Por que continuo me identificando como feminista

feminismo-simboloMuitas pessoas entraram em contato indicando o artigo Por que não me identifico mais como feminista, da Helen Pluckrose. Li, gostei muito, e considero que ela fez observações bastante pertinentes sobre as discussões atuais.

Pessoalmente, eu continuo me identificando como feminista porque continuo acreditando e lutando pela igualdade de direitos e oportunidades entre mulheres e homens. Mas entendo o ponto de Helen Pluckrose: estão chamando de luta feminista coisas tão díspares quanto falta de educação, dificuldade de interpretação de texto, ataques ad hominem, silenciamento, ignorância sobre a história do feminismo e até estratégias equivocadas como atacar pessoas que apoiam causas feministas ou insistir nas olimpíadas da opressão, hierarquizando quem sofre mais. Nessa confusão, afirmar que é feminista envolve uma explicação mais longa e cada vez mais necessária.

Quando comecei a me interessar por feminismo, lá pelos idos de 2003 (estava no mestrado ainda), encontrei poucas fontes e muita resistência. Quando falava do meu interesse no tema, tinha de primeiro explicar o que não é feminismo (não é: exagero, ódio aos homens, supremacia feminina, mulheres desvairadas e mal vestidas insistindo num movimento social ultrapassado) pra depois explicar o que é. Quando escrevi o “Teste: você é feminista?” em 2008 já era possível encontrar maior discussão de temas feministas, mas havia muita resistência a se declarar feminista porque a figura da feminista ainda era vista como exagerada e anacrônica.

De uns 3 anos pra cá temos cada vez mais mulheres e homens se apresentando como feministas. Mas tem aumentado também o ruído. Feminismo está na moda e isso se presta a muito mais interpretações, julgamentos e distorções, que levam a equívocos. O artigo de Helen Pluckrose aponta alguns desses equívocos, e eu bem poderia acrescentar mais alguns. Tenho me sentido cada vez mais de volta a 2004, quando eu primeiro tenho de explicar o que não é feminismo pra depois tentar ganhar a simpatia e apoio para temas feministas.

A militância hoje está focada em julgar vida pessoal e silenciar as discordâncias. Não, eu não vou julgar quem 10 anos atrás odiava feminismo e hoje se afirma feminista, nem quem se declara feminista mas não faz parte de um grupo tido como minoritário ou oprimido, porque o que quero e incentivo são contribuições para a igualdade de direitos, e não um julgamento de vida pregressa. Todas as pessoas têm o direito de mudar de ideia, e eu espero que mudem e defendam causas feministas, de preferência sem ter medo de admitir que são causas feministas. É triste quando vejo pessoas, como Helen Pluckrose, que vão continuar defendendo igualdade de direitos, mas não vão se declarar feministas porque foram vencidas pela militância de silenciamento da discordância. E mais triste quando vejo gente que foi tão atacada por militantes que desanimou e deixa de apoiar feministas.

O que eu sei é que existe um teto de aceitação na opinião pública, especialmente quando militantes incentivam perseguições e linchamentos por discordância ou tentam controlar os mínimos detalhes de aparência, discurso e comportamento das pessoas (num processo bastante parecido com violência psicológica em relacionamentos afetivos). Isso gera muita rejeição: pessoas não vão se sentir à vontade para apoiar um movimento social calcado em críticas mal embasadas ou destruidoras, ataques pessoais e em que qualquer tentativa de apoio é tratada como inadequada ou insuficiente.

Aí a moda passa. Daqui a um tempo, feminismo volta a ser assunto de nicho. Temos de novo de colocar os mesmos temas sobre igualdade de direitos e oportunidades em pauta. Explicar que feminismo não é o horror que tanta gente afirma que é. Convencer políticos sobre a necessidade de políticas públicas específicas. E torcer pra situação das mulheres não ter piorado. A pior consequência da moda que foca em ataques pessoais é que ela tira a força da luta por igualdade de direitos.

[Publicado originalmente no Facebook em 1º de março de 2016]

Carta aberta à vadiagem de BH

Desde 2011 construímos e participamos da Marcha das Vadias de Belo Horizonte em uma perspectiva feminista, polifônica, pautada e conduzida por mulheres, com ajuda e apoio de homens. Nosso interesse sempre foi o combate ao senso comum que atribui a culpa à mulher (especialmente pela violência sexual), e também visibilizar questões relacionadas aos direitos e à violência contra prostitutas, contra mulheres negras, lésbicas e transexuais.

Nesse processo procuramos estimular um espaço horizontal e transparente, calcado no respeito e na diversidade. Partimos sempre da percepção de liberdade sexual, autonomia e respeito, bem como da inclusão e diálogo com outros setores. Procuramos o desenvolvimento de atividades em conjunto com diversos coletivos tais como APROSMIG, Palhaças Vadias, Agrupamento Obscena, Coletivo Paisagens Urbanas, Baque de Mina, Espaço Comum Luiz Estrela, Negras Ativas… Buscamos incentivar outras formas de linguagem, como o deboche e as fantasias, tornando as manifestações um espaço lúdico que estimulasse a liberdade e o questionamento de papeis de gênero.

Sem ignorar que algumas de nós já não vínhamos dispondo de tempo e energia para se dedicar à agenda da Marcha, e, com isso, não pudemos comparecer a todos debates presenciais, as tensões que temos encontrado nas tentativas de diálogo na Marcha das Vadias Belo Horizonte dos últimos meses evidenciaram que as participantes atuais não estão de acordo com os valores que orientaram o coletivo até então.

Não cabe aqui fazer a retrospectiva dessa dificuldade de diálogo entre todas as pessoas que participam do grupo de organização do coletivo. Podemos resumir a questão a uma postagem recente em que houve um posicionamento explícito das novas integrantes: ignoraram a construção anterior, criticaram as antigas administradoras da página da Marcha das Vadias BH, demonstraram ignorância a respeito dos critérios que sempre foram utilizados para incluir moderadoras e optaram por implantar uma nova política editorial em relação ao conteúdo a ser divulgado.

Não há informações claras sobre qual é essa nova política, embora perceba-se a mudança de enfoque: a página vem sendo alimentada com conteúdo que reforça a vitimização das mulheres, além de comentários transfóbicos e desinformação sobre exploração sexual e prostituição. Nota-se uma tentativa de hierarquizar situações de violência para privilegiar uma ideia de sororidade polarizada e maniqueísta, pautada na androfobia, transfobia e silenciamento das discordâncias. Isso dificulta o diálogo com outros setores da sociedade, excluindo diversas perspectivas, igualmente válidas, sobre identidade e igualdade de gênero, políticas anti-discriminação e respeito aos direitos de todas as mulheres.

Consideramos que a falta de explicações mais claras sobre a nova política editorial, a tendência a segregar algumas mulheres, a apartar quem expressa discordância a ideias, a reforçar a vitimização das mulheres e a tratar homens como necessariamente agressores ou inimigos – ignorando os debates prévios no grupo acerca de binarismos, identidade de gênero e diálogo com homens – são condutas que não estão de acordo com os valores que nortearam, até então, a criação da Marcha das Vadias de Belo Horizonte.

Se, por um lado, entendemos que divergências, mais que bem-vindas, são necessárias à construção de um grupo de luta que se pretenda múltiplo e polifônico, por outro, consideramos que a existência de qualquer coletivo deva também estar alicerçada em pilares ideológicos comuns, cenário que não pode ser vislumbrado neste momento.

Assim, após quatro anos contribuindo para a construção do movimento, optamos por nos desvincular do seu núcleo de organização, por não estarmos de acordo com as diretrizes que vem sendo propostas.

Nossa luta continua – seja em outros coletivos dos quais fazemos parte, seja nas nossas trajetórias individuais – na busca por mais liberdade, vadiagem e um feminismo que ultrapasse os binarismos de gênero.

Adriana Torres
Cynthia Semíramis
Débora Vieira
Renata de Oliveira Lima

Publicado originalmente no Facebook em 02 de julho de 2014.