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Comentando o filme Sufragistas (Suffragette, 2015)

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O filme Sufragistas (Suffragette, 2015) tem como grande mérito contar um pouco da história dos direitos das mulheres inglesas. Não é um documentário. Sua perspectiva ficcional omitiu algumas questões bastante importantes. Mesmo assim tem seu valor ao mostrar para as pessoas que até pouco tempo atrás a vida das mulheres (especialmente as inglesas) era muito, muito pior, do que hoje e seus direitos eram bastante limitados. Vou pontuar algumas dessas questões.

Aviso: este post contém spoilers do filme.

Subordinação feminina

Existem lutas feministas que não recebem tanto destaque por serem negociações legislativas longas e pouco emocionantes, como o direito à guarda dos filhos e ao divórcio, o fim do instituto da autorização marital e da figura do chefe de família. Quando vou falar sobre essas lutas costumo ouvir que não são importantes porque só seriam válidas para mulheres ricas. É um raciocínio equivocado, pois a legislação instituindo a subordinação feminina vale para todas as mulheres, não importa se ricas ou pobres, casadas ou solteiras, jovens ou idosas.

Capa de Suffragette, jornal de divulgação da WSPU. Fonte: Museum of London

Capa de Suffragette, jornal de divulgação da WSPU. Fonte: Museum of London

O filme mostra que mesmo mulheres pobres, como a lavadeira Maud Watts, sofrem os efeitos da legislação que impõe a subordinação feminina: o marido fica com todo o salário dela, ele a expulsa de casa sem partilha de bens e sem direito de ver o filho, ele entrega o menino para adoção sem a autorização dela.

Hoje nem Inglaterra nem Brasil têm legislação que trata mulher como subordinada ao marido, e essa mudança só ocorreu por causa de reivindicações feministas. Não reconhecer ou minimizar essas lutas vitoriosas é omitir parte importante da história das mulheres.

Sufragistas x suffragettes

A luta pelo direito de voto feminino está no imaginário popular como a primeira reivindicação feminista, e boa parte de sua fama se deve às suffragettes. Porém elas não foram a única força feminista em ação pelo direito de voto. Quem defendia o direito de voto para mulheres era chamada (ou chamado) de sufragista (suffragist). Por décadas as feministas inglesas estiveram focadas em discussões com autoridades políticas e legisladores, a começar pelo notório apoio de John Stuart Mill em meados do século XIX. A organização mais influente no fim do século XIX era a NUWSS (National Union of Women’s Suffrage Societies), liderada por Millicent Fawcett.

Jogo de tabuleiro. O objetivo é fazer a suffragette entrar no Parlamento. Fonte: Museum of London

Jogo de tabuleiro. O objetivo é fazer a suffragette entrar no Parlamento. Fonte: Museum of London

Em 1903 houve uma ruptura na NUWSS. Emmeline Pankhurst e suas filhas Christabel e Sylvia fundaram a WSPU (Women’s Social and Political Union). Eram chamadas de suffragettes, e não de sufragistas. Aqui temos um problema com a tradução do nome do filme, pois sufragista se refere às militantes que não pertenciam à WSPU, enquanto que o filme é sobre a militância da WSPU. O grande diferencial está no estilo de militância, pois a WSPU se notabilizou por ir além do lobby e mobilizar a opinião pública através de ações violentas, passeatas, greve de fome e bom uso da mídia.

Suffragettes na mídia

O início do século XX foi um período de massificação das comunicações e uso de fotografias em jornais. As suffragettes exploraram muito bem essas inovações tecnológicas. O filme é frágil nesse aspecto, apontando apenas as novas tecnologias sendo usadas pelo Estado para identificar e perseguir opositoras.

Condecoração da suffragette Leonora Tyson por ter feito greve de fome. Fonte: Museum of London

Condecoração da suffragette Leonora Tyson por ter feito greve de fome. Fonte: Museum of London

As suffragettes organizavam passeatas, faziam comícios em locais proibidos, editavam jornal próprio, e revertiam a seu favor o tratamento truculento que recebiam do Estado. Condecoravam as militantes presas, denunciavam as prisões ilegais e violência policial, bem como alimentação forçada nos casos de greve de fome e a legislação que limitava o direito de manifestação. Padronizaram as passeatas usando faixas coloridas em verde, branco e roxo. Os discursos e aparições públicas de Christabel e de Emmeline Pankhurst eram cuidadosamente preparados para causar o máximo de impacto e repercussão, inclusive com forças de segurança femininas treinadas para proteger as Pankhurst da violência policial.

Esse bom uso da mídia realmente fez com que houvesse maior atenção da opinião pública sobre a reivindicação do direito de voto para mulheres e o absurdo da violência estatal contra elas. Aproveitando a boa repercussão, intensificaram suas práticas. A WSPU patrocinou (ou fez vistas grossas) para bombas na casa de parlamentares contrários ao direito de voto para mulheres, destruição de vitrines e janelas, várias tentativas de incêndio (inclusive de um teatro lotado), incêndio de prédios abandonados, destruição de um quadro da National Gallery, bombas em caixas de correio ou corte de cabos de telégrafo para interromper comunicações.

O resultado foi o repúdio da opinião pública, e também rupturas dentro da própria organização. O repúdio não foi só local: a luta sufragista nos demais países (inclusive no Brasil) fez questão de se afastar das suffragettes, não endossando sua atuação nem repetindo suas ações violentas.

O caso Emily Davison

A militante Emily Davison participou de diversas ações violentas da WSPU, passando também pelo processo de prisões, greves de fome e alimentação forçada. É lembrada por ter se jogado na frente do cavalo do rei no Epsom Derby, em 1913. Temos o registro desse momento em vídeo:

Não há indícios de que Davison agiu em nome da WSPU. Também não há indícios que se tratava de um suicídio planejado. A julgar pela quantidade de selos e papeis de carta que estavam com ela, supõe-se que Davison havia planejado divulgar a causa sufragista via cartas que escreveria enquanto estivesse se recuperando no hospital. Não foi isso que aconteceu: após ser atropelada pelo cavalo, Emily Davison ficou inconsciente e morreu alguns dias depois (sempre lembro dela quando dizem que o feminismo nunca matou ninguém). A WSPU patrocinou o funeral, que recebeu ampla divulgação na mídia e foi acompanhado por milhares de pessoas.

E aí veio a Primeira Guerra… e o direito ao voto feminino também

O filme omite o que aconteceu após o início da Primeira Guerra e faz parecer que a WSPU continuou lutando até obter o direito de voto parcial para mulheres em 1916. Essa é uma impressão completamente errada.

Após o início da Primeira Guerra Mundial a WSPU nunca mais reivindicou direito de voto feminino ou qualquer outro direito para mulheres. Emmeline e Christabel Pankhurst se tornaram patriotas, utilizando a estrutura da WSPU para mobilizar soldados, endossar esforços de guerra e combater pacifistas. Elas se opuseram às suffragettes pacifistas e socialistas, abandonando tanto o socialismo quanto a causa sufragista.

A oposição ao voto feminino teve de arrefecer ao perceber que as intensas migrações, mortes e mudanças sociais alteraram o cenário previsto para eleições. Ou a legislação eleitoral mudava, inclusive incluindo mulheres como eleitoras, ou não haveria eleições. O direito de voto (parcial) foi conquistado em 1918. O voto para todas as mulheres foi conquistado em 1928.

Broche esmaltado criado pela artista Ernestine Mills para ajudar na arrecadação de fundos para as suffragettes. Fonte: Museum of London

Broche esmaltado criado pela artista Ernestine Mills para ajudar na arrecadação de fundos para as suffragettes. Fonte: Museum of London

Existe uma tendência de atribuir a conquista do direito de voto só às suffragettes porque elas se tornaram a face mais visível do movimento pelo voto feminino. Mas foi necessária uma série de fatores para que o direito fosse conquistado. As negociações parlamentares feita por sufragistas constitucionalistas ao longo de décadas foram fundamentais e contínuas – permanecendo inclusive nos períodos em que o destaque midiático e o tom das reivindicações estava com a WSPU. A massificação do tema feita pelas suffragettes também foi fundamental para dar visibilidade à causa. As novas tecnologias, escolarização e a Primeira Guerra mudaram costumes, o que repercutiu também nos direitos das mulheres.

Foram todos esses fatores, juntos, e mais alguns, como a dificuldade de realizar eleições nos critérios que vigiam antes da guerra, que resultaram na conquista do direito ao voto feminino. Atribuir essa conquista somente a um grupo feminista bem articulado como a WSPU pode ser bonito na ficção mas é péssimo para entendermos a complexidade de ações necessárias para conquistar direitos para mulheres.

Leia também:

  • Dois posts excelentes em português explicando o contexto do movimento sufragista retratado no filme. Expõem em detalhes as dinâmicas entre classe, gênero e política, e abordam as questões suscitadas pelo filme hoje (como imperialismo e racismo): Lições do passado, questões do presente e Sufragistas, classe, gênero e política
  • O site do British Film Institute (BFI) tem um arquivo de filmes das suffragettes. Também tem muito material do BFI no YouTube
  • No Parliament.uk há um bom resumo do processo de luta pela voto feminino
  • As imagens deste post fazem parte da The Suffragette Collection do Museum of London. O link das imagens direciona para a página específica de cada uma delas, contextualizando sua história.
  • Pra quem gosta de quadrinhos e lê em outras línguas (ainda não tem tradução para o português) um livro muito interessante é Sally Heathcote, suffragette. Conta a história de Sally, uma jovem empregada da família Pankhurst e posteriormente, militante da WSPU. Aborda a questão de classe, os conflitos entre socialistas e pacifistas, algumas das dinâmicas da WSPU, as implicações políticas. Sally é uma personagem fictícia, mas sua história está embasada em documentação de época, devidamente referenciada ao final do livro.

“Teste: você é feminista?”, oito anos depois

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Em dezembro de 2015 o programa Esquenta!, da Rede Globo, fez uma edição especial sobre feminismo. Regina Casé iniciou a apresentação do programa lendo parte do meu artigo “Teste: você é feminista?

Escrevi o artigo “Teste: você é feminista?” em 2008 como forma de facilitar uma discussão sobre o que é feminismo. Lá se vão oito anos! Nessa época havia pouquíssimos blogs feministas e não era tão comum quanto hoje que as pessoas se declarassem feministas. Meu artigo foi bastante divulgado e reproduzido desde então, muitas vezes com problemas de citação e referência errada de autoria.

A minha intenção ao escrever o artigo foi esclarecer uma confusão bastante frequente. As pessoas tendem a considerar feminismo como um movimento para patrulhar comportamentos, odiar homens ou enaltecer mulheres. Esses conceitos são equivocados e atrapalham entender o que realmente importa: feminismo é uma luta por igualdade de direitos para que mulheres tenham os mesmos direitos e oportunidades que os homens.

Todas as situações descritas no “Teste: você é feminista?” e no meu artigo anterior “Direitos e feminismo” são formas de mostrar que o feminismo efetivamente modificou o cotidiano das mulheres por meio da luta por igualdade de direitos.

Em “Direitos e feminismo” exponho uma lista das situações discriminatórias que mulheres viviam cem anos atrás e que foram alvo de reivindicações feministas. No “Teste: você é feminista?”, faço perguntas que permitem perceber o quanto ideias que eram consideradas subversivas ou absurdas cem anos atrás se tornaram parte da sociedade atual, mostrando uma luta bem sucedida por direitos.

Muitas das questões apontadas nesses artigos não estão completamente resolvidas. Temos igualdade de direitos entre homens e mulheres, por exemplo, mas sua aplicação é frágil. Ainda precisamos de legislação específica para combater a violência contra mulheres, especialmente a cometida por parentes, e precisamos também de um esforço gigantesco para aplicar essa legislação de forma adequada. Ainda temos mulheres sub-representadas na política. Ainda temos defasagem salarial e poucas mulheres em cargos de liderança nas empresas. Ainda temos dificuldade em respeitar a autonomia das mulheres sobre o próprio corpo, vida sexual e reprodutiva. Divisão do trabalho doméstico e cuidados com filhos e família ainda são grandes obstáculos. Ainda há discriminação específica envolvendo raça, classe, orientação sexual ou de gênero. O cotidiano das mulheres ainda é permeado de situações machistas e tentativas de diminuir seus direitos. Ainda. Ainda. Ainda. Mesmo assim, precisamos lembrar e celebrar as conquistas feministas pois conseguimos ter hoje uma situação muito melhor que a de cem anos atrás.

O movimento feminista continua bastante vivo, é bem forte nas redes sociais e tem recebido cada vez mais atenção da grande mídia. Mas tem perdido o foco da luta por direitos e dificultado diálogos. Tenho me sentido um pouco de volta a 2004, quando comecei a falar de feminismo e primeiro tinha de tranquilizar as pessoas pra depois explicar que era sobre igualdade de direitos.

É importante retomar a discussão sobre direitos. Ela facilita a reivindicação e aplicação dos direitos, e também retoma o foco para que os direitos já conquistados não sejam perdidos. Um passo importante é conhecer a história dos direitos das mulheres e quais são as reivindicações históricas do movimento feminista. Esses têm sido meus temas desde 2004, não só aqui no blog, mas em minha vida acadêmica, e influenciaram fortemente meus artigos, inclusive o “Teste: você é feminista?”.

Por fim, é necessário lembrar que existem pessoas que respondem Sim às perguntas do teste e se consideram feministas, mas agem de forma a prejudicar mulheres e negar os direitos já conquistados. Espero que essas pessoas percebam a incoerência e a corrijam, modificando o comportamento para continuar lutando pela igualdade efetiva de direitos para mulheres.

Desafios do direito à saúde: laicidade e autonomia das mulheres

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No início de 2015 a revista Radis (Escola Nacional de Saúde Pública – Fiocruz) me solicitou uma declaração sobre o que eu considero desafio para o direito à saúde das mulheres em 2015. Destaquei as questões sobre laicidade e autonomia:

Laicidade nas políticas de saúde e autonomia das mulheres para decidirem sobre seus corpos são temas destacados pela advogada Cynthia Semíramis, doutoranda em Direito na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Temos visto diversos ataques a essa autonomia impactando direitos como aborto, contracepção e situações de violência intrafamiliar, violência obstétrica”, adverte a pesquisadora, que credita esta realidade a uma onda conservadora que procura reduzir mulheres a situações relacionadas a família e maternidade e ignora seus projetos pessoais e profissionais através do “controle médico da vida reprodutiva”. Cynthia alerta para a necessidade de revisão do Código Penal, no que diz respeito à legislação sobre o aborto e para o risco que representam projetos como o “estatuto do nascituro”, que trata o embrião como sujeito de direitos ao mesmo tempo em que trata mulheres como incubadoras descartáveis. “A luta pela legalização do aborto deve ser pensada como uma luta não só por autonomia, mas também contra o racismo, já que são as mulheres negras as maiores vítimas de mortalidade materna”, indica. A pesquisadora acredita ainda que deve-se pensar a saúde como laica, sem interferência religiosa de nenhum tipo. “Não cabe pensar em saúde da mulher apenas pelo viés de uma religião que considera o embrião como superior à gestante, pois existem outras interpretações, e existe uma mulher adulta que juridicamente é sujeito de direitos, tem prevalência sobre o embrião (pois ele só tem expectativa de direito) e por ser sujeito, ela tem autonomia para gerir sua vida”.

Conheça todos os desafios de 2015 à efetivação do direito à saúde no site da Revista Radis.

Mídia: a maior propagadora do machismo

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Dentre as diversas mobilizações, passeatas e marchas ocorridas nos últimos meses, chamam a atenção as manifestações que envolvem direitos das mulheres: Marcha das Vadias, a Marcha pela Humanização do Parto e a Marcha Contra a Mídia Machista.

A Marcha das Vadias se iniciou quando um policial, representante do Estado, optou por culpar as roupas e comportamento das vítimas pelo estupro sofrido, em vez de fazer o seu trabalho de criticar e punir o agressor.

A Marcha pela Humanização do Parto se organizou quando o Conselho de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj) aprovou resoluções que limitam partos humanizados. Essas providências configuram uma excessiva e indevida intervenção médica nas gestações e partos que não são de risco, tornando o nascimento um procedimento necessariamente cirúrgico e sem participação da gestante, além de mascarar os casos de violência obstétrica.

A Marcha Contra a Mídia Machista se insurgiu contra a imagem das mulheres na mídia, seja na abordagem jornalística (especialmente em relação ao jornalismo das Olimpíadas, que ignorava o desempenho das atletas para se focar nos seus atributos estéticos), seja por anúncios publicitários que perpetuam estereótipos ofensivos e por vezes legitimam assédio e estupro.
Em todas essas manifestações, temos mulheres protestando contra a regulação de seus corpos, seja por meio do poder estatal, médico ou midiático. E também temos em comum a crítica à mídia de massa por fazer abordagens que perpetuam o machismo.

Machismo e capitalismo na sociedade atual

Durante séculos, mulheres não foram vistas como merecedoras dos mesmos direitos que os homens. A sociedade foi organizada para negar seus direitos, estabelecendo papéis diferentes para homens e mulheres. Na divisão desses papéis de gênero, as mulheres foram subordinadas aos homens, caracterizando uma cultura machista na qual o homem tem mais poder e mais direitos.

É importante destacar que, na sociedade ocidental atual, o machismo e o capitalismo estão intimamente ligados. O machismo dos séculos anteriores foi reforçado quando da ascensão da burguesia ao poder, trazendo novas práticas. Uma delas foi a mecanização do trabalho e a mudança da estrutura econômica, com predomínio de indústrias e a urbanização. Nesse processo, as primeiras indústrias automatizaram o trabalho que era atribuído às mulheres (como a produção de tecidos e velas), esvaziando sua importância econômica.

A família legitimada pelo Estado burguês é a nuclear, caracterizada por pai, mãe e filhos, com diferenciações entre seus membros. A publicidade ilustra esse conceito com a família de comercial de margarina. O homem deve ser o chefe e provedor. Legalmente, é o líder da família, e existe um código de conduta para agir como tal: não pode chorar, deve solucionar todos os problemas, não pode hesitar, não pode se subordinar a ninguém, não pode ser afetuoso, deve usar roupas sóbrias, deve ser o único provedor. A mulher, subordinada a ele, é que vai gerenciar o espaço privado, decidindo como administrar o dinheiro do trabalho do marido. Os filhos também se subordinam ao homem, e devem aprender a desempenhar seus papéis de gênero adequadamente, sob pena de serem repudiados e expulsos da família.

Para esse sistema funcionar, a mulher tem de ser dócil, submissa ao marido, só se realizar na maternidade e nos cuidados com a família. E, o mais importante: ela precisa gastar. A função da mulher em uma sociedade capitalista é gastar dinheiro, fazer compras, de modo a manter a estrutura econômica funcionando. Se ela não mais produz o que a família precisa, deve compensar isso fazendo compras. Se ela se sente infeliz, precisa ser estimulada a fazer compras para compensar suas frustrações. Se o marido trabalha 14 horas por dia, ela deve fazer jus ao esforço dele gastando o dinheiro para trazer conforto ao homem que lhe propicia um lar.

Obviamente, há várias falhas nesse raciocínio. Ele não acompanha as mudanças sociais, econômicas e jurídicas das últimas décadas, que apontam outras possibilidades. Não inclui famílias homoafetivas, monoparentais, sem filhos ou extensas, e se esquece que mulheres pobres sempre trabalharam e não têm como seguir à risca o modelo “rainha do lar”.

Mas, apesar do óbvio desrespeito à diversidade e à realidade, é o imaginário desse modelo machista de relações de gênero que é imposto a todas as pessoas através de pressão religiosa e do discurso médico e científico propagandeados pelos meios de comunicação de massa. Devido à sua forte influência em todas as camadas sociais, são eles os maiores responsáveis por manter o machismo em nossa sociedade.

A contribuição da mídia para manutenção do machismo

Revistas e sites voltados para o público feminino, em sua maioria, ensinam as mulheres a se enquadrarem em um modelo bastante opressivo. Inventam que elas só devem se preocupar com assuntos sérios (como direitos) depois que lutarem para obter corpos perfeitos, pois estes serão o passaporte para se casar ou obter uma promoção no emprego. Estimulam habilidades domésticas, como cozinhar, para dar prazer aos parentes, filhos e marido (enquanto elas precisam viver de luz para emagrecerem até atingir o ideal de beleza). Criam “defeitos” estéticos para fazerem as mulheres se sentirem inseguras e, em seguida, vendem fórmulas para solucioná-los (podemos falar de celulite, que homens e mulheres têm, mas só nas mulheres que se torna um “defeito”; podemos falar também do racismo embutido em clareamentos de pele ou alisamento de cabelos, e da misoginia que alavanca a venda de desodorantes para disfarçar o odor vaginal). Fazem manuais ensinando a agradar um homem na cama (e até a fingir orgasmos), mas não ensinam as mulheres a se satisfazerem sexualmente nem se lembram de que não são todas as mulheres que são heterossexuais ou têm uma vulva, como é o caso, respectivamente, das mulheres lésbicas e das transexuais.

Para dar um verniz mínimo de legitimidade a esses absurdos, a mídia tradicional se utiliza do discurso das autoridades: médicos, sociólogos, filósofos, religiosos, juristas, todos dizendo como as mulheres devem ser e agir para corresponder ao que determinada divindade espera dela ou ao que a ciência diz que ela deve ser. Na verdade, esses discursos perpetuam a ordem social machista.

A maternidade é considerada sagrada, e a todo momento as autoridades lembram o quanto mães devem ser abnegadas. A cada caso de gravidez resultante de estupro de meninas de dez anos, jornalistas desprezam questões legais (o aborto é permitido em casos de estupro) e atuam como porta-vozes de grupos religiosos para reproduzir comentários contra o aborto, alegando que o destino das mulheres é a maternidade.

Ao mesmo tempo, o discurso médico trata a gravidez e o parto como uma situação anormal que precisa ser intensamente medicalizada, negando a participação ativa das mulheres no processo de gestação. Ao fazerem isso, invertem prioridades: a mulher adulta e capaz passa a ser menos importante que um embrião ou feto – sendo que este só se tornará pessoa após o nascimento.

Há, ainda, a questão da imprensa deslegitimar quem discorda dela: se a pessoa ou grupo não se enquadra em sua ideologia, se está chamando atenção para alguma desigualdade, fazendo alguma reivindicação, a mídia atua no sentido de desqualificar esse discurso, procurando ridicularizar seus emissores e manter a ordem machista.

Podemos lembrar aqui da perseguição midiática às feministas: a aparência das militantes é criticada, suas palavras são distorcidas e chega-se ao ponto de divulgar movimentos antifeministas como feministas. Também podemos lembrar das dificuldades que pessoas negras, homossexuais, transexuais encontram para serem retratadas com dignidade nos meios de comunicação. A regra é sempre estereotipar ou ridicularizar como forma de constranger essas pessoas a aceitarem os papéis que lhes foram determinados.

Nota-se, assim, que a mídia tradicional mantém os papéis de gênero, contribuindo para a manutenção do machismo. O mundo mudou, mulheres conquistaram direitos e modificaram práticas sociais. Porém, não há na mídia tradicional a capacidade de perceber e assimilar essas mudanças, porque é o modelo antigo de papéis de gênero, bastante machista, que precisa ser divulgado para sustentar a todo custo uma estrutura econômica e social obsoleta.

Combatendo o machismo na mídia

A resistência a esse modelo machista, pouco adaptado às necessidades atuais, passa necessariamente pela mídia. Não se trata apenas de fazer uma crítica de conteúdo ou abordagem. É necessário principalmente divulgar e incentivar abordagens menos machistas e mostrar que é possível um mundo diferente, mais diversificado e respeitoso em relação a direitos humanos.

Estamos em uma fase de confronto de valores. A mídia tradicional vem cada vez mais sendo dominada por grupos religiosos (que são bastante refratários aos direitos das mulheres). Seu conteúdo vem se tornando mais conservador, machista e homofóbico. Há o reforço a papéis de gênero e valores do século XIX, como a valorização da virgindade e o repúdio a sexualidades e práticas não focadas em procriação, além do incentivo a atividades diferentes para meninos e meninas.

Cabe à mídia alternativa, preocupada com questões sociais, tomar para si a luta por uma sociedade menos restritiva e excludente para todas as pessoas. As manifestações críticas estão nas ruas, redes sociais, revistas e nos sites não hegemônicos, e precisam ser divulgadas e debatidas. Do contrário, o que se tem é o recrudescimento de um modelo econômico e social machista que limita possibilidades e nega todas as conquistas de direitos humanos, inclusive os direitos humanos das mulheres, das últimas décadas.

Artigo publicado originalmente na edição impressa nº115 (outubro de 2012) da Revista Fórum.

Femen Brazil: o reality show

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Nas últimas semanas as pessoas têm me perguntado qual a minha opinião sobre o Femen. Pelo que já li, não compartilho com as ideias do grupo em relação à prostituição, mas estava esperando para ver como o grupo se desenvolve, e especialmente como seria a adaptação das ideias das ucranianas (que a gente só conhece por vias tortas, através de mil traduções e reportagens que podem não ser confiáveis) ao Brasil. O Femen ucraniano existe desde 2008, mas o brasileiro só começou depois que Sara Winter foi fazer um estágio na Ucrânia em junho deste ano.

Bom, eu continuo esperando maiores informações. E não só eu. Várias feministas [ver lista de links no final deste post] estão questionando o Femen Brazil (é, com Z mesmo) e tentando saber ao certo quais os objetivos do Femen, que vem sendo apresentado pela mídia como o que há de mais importante no feminismo atual. Porém, o que vimos até agora não é nada animador.

Semana passada estouraram no Facebook inúmeras críticas a Sara Winter, porta-voz do Femen BR. Um post antigo dela criticava veementemente a Marcha das Vadias (sendo que em entrevistas recentes Sara afirmou que parte da inspiração do Femen BR se deve à Marcha das Vadias). Também foi criticada por se definir como direita nacionalista, ter tatuado uma cruz de ferro e considerar Plínio Salgado, Ronald Reagan e Getúlio Vargas (notórios opositores dos direitos das mulheres) como pessoas que a inspiram.

Em resposta às críticas, o Femen BR publicou no facebook uma nota dizendo-se apolítico (lembrando que feminismo é um movimento de caráter político). Tentaram consertar para apartidário, mas a confusão nos comentários foi tanta que apagaram o tópico. Sara Winter pediu que enviássemos perguntas, fez uma twitcam para se explicar, mas não explicou muita coisa.

A última nota de esclarecimentos Femen BR é rasa, não explicando questões importantes: por que se definem como neofeministas, a qual feminismo se filiam, quais são seus objetivos, quais serão as ações concretas do grupo, etc. Gabi Santos, que chegou a entrar para o Femen BR, fez uma carta aberta explicando por que estava saindo do grupo e reclamando da falta de informações.

O que tem me intrigado é que o Femen Br está em seu início ainda, não é registrado como ong e nem está consolidado, mas já recebe doações, vende produtos e é tratado pela mídia como um grupo feminista tradicional que merece todas as atenções (inclusive entrevista na Marília Gabriela, participação no SuperPop e na CasaTPM).

Cada ação do Femen BR recebe atenção midiática, transformando a criação e ampliação do grupo em um reality show. Sabemos que nudez feminina rende cliques e anunciantes enquanto manifestações tradicionais são descritas como “gente chata atrapalhando o trânsito”. Mas eu não imaginava que o desespero por cliques que caracteriza o jornalismo punheteiro havia chegado ao ponto de divulgarem cada manifestação de 2 ou 3 mulheres de topless pertencentes a um grupo que não disse ainda a que veio.

Enquanto a mídia deslumbrada se dedica ao reality show Femen Br, a blogosfera (especialmente no facebook) mais uma vez faz o que jornalistas se esqueceram de fazer: desconfiar dos silêncios, das respostas fáceis e da falta de diálogo com movimentos sociais:

Enfim, é curioso constatar que a blogosfera tem feito as perguntas incômodas, não respeitado os silêncios e ido atrás das respostas, fazendo o trabalho que jornalistas têm evitado fazer. E agora, como parte do reality show, o que temos visto é a apropriação das investigações pela grande mídia, criando o cenário para demonizar Sara Winter (pelo seu passado) e o Femen Br pelos silêncios.

A novela segue, mas o que me incomoda é que até agora não sabemos exatamente o que o Femen Br quer, ou quais são seus planos, questionamentos e contribuições para o feminismo brasileiro.

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