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Virgindade na capa da Veja: bons tempos pra quem?

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A Veja fez uma capa dedicada a uma mulher que vendeu a virgindade. No facebook a Veja compartilhou a capa com a seguinte legenda “Bons tempos em que a virgindade era perdida”.

É curioso notar que a Veja adora ser o baluarte do capitalismo. Mas se posiciona rapidinho como anti-capitalista quando uma mulher decide vender a virgindade (é direito dela!) em um processo totalmente capitalista.

E me choca o termo “bons tempos” para se referir a “perda da virgindade” (outro termo equivocado – relações sexuais não deveriam ser vistas como uma perda, mas como ganho: trazem novas possibilidades de liberdade e prazer).

Bons tempos pra quem? Pras mulheres é que não era!

Até recentemente o hímen rompido sem que a mulher estivesse casada destruía sua vida. Ela era vigiada desde a infância para não fazer sexo antes do casamento. As pessoas se referiam a mulheres não virgens por termos como “se perder”, “ceder”, “cometer um erro”, “ir embora”, “ser usada”, “se tornar pública”.

A mulher passava a ter dificuldades para se casar – justo em uma época em que o casamento era fundamental para o status social das mulheres. Ou então ela teria de ficar feliz por se casar com um homem que a espancasse porque ele aceitou ficar com ela sabendo que estava “estragada” por não ser mais virgem. E se ela não contasse que tinha tido experiências sexuais e o marido descobrisse na lua-de-mel que ela havia sido “deflorada” (que termo ridículo!) por outro ele poderia devolvê-la para os pais, humilhando-a publicamente. Dependendo do crime cometido “contra os costumes” (e não contra a liberdade sexual da mulher) primeiro seriam analisados a honestidade (virgindade ou monogamia) da mulher pra depois ver se era o caso de processar e julgar o agressor. A filha “desonesta” que vivia na casa paterna podia ser deserdada, perdendo o direito a herança.

Tudo isso aí estava previsto em lei e vigorou até recentemente. O Código Civil valeu até 2002 e só em 2005 que o termo “mulher honesta” foi retirado da legislação penal.

É essa vida aí que a Veja acha que eram bons tempos…

Prefiro muito mais os dias de hoje. A pessoa -seja homem ou mulher – pode escolher o que deseja fazer com sua vida sexual e a lei não pode puni-la por isso (obviamente, desde que respeite direitos de terceiros). A mulher não precisa ser virgem para ser respeitada socialmente e tem o direito de vender a virgindade sem ter sua vida destruída pelo preconceito e moralismo sexual. Nunca houve um tempo melhor para ser mulher do que hoje.

Roda de Conversa: história das desigualdades entre mulheres e homens

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Durante a 3ª Conferência Nacional de Políticas para Mulheres ocorreram diversas rodas de convesa, algumas delas registradas no blog do evento. Uma das rodas de conversa foi sobre História das Desigualdades entre Mulheres e Homens, direcionada por apresentações das historiadoras Maria Izilda Santos de Matos (PUC-SP) e Natalia Pietra Méndez (UCS). Fui ao auditório para acompanhar a roda de conversa como parte do público, pois o tema me interessa bastante. Houve uma coincidência de horários que fez com que a coordenadora e a relatora originalmente designadas ficassem presas em uma outra reunião. Palestrantes e público optaram por começar sem elas e na redistribuição de papéis acabou que eu me tornei a relatora da roda de conversa. este post é pra fazer um breve resumo de pontos da conversa que me pareceram mais relevantes, e espero poder colocar aqui futuramente o relatório na íntegra.

Maria Izilda contou a história do movimento feminista, mostrando que embora tenha havido grandes mudanças nas relações entre feminino e masculino, ainda há uma separação entre espaço público (englobando trabalho e política, consideradas áreas masculinas) e espaço privado (englobando o espaço doméstico e sendo considerado área exclusivamente feminina) que precisa ser modificada para que haja efetivo combate às desigualdades.

Ao falar sobre temas que considera mais importantes atualmente, Maria Izilda destacou os que se relacionam ao corpo das mulheres. Infartos e doenças cardiovasculares são as principais causas de morte feminina, mas as políticas de saúde estão reduzidas aos órgãos reprodutivos: “é como se mulher não tivesse coração, só tivesse útero”, lamentou. Em seguida, provocou: o que o saber médico, o discurso jurídico e religioso nos ensinaram a fazer com nosso corpo? E como nesse processo nós construímos noções de feminino e masculino a partir desses discursos do corpo? Essas são questões importantes para combater as desigualdades, pois mostram que a construção de discursos sobre os corpos pode limitar as oportunidades das mulheres.

Natalia Pietra falou sobre o trabalho feminino, explicando que mulheres sempre trabalharam, mas as autoridades consideravam que esse trabalho não era legítimo, e por isso não o registravam. Isso invisibilizou o trabalho feminino, criando o mito de que mulheres só passaram a trabalhar no século XX.

Explicando sobre diferença de salários, Natalia observou que existe uma diferenciação sexual do trabalho que reforça a discriminação: valores atribuídos ao masculino (liderança, astúcia para negócios) são considerados como resultado de investimento em aprendizado e que por isso deve ser bem remunerado, enquanto que os valores associados ao trabalho feminino (cuidado com outras pessoas, destreza manual, artesanato, trabalho doméstico) são considerados um dom, sem investimento em aprendizado, e que por isso não mereceriam remuneração ou teriam valor menor que o trabalho masculino. É necessário romper essa barreira, mostrando que o trabalho feminino também decorre de investimento em aprendizado, para que diminuam as desigualdades no mundo do trabalho.

Uma questão importante que foi abordada é a alegação de que mulheres não ascendem a cargos de liderança porque não podem trabalhar até mais tarde, dobrar turnos ou viajar. Natalia desmontou esse argumento lembrando que ele não é sequer mencionado quando a área de trabalho é considerada feminina (como nos longos turnos de profissionais de saúde e viagens constantes de aeromoças). Ou seja, o discurso empresarial é discriminatório, negando às mulheres o direito de atuarem em áreas consideradas masculinas.

Durante a conversa foi mencionada pela participante Rose Vargas a tese da profa.Ângela Maria da Silva Gomes, defendida na UFMG em 2009. A tese Rotas e diálogos de saberes da etnobotânica transatlântica negroafricana: terreiros, quilombos, quintais da Grande BH [PDF]. A pesquisa analisou as plantas indicadas em terreiros de candomblé, concluindo que são as mesmas plantas que nossas antepassadas tinham nos quintais e usavam para cuidar dos doentes. Ao rastrear a origem dessas plantas, a pesquisa identificou que são de origem africana. Esses saberes não são nem reconhecidos nem valorizados, invisibilizando a história das mulheres negras.

Um ponto em comum em diversas falas foi a nítida preocupação de todas em relação à conquista e manutenção de direitos para as mulheres. Como possíveis caminhos a serem seguidos, Maria Izilda considera que é importante resgatar a história das mulheres, que corre o risco de ser apagada. Além disso, é necessário tirar as questões das mulheres da marginalidade, desenvolvendo pesquisas aliadas com ação política.

A participante Fabíola observou que programas como o Proerd influenciam as crianças, modificando seu comportamento e levando a discussão para dentro de casa. Ela questiona: por que a gente não consegue fazer programas como esses para entrar nas casas e modificar o comportamento de todas as pessoas, a começar pelas crianças, para diminuir as desigualdades entre mulheres e homens?

Natalia Pietra considerou que a história de qualquer coletivo, inclusive das mulheres, é uma história em construção, não linear, com avanços e recuos. Ela acha que é necessário estarmos atentas a movimentos de recuo (como a atual transformação do 08 de março em data de consumo, e não de luta), pois estão esvaziando datas de luta e reflexão, aumentando as desigualdades entre mulheres e homens.

Mulheres, costura e feminismo

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Uterus skirt, criada por Lucy, da Hissyfit: 'cus it's not your body, it's your clothes that suck

Outro dia compartilharam no falecido GoogleReader um post do qual discordei bastante, e que gerou uma conversa bem interessante nos comentários. Mas como em seguida o Google matou o GReader, não me lembro mais o link, nem tenho como reproduzir a discussão aqui. No fim das contas, o que importa não é o blog, mas a ideia errada que ele trouxe: o post afirmava que o feminismo é o culpado pelas gerações mais novas não terem aprendido a costurar.

A mídia divulga a ideia errada de que o mundo piorou horrores por causa do feminismo. Mesmo quando as alterações podem ser explicadas por meio da economia e da sociedade de consumo acaba sendo mais cômodo inventar que a culpa é do feminismo: essa é uma boa forma de acabar uma discussão sem passar pelos pontos sensíveis, como o trabalho escravo nas fábricas de roupas e o fato de costureiras autônomas receberem pouquíssimo pelas peças produzidas para atender a indústria de fast fashion.

Cabe a nós, feministas, gastarmos parte do nosso tempo resgatando a história do feminismo para mostrar exatamente onde estão as mudanças, e o que o feminismo tem a ver com elas. Já falei antes do mito da lavadora de roupas como emancipação feminina e da relação entre mulheres e trabalhos manuais. E agora vou falar de costura.

Todas as mulheres das gerações antigas sabiam costurar e bordar, pois não era possível comprar roupas prontas sem gastar fortunas. Muitas mulheres sobreviveram (e ainda sobrevivem) de seus trabalhos manuais, seja fazendo roupas para a família, seja vendendo as roupas que criavam. As mais ricas pagavam costureiras (e algumas até tinha costureira particular, que era mais uma das empregadas domésticas). A mudança nesse sistema veio quando lojas começaram a vender roupas industrializadas e baratas, produzidas em massa, usando tecidos impossíveis de serem costurados casa (malha, tecidos elásticos e sintéticos não eram suportados por máquinas de uso doméstico). E aí, o que era chique (ter roupa feita sob medida) virou brega e foi pro ostracismo. A regra, ainda hoje, é comprar roupas prontas (são bem mais baratas) e só ir à costureira pra fazer pequenos ajustes ou consertos. E as costureiras hoje têm de procurar fazer o acabamento ser o mais próximo possível do industrializado.

Camiseta criada por Alix Primeau: "We will take back the words that were invented to hate, marginalize and alienate us"

E por que as mulheres pararam de aprender a costurar?

Acho mais fácil explicar por meio de um exemplo pessoal: minha avó foi costureira por um período, e estava bem longe de ser feminista. Ela não ensinou minha mãe a costurar. E minha mãe, que também não é feminista, fez curso de costura antes de se casar, e não me ensinou a costurar.

Quando lamentei com minha avó que eu não sabia costurar, ela me disse que não importava: era preferível que eu gastasse meu tempo estudando pra ter uma profissão com diploma e que me garantisse um bom salário e carteira assinada. Costura (e qualquer trabalho doméstico) podia ser divertido ocasionalmente, mas era profissão cansativa, informal, ruim para a saúde (costurar muitas horas por dia resulta em fortes dores nas costas e problemas de vista), e que não renderia dinheiro nem status igual ao que os estudos poderiam me proporcionar. Ela se tornou costureira porque não teve acesso a nada do que eu estava tendo, e deixou bem claro que, se pudesse escolher, teria optado por estudar e desenvolver outras habilidades melhor remuneradas e com garantias trabalhistas.

Minha avó viveu a transição entre costurar as próprias roupas e comprá-las prontas. Para ela, não valia a pena ensinar algo que estava ultrapassado e que não garantiria, como nas gerações anteriores, uma economia para a família e fonte de renda em emergências. É isso, muito mais do que a recusa em seguir os estereótipos relacionados a atividades femininas, que fez com que as novas gerações não aprendessem a costurar.

Hoje eu estou aprendendo a costurar por conta própria. Herdei uma máquina de costura, pesquisei dicas na internet, comecei fazendo almofadas, e venho criando algumas coisinhas interessantes nas horas vagas. Gosto de ter autonomia para personalizar minhas roupas, fazer pequenos ajustes e inventar peças únicas.

Tenho consciência de que sai mais caro fazer roupas em casa do que comprar prontas, e que o uso que dou para a costura está bem distante da época da minha avó. Pra ela era obrigação para com a família: fazer economia e ter a possibilidade de renda extra. Pra mim não tem a carga de obrigação doméstica que tinha para a geração dela. É uma diversão, apenas. Ou, se algum dia eu quiser profissionalizar a costura, vai ser por escolha pessoal dentre várias alternativas, e não como uma obrigação em relação à economia da minha família.

Bolsa de algodão não-alvejado, criada por Sarah Julia Clark

E onde entra o feminismo nesses pontos de costura?

  • Questionando o trabalho doméstico antigo, que incluía costura entre as atividades não remuneradas das mulheres
  • Questionando a obrigação das mulheres saberem trabalhos manuais para serem consideradas mulheres prendadas (e, portanto, mais cobiçadas no mercado matrimonial, pois seu trabalho não-remunerado em costura geraria ganhos econômicos para a família)
  • Questionando a ausência de direitos trabalhistas e as péssimas condições de trabalho das costureiras (uma das histórias que originou o 8 de março se refere a greves e ao incêndio em uma fábrica de roupas), seja trabalhando em fábricas, seja trabalhando em casa enquanto se dividem entre o cuidado com as crianças e a realização de todo o trabalho doméstico
  • nas gerações mais novas, fazendo craftivism ao usar os trabalhos manuais como forma de questionar o machismo, empoderar mulheres, estimular o faça-você-mesma, criar personalizações, reciclar peças, incentivar a produção local utilizando materiais ecologicamente corretos.

Vulva Lovin' Zip Pouch, uma das "Vulva arts" criadas por Jessica Marie

Hoje os trabalhos manuais estão voltando à moda. Críticas ao consumismo, substituição das sacolas de plástico pelas de tecido, necessidade de personalização de roupas (não só pela monotonia das roupas disponíveis, mas porque os tamanhos de roupas estimulados pela indústria da moda desprezam a existência de diversidade corporal), moda como forma de ativismo e empoderamento estão no foco das discussões envolvendo costura.

É muito bom ver artistas das novas gerações criando peças que mesclam feminismo, costura e bordados, como as das imagens deste post (todas elas vendem essas peças em lojas no Etsy; clique nas imagens para acessar as respectivas lojas).

Mas ainda precisamos falar mais sobre a situação precária da maioria das costureiras, e sobre o quanto a costura, por ainda ser vista como atividade informal e predominantemente feminina, não recebe a atenção que merece na hora de organizar cooperativas e discutir direitos trabalhistas. Costumamos falar apenas do glamour da moda, mas nos esquecemos das milhões de costureiras sendo exploradas em nome desse glamour.

Portanto, é importante colocarmos a culpa nos pontos certos. Feministas não foram as responsáveis por diminuir a importância da costura, muito menos por “proibir” (até porque feministas não têm poder para proibir nada) a transmissão de conhecimentos. Feministas são responsáveis, sim, por questionar as motivações em torno das atividades manuais e por criticar a forma como as pessoas fazem vistas grossas para a precariedade do trabalho das costureiras.

Feminazi: ignorância a serviço do conservadorismo

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Tenho visto com alguma frequência várias homens se referindo a feministas como “feminazis”, associando erroneamente o feminismo ao nazismo. Alguns deles até fazem ressalvas do tipo “feminazis são as feministas que eu considero radicais”, repetindo o erro clássico de querer classificar as mulheres de acordo com seus preconceitos. Feministas não-radicais, para eles, são as que defendem direitos das mulheres, desde que concordem com o que eles acham que são direitos das mulheres.

Feminazi é um termo que mostra completa ignorância a respeito não só de feminismo e luta pelos direitos das mulheres, mas de conhecimentos básicos de história. Feministas foram perseguidas pelos nazistas, que tinham uma visão extremamente limitada: mulheres deveriam obrigatoriamente ser mães, portanto estudos superiores e creches foram limitados, e aborto e métodos contraceptivos foram proibidos. O discurso feminista de emancipação das mulheres foi atribuído aos judeus, aumentando os motivos para persegui-los. A política nazista é anti-feminista, como bem demonstrou Kate Millett.

Em suma: feminazi é um termo que denota ignorância ou má-fé de quem o profere, pois vai contra tudo o que se sabe sobre nazismo e sobre feminismo. Feminazi é um termo que só é utilizado por conservadores para tentar desqualificar quem luta pela implementação dos direitos das mulheres.

Em 1980, Gloria Steinem escreveu “Se Hitler estivesse vivo, de que lado estaria?”, criticando os conservadores antiaborto por associarem feministas a nazistas (repito: em um caso claro de ignorância e/ou manipulação histórica). Ao compilar esse e outros artigos no livro “Memórias da Transgressão”, Gloria Steinem explicou no prefácio o contexto no qual escreveu o artigo. Vou transcrever essa explicação aqui, pois estamos passando por momento semelhante, no qual corre-se o risco da mídia importar o termo feminazi, fazendo vistas grossas para o fato de se tratar de uma manipulação conservadora:

Há dezesseis anos “Se Hitler Estivesse Vivo, de Que Lado Estaria?” foi escrito para expor o fato de grupos antiaborto tentarem equacionar judeus com fetos e aqueles que apóiam abortos legais, fruto da escolha de cada uma, com nazistas. Essa retórica inflamada acabara de substituir uma tentativa frustrada da direita em pintar a legalidade do aborto como uma trama genocida contra a comunidade negra, uma alegação com pouca base na verdade (mulheres brancas estavam e estão mais propensas a se submeter a um aborto do que as de cor). A tática teria sido mais bem-sucedida se não tivesse sido engendrada por uma maioria de racistas brancos que se queixavam também de que “o mundo ocidental branco está se suicidando por meio de abortos e anticoncepcionais”. Eu achei que a mídia perceberia o cinismo dessa campanha nova e ultrajante, assim como o fato histórico de que Hitler e os nazistas eram, na realidade, antiaborto. Declarar o aborto um ato criminoso contra o Estado, crime pelo qual médicos e pacientes poderiam ser presos, fechar clínicas de planejamento familiar e banir informação a respeito de anticoncepcionais—tudo isso fazia parte dos esforços nazistas para aumentar a população ariana, eliminando ao mesmo tempo judeus e outros cidadãos indesejáveis de formas mais imediatas.

Hoje, uma década e meia depois, os grupos antiaborto ainda comparam os pró-escolha a nazistas, sem serem interpelados pela mídia. Essa retórica inflamada já causou ou justificou bombardeios e outros ataques terroristas contra clínicas de saúde reprodutiva com uma freqüência de, em média, uma vez por mês. Houve também homicídios e tentativas de homicídios de médicos e funcionários das clínicas.

Teriam resultados tão violentos servido para conter a retórica antiaborto? Acho que não. Pelo contrário, tornou-se parte do mainstream. Rush Limbaugh, apresentador de um programa de televisão e integrante da direita radical, que ganhou popularidade durante o atual recuo contra a igualdade, conseguiu comprimir a falsa equação de feministas com nazistas em uma só palavra: “feminazi”. Em 1992, ao lhe pedirem para definir o termo, ele explicou: “Uma feminazi é uma mulher — uma feminista — para quem a coisa mais importante do mundo é que o maior número possível de abortos ocorra”.

Eu jamais conheci alguém que preencha tal descrição, muito embora ele a despeje sobre mim e sobre muitas outras mulheres. Na verdade, o direito de ter um filho com segurança, assim como o direito de decidir quando e se ter filhos, sempre foi a nossa meta. Por exemplo, uma das maiores batalhas feministas foi a investida contra a esterilização através de coação. A atual ênfase no aborto é uma resposta às tentativas de recriminalizá-lo ou de usar o terror para eliminá-lo de uma vez.

Não obstante, o termo “feminazi” continua sendo usado na mídia como se fosse verdadeiro ou até mesmo divertido. Será que um termo igualmente cruel, e sem base histórica, tal como “nazijudeu”, receberia tratamento parecido? Duvido muito. Quanto tempo vai levar até que a equação de escolha livre do aborto com genocídio — e de feministas com nazistas — tenha sido exposta com tal freqüência na mídia que não mais justificará o terrorismo?

Fonte: STEINEM, Gloria. Memórias da transgressão: momentos da história da mulher do século XX. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 1997. p. 15-16.

Lembranças: vida universitária no governo FHC

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Outro dia me vi contando para colegas de faculdade bem mais jovens como era a educação universitária no governo Fernando Henrique Cardoso e porque eu tenho tanto desgosto por essa época. Achei que seria interessante deixar o registro no blog também, para refrescar as lembranças e lutarmos para que algo assim não volte a acontecer.

Passei a década de 1990 praticamente inteira dentro da UFMG. Primeiro na Escola de Música, cursando formação musical enquanto fazia o segundo grau. Fiz um intervalo de um ano, em 1996 (aqui já era governo FHC), estudando pro vestibular. Depois, cursei a faculdade de Direito. A formatura seria em dezembro de 2001, mas foi em fevereiro de 2002 por causa da greve de servidores.

Lembro-me da aposentadoria em massa dos professores da Escola de Música, pois estavam sendo implantadas novas regras para trabalho e previdência que seriam ruins para os docentes. Mais tarde, vi o impacto dessas aposentadorias na Faculdade de Direito: as vagas deixadas em aberto pelas aposentadorias foi preenchida em sua maioria por concursos de professores temporários (os famosos professores substitutos).

Alunos de pós-graduação ou bacharéis em Direito sem pós-graduação (não havia cursos de especialização, havia pouquíssimas vagas de mestrado e doutorado na UFMG, e o mestrado da PUC-MG só foi implantado em 1997) eram contratados como professores substitutos, recebendo um salário de R$300,00 (baixo, mesmo para a época) para ministrar aulas. Como professores temporários ficavam somente em sala de aula, não desenvolviam pesquisa. As poucas vagas abertas para professores efetivos exigiam dedicação exclusiva, com salários baixíssimos e sem recursos de nenhum tipo para desenvolver pesquisa.

Alunos de graduação que quisessem seguir carreira acadêmica tinham de se dispor a fazer pesquisa e monitoria de forma voluntária, pois as raríssimas bolsas não eram suficientes para todos os candidatos aprovados. A ausência de bolsas afastou alunos que queriam fazer pesquisa, mas que não tinham família para bancar seus estudos: ou trabalhavam (e aí eram recusados na monitoria/pesquisa voluntária, pois muitos orientadores exigiam dedicação em tempo integral), ou se sujeitavam a pesquisar sem bolsa e aguardar pacientemente na fila até obtê-la.

Os prédios onde estudávamos eram ruins, pois não havia um mínimo de preocupação com planejamento ou manutenção. Os elevadores nunca funcionaram a contento, e sempre alguém ficava preso neles. A faculdade de Direito conseguiu fazer algumas reformas em meados da década de 90, alterando um dos prédios (o menos velho) para receber todos os alunos de graduação, e ampliando a biblioteca (que funcionava num porão e passou a ter um prédio acima do porão, com mais mesas para estudo, novas instalações elétricas e até elevador). Porém, o problema da manutenção era sério: quando um professor e meus colegas ficaram presos no elevador da biblioteca e foi necessário destruir sua porta para que eles saíssem, mais de seis meses se passaram até consertarem o elevador e reorganizarem a biblioteca.

Falando em biblioteca, ela era um horror: só tinha livros velhos, mofados, e poucos periódicos estavam atualizados. Estudar na biblioteca era sinônimo de sinusite e alergias. Cansei de estudar lá em época de chuva ouvindo goteiras. Não havia verba para comprarem os livros indicados pelos professores. O D.A. fazia campanhas incentivando editoras a doarem livros para melhorar o acervo.

O período em que estudei foi também o período das greves. A de 1998 é particularmente memorável, pois metade dos professores entrou em greve (eram os professores em dedicação exclusiva) e metade não aderiu à greve (professores substitutos, em estágio probatório, e em tempo parcial que priorizavam atividades não-acadêmicas como advocacia). A greve foi de março a julho, e bagunçou todo o calendário acadêmico por cerca de dois anos. Pra mim, o impacto da greve foi terrível, pois tive aula direto entre março e outubro (primeiro com os professores que furaram a greve, e depois com as aulas de reposição) e o novo calendário bagunçou todo o esquema de férias, que passaram a ser bem curtas, em maio e outubro, totalmente incompatíveis com minhas férias no trabalho. Ter aulas em salas abafadas em pleno 40 graus de janeiro foi algo bastante desgastante, não tinha ventilador que amenizasse o desconforto (pelo que me explicaram, a reforma do prédio para receber as turmas de graduação alterou – pra pior – a circulação de ar).

Quando o calendário voltou ao normal, veio outra greve. E mais outra, e mais outra… quando não era greve de professores, era greve de servidores, ou de ambas as categorias. E todos tinham razão em suas reivindicações: salários baixos, congelados, planos de carreira que só retiravam direitos, e péssimas condições de trabalho.

Não tenho saudade das dificuldades dessa época, e ainda não entendo como um presidente que era professor universitário conseguiu destruir a universidade desse jeito.

Estando hoje novamente na UFMG, vejo o quanto algumas coisas mudaram (mais verbas pra pesquisa, bolsas de monitoria, novos livros – inclusive estrangeiros – na biblioteca). Tem muita coisa que pode ser melhorada (como a manutenção dos prédios e elevadores), mas não tem nem comparação com o pesadelo que foi estudar durante o período Fernando Henrique Cardoso. Às vezes é necessário ver ou viver situações bastante ruins para dar valor quando elas melhoram…