade. Você faz o que quiser. Se quer fazer topless, tudo bem. Se não quer tirar a roupa, tudo bem. Se mudar de ideia, tudo bem também. O corpo é seu, a decisão é sua e ninguém tem o direito de obrigá-la a fazer nada.

Por que só vejo fotos da Marcha das Vadias com mulheres sem roupa?
Porque a grande mídia prefere divulgar apenas essas fotos. A Marcha das Vadias é muito mais que isso: são centenas de participantes, sendo que é uma minoria que opta – legitimamente – por tirar a roupa ou parte dela. Alguns exemplos: coletânea de imagens no Google e álbuns no facebook: Brasília | Belo Horizonte | Porto Alegre]. Todas essas imagens mostram a diversidade de participantes da Marcha das Vadias e de suas performances. São os portais atrás de cliques e anunciantes que praticam o jornalismo punheteiro e divulgam apenas as fotos de topless, reduzindo a diversidade e amplitude do evento.

Por que usar o termo vadia?
É uma forma de resignificar o termo e expor os preconceitos, machismo e moralismo que estão embutidos nele. “Vadia” é um termo usado de forma pejorativa para criticar somente mulheres (homens não são considerados vadios!) e constrangê-las a assumir um papel de gênero bastante restritivo. As mulheres ainda são ensinadas a não serem vadias, que isso é “repulsivo” e “inadequado”. Porém, no fim das contas, somos todas vadias: basta a mulher fazer algo que não agrada às pessoas para ser chamada de vadia, mesmo que ela esteja com a razão. É contra essa cultura misógina que estamos lutando porque legitima violência e fere a liberdade das mulheres de serem quem desejam ser.

Eu não conheço ninguém, posso ir mesmo assim?
Claro que pode! E vai (re)conhecer pessoas que pensam como você e estão interessadas em se libertar das amarras que limitam a liberdade das mulheres. Várias marchas têm oficina de cartazes, e esse é um ótimo momento para conhecer mais gente e se enturmar.

Homens podem participar?
Sim! Todas as pessoas que lutam pela liberdade e pelo fim dos papeis de gênero são bem-vindas, independente de identidade de gênero, orientação sexual, raça, etnia… não se acanhe e venha participar com a gente. Embora o ponto de partida da marcha, e boa parte das discussões, envolvam denunciar a violência contra mulheres, estamos falando de liberdade, e liberdade é para todxs nós!

Onde vai ter a Marcha das Vadias? E quando?
Boa parte das manifestações está marcada para o próximo dia 24 de maio, embora algumas cidades adotem outras datas. Recomendo que procure no facebook (que é a mídia da vez) informações sobre a marcha em sua região. A Marcha das Vadias de Belo Horizonte será no dia 24 de maio, a partir das 13h. A concentração ocorrerá na Praça da Rodoviária.

Tenho vergonha de ser chamada de vadia e não quero me associar a um movimento com esse nome. Sou machista?
Não necessariamente. Você pode ser conservadora e obediente às prescrições sociais, ou ser uma privilegiada que nunca enfrentou episódios machistas, ou alguém mais tímida e retraída, que não gosta de chamar a atenção ou ser rotulada. Ou – infelizmente – pode ser puramente machista mesmo e achar que mulher tem mais é que ficar quietinha no canto obedecendo aos homens. O que faz a diferença é a forma como você age. É uma pena que você não queira participar de uma manifestação tão divertida, irreverente e libertadora quanto a Marcha das Vadias. Mas se não quer ajudar ou participar, não atrapalhe. Leia e se informe sobre a marcha, sobre o que estamos falando em relação a liberdade e igualdade, sobre feminismo (você vai se surpreender ao descobrir que é mais feminista do que imagina, sobre não julgar as escolhas das outras pessoas. Pense como pode ajudar a melhorar a vida das meninas e mulheres ao seu redor (inclusive quebrar preconceitos para melhorar a sua vida). O que importa é agir para tornar o mundo mais livre e menos cruel com as mulheres. A Marcha das Vadias é uma das formas de lutar contra o machismo. Existem outras, descubra qual a mais adequada pra sua personalidade e seus desejos.

Quero saber mais sobre a Marcha das Vadias. Quais textos vocês indicam?
No Blogueiras Feministas tem uma série de posts sobre a Marcha das Vadias. E os dois manifestos [2011 | 2012] da Marcha de Brasília são bastante esclarecedores. Há também uma coletânea de links aqui no meu blog.

Corpo feminino, beleza e diversidade na mídia

Padrão

À medida que as mulheres passaram a obter vitórias políticas, conseguindo a igualdade jurídica, a discriminação foi deslocada para outros campos. E um tema que merece atenção é o da aparência feminina, pois envolve uma mudança no enfoque do corpo da mulher na mídia.

Mulheres ainda são avaliadas primeiro – e principalmente – por sua aparência, e não por suas atitudes e qualidades. Resquício de uma época na qual mulher não podia estudar nem trabalhar, a aparência feminina era fundamental para enfeitar o ambiente e se destacar. Porém, os tempos mudaram e hoje não faz o menor sentido adotar a aparência física como critério principal para a avaliação da vida de uma mulher, e de sua atuação profissional.

Um homem não vai ser considerado menos profissional se for careca, idoso ou andar como um pato. Caso não use as roupas da moda, será visto como excêntrico, não como indigno de confiança profissional. Uma mulher será criticada em toda a sua aparência (peso, roupas, esmalte, batom, rímel, sombra, cor e corte de cabelo, espessura e formato da sobrancelha, sapatos, bolsa, brincos, colares e pulseiras) antes de ser avaliada pelo que tem a dizer. Seu peso e sua aparência são tratados como assuntos públicos, como se ela estivesse o tempo todo precisando primeiro ser aprovada como enfeite, e só depois, segundo o ideal de beleza vigente, pudesse ser avaliada e aprovada como profissional.

Essa desigualdade na abordagem da aparência faz com que as mulheres não tenham a mesma igualdade de oportunidades que os homens. A avaliação é feita por critérios desiguais em razão de gênero, e a necessidade de atender a essa pressão faz com que mulheres sejam fortemente prejudicadas em sua vida social e profissional.

Ideal de beleza ignora a diversidade de corpos

Ao longo do século XX, o padrão de beleza criado a partir das medidas da média das mulheres deu lugar ao ideal de beleza, que valoriza um tipo de corpo bem distante da média da sociedade. Em 1950, uma mulher de 1,60m e 63kg era modelo de beleza; atualmente a modelo tem de ter mais de 1,75m e pesar 50kg ou menos. A modelo de 1950 tinha o corpo parecido com o das mulheres de sua época; a de hoje tem o corpo bem distante da realidade da maioria das mulheres.

O modelo ideal de beleza atual, incentivado pelos meios de comunicação de massa, é extremamente limitador: para ser bonita é necessário ser jovem, extremamente magra, alta e com traços europeizados (pele, cabelos e olhos claros, cabelos lisos). Basta andar na rua para perceber que é raríssimo alguém ter todas essas características – e praticamente impossível tê-las ao mesmo tempo.

Trata-se de um modelo que ignora a diversidade racial e cultural brasileira. É absurdo que, para ficar em um exemplo, cabelos escuros e crespos sejam vistos como inadequados e necessitem ser clareados e alisados para se enquadrar em um ideal de beleza que nega a história das brasileiras. Porém, é esse ideal de beleza altamente excludente e alienante que é tratado como único modelo a ser seguido se as mulheres quiserem obter respeito social e profissional.

Infância direcionada para os cuidados com a aparência

Um dos efeitos da obsessão em obrigar mulheres a ter o corpo perfeito está na pressão exercida durante a infância. Ao invés de brincar ou estudar, as meninas são incentivadas a perseguir um corpo ideal desde tenra idade.

Antes de aprender a ler, meninas já aprenderam a usar batom e a ter medo de engordar. É cada vez mais comum encontrar maquiagem e tintura para cabelos específicos para crianças. Saltos altos, tratamentos estéticos e gestos limitados para não sujar roupas ou borrar a maquiagem já são rotina para muitas meninas. Estudar, ter vida social e tentar ser feliz são valores secundários: o que importa é aprenderem a controlar e alterar o próprio corpo para obter a aparência perfeita.

Durante a puberdade, incapazes de aceitar as mudanças em suas formas e o aumento do grau de gordura corporal, muitas meninas se entregam a dietas de emagrecimento, às vezes até dificultando ou impedindo o processo metabólico natural que levará à menarca. O impacto em suas vidas varia de problemas com autoestima e insatisfação duradoura com seu corpo, passando pelo desenvolvimento de distúrbios alimentares e anorexia, podendo chegar à morte.

Igualdade de gênero, violência e declarações de direitos

A pressão para construir e manter o corpo perfeito resulta em violência física e psicológica. Tentar atingir um modelo inatingível gera angústia, estresse e sensação de inadequação. A pretexto de modificar quem não se enquadra no modelo, estimula-se a zombaria e a agressão, chegando ao ponto de agressão física (como os “rodeios de gordas” na Unesp, no qual universitários perseguiam e agrediam suas colegas que estavam acima do peso considerado ideal).

Além da questão da violência, há também a violação do princípio da igualdade. Não é possível ter igualdade de gênero em um sistema que, desde a tenra idade, força as meninas a se perceberem como fisicamente inadequadas e dificulta a inclusão social feminina. Também há a violação dos princípios de proteção ao desenvolvimento físico e mental das crianças e adolescentes.

Declarações de direitos são fundamentais no combate a todo tipo de discriminação contra mulheres, inclusive quando gera violência psicológica. Dentre as diversas declarações e convenções, destacamos a Convenção de Belém do Pará (1994), dedicada a combater a violência contra mulheres. O artigo 6º declara o direito de a mulher ser valorizada e educada livre de padrões estereotipados de comportamento e práticas sociais e culturais baseados em conceitos de inferioridade ou subordinação, e o artigo 8º, g, considera dever do Estado incentivar os meios de comunicação a formular diretrizes adequadas de divulgação que contribuam para a erradicação da violência em todas as suas formas e enalteçam o respeito pela dignidade da mulher.

Combatendo a discriminação em razão de aparência

O combate às discriminações legitima a atuação do Estado em duas frentes: estímulo a políticas públicas de combate à discriminação e incentivo à introdução de mudanças nas áreas de educação e mídia para modificar as relações de poder que estereotipam e patrocinam comportamentos prejudiciais às mulheres.

O Estado brasileiro vem agindo por meio da Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM), desenvolvendo atuação específica para questionar e combater os estereótipos sobre mulheres divulgados em anúncios publicitários e programação televisiva. É importante lembrar que o Estado não está censurando nem proibindo, está apenas questionando os valores que são transmitidos pelos meios de comunicação. Ao questionar, propõe mudança de paradigma para que a mídia combata a violência simbólica contra mulheres.

A atuação da SPM, embora louvável e juridicamente correta, ainda é insuficiente. É necessário haver mais envolvimento da sociedade civil e dos demais poderes da República, a exemplo do que ocorre em outros países. Na Suécia, anúncios que exploram o corpo feminino ou que usam mulheres para vender produtos não ligados ao corpo feminino são pichados e sofrem repúdio público. Na Espanha, os desfiles de moda seguem regras para impedir a participação de modelos desnutridas ou jovens demais. Na Inglaterra, anúncios de maquiagem e produtos tidos como rejuvenescedores são retirados de circulação se fica evidente o excesso de manipulação digital da imagem, caracterizando propaganda enganosa.

O Ministério Público de São Paulo tem interferido na indústria da moda com bons resultados. Ao exigir modelos negras nas passarelas e proibir algumas participações (modelos abaixo de 16 anos ou magras demais), abriu espaço para maior diversidade de mulheres nas passarelas.

É necessário ampliar esse tipo de iniciativa para outras áreas. Anúncios publicitários ainda são bastante discriminatórios e o Conar, apesar da pressão da sociedade civil, pouco tem feito para modificar esse quadro. Falta diversidade nas revistas e na televisão: a aparência física da maioria das apresentadoras de telejornais, atrizes e modelos está bem distante da média da população e não representa a diversidade das regiões e dos corpos das mulheres brasileiras.

O descaso com que são recebidas as críticas à falta de diversidade na mídia faz crer que é necessário forçar a implementação de cotas para estimular a diversidade feminina. Também é o caso de efetivamente punir propaganda enganosa ou discriminatória em razão de aparência. Em suma, é necessário agir não só por meio de políticas públicas, mas judicialmente, para impedir que seja incentivado um ideal de beleza excludente que atua para controlar os corpos e restringir a vida das mulheres.

Mulheres são muito mais do que corpos, e corpos são muito mais do que aparência estética. É importante lembrar disso para combater o controle do corpo feminino através da imposição midiática de um modelo estético opressor, que ignora a diversidade e que não contribui para uma vida com mais liberdade para as meninas e mulheres.

Artigo publicado originalmente na edição impressa nº108 (março de 2012) da Revista Fórum

Links interessantes – pela legalização do aborto

Padrão

Dia 28 de setembro é o Dia de Luta pela Descriminalização do Aborto na América Latina e Caribe. Não vou fazer post neste ano, mas vou fazer aqui uma lista dos meus posts antigos e outros links de interesse:

Detalhe do meu cartaz na Marcha pelo Estado Laico em BH: Basta de rosários em nossos ovários!

Acompanhem também o twitter da FeministaBR e a blogagem coletiva no blogueiras feministas.