FAJE: Colóquio Feminismo 2018

Em 07 de junho participo de uma iniciativa bastante importante da Faculdade Jesuíta de filosofia e teologia: o Colóquio Feminismo, edição 2018.

Em minha apresentação vou analisar a forma como o comportamento feminismo foi moldado e normalizado pela filosofia e teologia, quais são seus impactos ainda hoje, e formas de neutralizar seus efeitos negativos.

A programação completa do “Colóquio Feminismo” é a seguinte:

07/06/2018
14:00: Mesa de abertura
Marília Murta – O humano e a mulher
Nilo Ribeiro Júnior – Entre a erótica e a ética. Pensar outramente o feminino
– Apresentadora e debatedora: Fabiana Salustiano

16:00: Segunda mesa
Cynthia Semíramis – A normalização do comportamento da mulher pela filosofia e teologia
Nina Caetano – O corpo um campo de batalha: performance, feminismo e educação
– Apresentadora e debatedora: Graziela Cruz

19:00: Primeira conferência
Magda Guadalupe – A filosofia e o filosofar no Feminismo como “prática de vida”
– Apresentadora e debatedora: Sílvia Contaldo

08/06/2018
14:00: Terceira mesa
Valéria Dell’Isola – Isonomia e feminicídio
Richard Silva – Hermenêutica jurídica e a Lei Maria da Penha
Apresentadora e debatedora: Patrícia Ferreira Costa

16:00: Roda de conversa
Fabiana Salustiano – A mulher nos espaços público e privado
Vânia Lúcia – A mulher no patriarcado moderno
Janaíne Gonçalves – Uma crítica ao suposto universal e a neutralidade dentro da tradição filosófica
Luz Reyna – Jesus liberta a mulher encurvada
Karen Colares – Antropologia teológica do feminino: percurso e provocações
– Apresentadora e debatedora: Marília Murta

19:00: Conferência de encerramento
Priscila Kikuchi – História e contexto social da Teologia Feminista e seus desafios atuais
– Apresentador e debatedor: Élio Gasda

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Direito à educação feminina

Fiquei muito chocada em 2012 quando soube que Malala Yousafzai Malala_Yousafzai_at_Girl_Summit_2014, na época com 14 anos, foi baleada por defender educação para meninas, se opondo às mudanças jurídicas no Paquistão trazidas pelo Talibã. Fiquei bastante feliz por ela ter sobrevivido e seguir lutando pelo direito à educação feminina. E fiquei mais feliz ainda por ver o reconhecimento do trabalho dela quando foi premiada com o Nobel da Paz de 2014.

Uma das coisas que ouço com frequência é que não precisamos de feminismo no Brasil, que feminismo é importante “lá no Paquistão”, onde defender direito das mulheres a receberem educação pode significar a morte.

Pois bem, “lá no Paquistão” a situação das mulheres realmente ficou bastante ruim com a proibição de escolas, condenando meninas ao analfabetismo e subordinação. Só que isso não apaga o fato de que o Brasil melhorou muito, mas ainda não é tão maravilhoso assim no que se refere a direitos das mulheres.

Para ficar só na esfera do direito à educação feminina (que é o meu tema de doutorado), no Brasil as mulheres têm mais escolaridade que os homens em todos os níveis de ensino. Mas, como demonstram os índices do relatório sobre desigualdade de gênero Global Gender Gap [minha análise do índice de 2011 | análise do relatório de 2014], a alta escolarização não tem revertido em poder econômico e político para mulheres, pois ainda são minoria na política e em cargos de direção, e recebem cerca de um terço a menos que os homens para realizar o mesmo trabalho que eles.

Temos leis obrigando todas as crianças a estudar, e estabelecendo que o currículo escolar é igual para meninos e meninas. Só que a evasão escolar ainda existe, bem como uma série de problemas relacionados à escolarização. Mulheres pretas e pardas têm menor escolaridade que mulheres brancas. Adolescentes grávidas são incentivadas a sair da escola para se dedicar integralmente à maternidade. Lésbicas e transsexuais sofrem perseguição, inclusive institucional, dificultando sua permanência na escola. Também há quem defenda que mulheres não precisam estudar quando se casam com um homem que tem situação financeira melhor que a dela (como se todas as mulheres fossem heterossexuais em busca de um casamento ao estilo do século XIX, e como se estudar não pudesse fazer parte de um projeto de realização pessoal).

Também é bastante frequente a observação de que uma mulher não deve parecer mais inteligente que o homem (seja ele namorado, colega de trabalho ou chefe). E por inteligente, entenda-se: não mostre que sabe, não demonstre que ele está errado, finja que não leu, só fale sobre banalidades.

É possível encontrar pesquisas e matérias que associam educação feminina com dificuldade para se casar como se houvesse necessariamente uma oposição entre casamento e educação feminina. Nem mesmo Hermione Granger, da série Harry Potter, escapou de ter suas escolhas afetivas julgadas por conta de sua inteligência.

Enquanto as pessoas e as mídias continuarem insinuando que mulheres que estudam/são inteligentes não são interessantes nem têm direito a uma vida afetiva, está mantido o discurso que despreza a educação feminina.

Quanto mais desprezarmos o direito das mulheres receberem educação, mais se abrem possibilidades para limitar esse direito. É possível mudar a legislação para criar currículos diferentes para meninos e meninas como cuidar da casa e se embelezar (como era no século XIX e em boa parte do século XX). E também é possível proibir as mulheres de frequentarem escolas, como era na Europa do século XVIII, e como voltou a ser no Paquistão atual.

Este retrocesso no direito à educação das mulheres é um processo que está em curso em muitos países, e cabe a nós tomarmos cuidados para que não ocorra no Brasil também. Aqui temos um grande problema na interferência religiosa, realizada através de um lobby religioso para impedir a superação de desigualdades raciais e de gênero nos espaços escolares. Também há a proliferação de uma cultura que procura aprofundar a distinção entre objetos e atividades para meninas e para meninos, dependendo da cor do objeto e de seu uso. Essas questões legitimam uma separação de gênero que interfere inclusive na educação feminina, dificultando o acesso a determinadas áreas do conhecimento.

Se queremos um mundo melhor para mulheres, é importante valorizar a educação feminina. Não basta defender o direito de frequentar a escola, é necessário criar condições para que mulheres sejam estimuladas a continuar estudando e recebendo benefícios com isso. E é importante que a escola seja um espaço não para reprodução de preconceitos, mas para estimular a autonomia, a capacidade de se posicionar no mundo, enfrentar desafios e defender os próprios direitos. Nesse sentido, há algumas atitudes que qualquer pessoa pode ter para garantir um efetivo direito à educação feminina:

  • Valorize esforços, coragem e capacidade de enfrentar novos desafios, e não a inteligência.
  • Cuidado com o viés de gênero nas referências a atividades em áreas ou temas não tradicionais. É comum um homem receber como feedback “que trabalho inovador o seu!”, enquanto uma mulher costuma ouvir “mas que estranho uma mulher trabalhando este tema”. Ao invés de ser elogiada por entrar em terreno pouco explorado, o recado que a mulher recebe é que está fazendo alguma coisa errada, invadindo território proibido, e não deveria seguir esse caminho.
  • Ainda sobre elogios, tome cuidado para não praticar o sexismo benevolente, reforçando o descaso social em relação a atividades intelectuais femininas
  • Incentive mulheres a estudarem para terem objetivos pessoais ao invés de viver para satisfazer os objetivos dos outros
  • Não repita a mentira de que mulheres inteligentes não tem direito a vida afetiva. Todas as pessoas têm direito a serem felizes seja estudando, namorando, tendo e cuidando de filhos, ou fazendo tudo isso ao mesmo tempo.
  • Combata a evasão escolar e a omissão de professores em situações de hostilidade e discriminação. Não permita que racismo, transfobia, homofobia ou machismo – que ainda são comuns em qualquer escola – interfiram ou dificultem o direito de uma pessoa estudar.
  • Substitua rótulos por escolhas e estimule as pessoas a conhecerem o contexto e assumirem as consequências de suas escolhas
  • Mulheres têm o direito de estudar o que quiserem. Não seja uma pessoa que tenta impedir mulheres de estudarem em áreas consideradas masculinas. Lembre-se de que a própria definição do que é uma área masculina é resultado de um histórico de discriminação das mulheres nessa área
  • Lute por creches, por ampliação do cuidado com crianças e com idosos, por licença parental (e não só licença maternidade). Combata qualquer atitude que vise impedir uma mulher de estudar só porque ela tem filhos, marido ou pais idosos. Procure auxiliar os cuidados com essas pessoas e distribui-los na comunidade ao invés de deixá-los somente como responsabilidade de uma cuidadora só. Gravidez, doença, filhos pequenos, marido ou familiares que dependem dos cuidados de uma mulher não devem ser usados como desculpas para impedir a mulher de estudar.
  • Religião não deve se misturar com direito à educação. Os direitos das mulheres, inclusive o direito à educação igualitária, só existem em um Estado Laico

Quebrando as algemas: pelo reconhecimento jurídico dos relacionamentos não monogâmicos

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Embora divulgue pouco, não é de hoje que venho pesquisando sobre sexualidade e relacionamentos em uma perspectiva feminista. Minha publicação mais recente sobre o tema é um artigo em co-autoria com o prof. Túlio Vianna.

Intitulado “Quebrando as algemas: pelo reconhecimento jurídico dos relacionamentos não monogâmicos”, neste artigo procuramos quebrar os principais mitos que tratam o relacionamento monogâmico como o único válido em nossa sociedade, e também apresentar outras formas de relacionamento não monogâmico.

O artigo faz parte do livro “Criminologia do Cotidiano: Crítica às Questões Humanas Através das Charges de Carlos Latuff”, organizado pelo prof. Rubens Correia Júnior. A proposta foi fazer uma abordagem transdisciplinar envolvendo análises jurídicas, históricas, criminológicas e psicanalíticas das charges de Latuff.

A íntegra do meu artigo com Túlio Vianna está disponível no site Academia.edu: “Quebrando as algemas: pelo reconhecimento jurídico dos relacionamentos não monogâmicos

Neste link estão disponíveis o sumário do livro “Criminologia do Cotidiano” e o prefácio da profa. Vera Malaguti Batista.

O livro está à venda no site da editora Lumen Juris.