Estupro, civilidade e respeito à vítima

Ainda chocada com as notícias dos estupros coletivos de ontem, tanto do Piauí quanto do Rio de Janeiro. O caso do Rio choca mais pelo grau de sordidez.

Tenho evitado mais notícias, até em respeito à vítima, e fico feliz que minha timeline do facebook também seja mais cautelosa. Mas mesmo assim ainda vejo comentários tentando colocar a culpa na adolescente, tentando justificar o estupro, ou tentando negar que vivemos em uma cultura que tolera e tenta justificar violência sexual contra mulheres.

Obviamente, espero que os estupradores sejam encontrados e punidos. Mas punidos pela legislação vigente, e não com escrachos, linchamentos, perseguição ou outros estupros (tanto dos agressores ou de mulheres de suas famílias – porque, dada a reação emocional ao estupro, não duvido nada que vá ter gente defendendo que a agressão se estenda às familiares). De barbárie já basta a que os estupradores cometeram.

Se os estupradores são de uma comunidade, pouco importa. Não interessa se ouvem funk, mpb ou música religiosa. Não importa como a adolescente se vestia ou o que fazia. Também não importam as fofocas sobre supostas vingança e traição: não existe no Brasil nada na legislação que autorize uma “pena de estupro”.

O que importa é que houve um estupro coletivo, planejado, e os estupradores não tiveram sequer o cuidado de esconder que praticaram o crime. Pelo contrário, se orgulharam em divulgá-lo. Esses comportamentos precisam ser coibidos. E pra coibir o primeiro passo é parar de tentar justificar o estupro cometido. O segundo é punir os estupradores.

Estupro é violência, é humilhação, e não deve ser tolerado jamais. Nenhuma pessoa merece ser estuprada. E nenhuma mulher merece ser estuprada nem julgada por ter sido estuprada. Este é um princípio básico de civilidade que precisa ser consolidado urgentemente.

[publicado originalmente no Facebook em 26/05/2016]

Há uma matéria bastante completa no UOL Tab sobre combate aos estupros, e conta com breve participação minha.
Leia também outros artigos meus sobre violência contra mulheres:

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Gerald Thomas e a cultura do estupro

Na semana passada o programa Pânico fez a cobertura do lançamento de um livro do dramaturgo Gerald Thomas. Dentre os participantes da equipe que o entrevistou estava Nicole Bahls. Gerald enfiou a mão debaixo do vestido de Nicole Bahls sem a autorização dela. Ninguém em volta fez nada (nem os colegas de trabalho dela!), apesar do nítido constrangimento de Nicole. A repercussão nas redes sociais foi grande, chegando ao ponto de Gerald Thomas fazer uma nota “explicativa” em que tentava justificar seu ato e se apresentar como transgressor, mas acaba reproduzindo o que há de mais retrógrado e moralista.

O programa foi ao ar no domingo, com direito a pseudo-protestos na porta do auditório, ridicularizações, e a alegação de que no humor vale tudo. Este post não é pra falar do programa, pois tanto Lola quanto Nádia já falaram bem sobre isso. O que eu quero comentar é sobre a reação de Gerald Thomas em si.

Não há nada de engraçado, divertido, normal, merecido ou agradável na situação vivida por Nicole Bahls

Não há nada de engraçado, divertido, normal, merecido ou agradável na situação vivida por Nicole Bahls

Qualquer pessoa (e é importante lembrar aqui que mulheres são pessoas) tem o direito de decidir se e quando quer ser tocada por alguém. Se Gerald queria tocar Nicole, levantar o vestido, ou o que quer que fosse, deveria ter pedido a autorização dela. Simples assim.

Porém, ele não agiu assim. E tentou se justificar da seguinte forma:

Vem uma menina, de (praticamente) bunda de fora, salto alto de “fuck me”, seios a mostra, dentro de um contexto chamado PANICO e eu (que não deixo me intimidar e gosto desse pessoal) entro no jogo e viro as cartas – e os intimido !
[…]
Somos todos da classe teatral e nossa função é apontar as VOSSAS falhas. E se VOCES se revoltam TANTO, então, já fico contente porque os alertei pra alguma coisa. O que? SIM:
1- A mulher não é um objeto. Mas não deveria se apresentar como tal
2- E os homens jamais deveriam se utilizar desse objeto de forma alguma

Gerald Thomas:

  • colocou a culpa na roupa de Nicole
  • acha que mulher deve ser julgada de acordo com a roupa que usa
  • acha que mulher não deve se apresentar como objeto (no caso, usar salto alto, vestido curto e decotado)
  • acha que homens não deveriam se utilizar desse objeto, embora ele mesmo tenha optado por tratá-la como objeto e enfiar a mão debaixo do vestido dela sem que ela o autorizasse a fazer isso

No fim das contas, Gerald Thomas tratou Nicole como objeto para nos dar a “lição” do constrangimento que ocorre quando a mulher ‘se apresenta’ como objeto. Ou seja, ela foi bolinada contra a vontade dela simplesmente porque não corresponde ao que ele acha que deve ser o comportamento adequado para mulheres.

O teor do discurso de Gerald Thomas não é muito diferente do que aconteceu no Canadá quando um policial afirmou que se as mulheres não querem ser estupradas não devem usar roupas de puta/vadias. A reação a essa fala absurda, que se espalhou em diversas cidades, é a Marcha das Vadias. A diferença é que o policial fez um discurso, e Gerald Thomas efetivamente agiu para demonstrar seu ponto de vista.

Em ambos os casos temos homens a dizer como uma mulher deve se vestir e se comportar para ser respeitada. Esquecem-se que mulheres não são objetos. Mulheres têm vontade própria e merecem respeito por serem pessoas, e não por causa de sua profissão, ou de suas roupas, de sua aparência ou do que mais se invente para tentar justificar a violência contra elas.

O que chamamos de cultura do estupro é exatamente essa postura de legitimar agressão de conteúdo sexual a mulheres que não se vestem ou se comportam de uma forma predeterminada (que tradicionalmente envolve ignorar a diversidade e a autonomia das mulheres ao separá-las em duas categorias apenas: ou são santas ou são putas, devendo diferenciar-se pela roupa, aparência e comportamento). Caso não sigam essas regras, são julgadas e constrangidas por meio de assédio e estupro até se enquadrarem em uma das categorias. É um modelo de conduta bastante moralista e inadequado para os dias atuais, pois generaliza mulheres e as trata como subordinadas à vontade e julgamento dos homens. É essa cultura que deve ser combatida e superada para que haja efetivamente igualdade entre homens e mulheres. Enquanto se tratar como “brincadeira” e “merecido” o fato de uma mulher ter tido a saia levantada e ser apalpada contra a vontade, não há como falar em igualdade.

Nem é possível falar que o ato de Gerald Thomas foi inovador e transgressor, como ele quis dar a entender. Esse tipo de abuso é constante na história das mulheres, envolvendo chefes, pais, irmãos, colegas, parentes e inclusive desconhecidos na rua. Todas essas pessoas agem intimidando mulheres, constrangendo-as, afirmando que estão erradas ou que é uma brincadeirinha, colocando a culpa na vítima (o clássico “ela provocou”, mesmo que ela tenha 10 anos ou nunca tenha olhado pra cara de quem a agrediu) ou na roupa da vítima (“mas com essa roupa…”), como se a mulher não tivesse o direito de escolher como viver. Fazem julgamento pelas roupas, esquecendo-se que existem uniformes de trabalho e que nem sempre são discretos (como é o caso das mulheres que trabalham no Pânico ou em outros programas televisivos, que propagam o machismo em seus mínimos detalhes).

Lugar de mulher é onde ela quiser. Roupa de mulher é a que ela quiser. Isso se chama liberdade. E não julgar a mulher por conta das suas escolhas ou aparência se chama respeito. Se você acha que uma mulher deve agir de forma X ou Y, pare e pense no quanto você está desrespeitando a autonomia e as escolhas dela.

Se você vê uma pessoa sendo assediada e constrangida, evite contribuir com a situação e dê um jeito de interromper o assédio. Cabe a cada pessoa que estiver por perto zelar para que quem está em volta não seja agredid@ ou assediad@. A omissão aqui significa compactuar com a agressão. Ou, como diz o velho ditado feminista: o silêncio é cúmplice da violência. Ver uma agressão e se calar é ser cúmplice.

Maio é o mês em que teremos Marcha das Vadias. É época de reforçamos que a liberdade para as mulheres inclui também liberdade para escolher qual roupa queremos vestir, se e quando seremos tocadas por alguém, e que uma vida livre de violência é direito de todas. É época de nos lembrarmos que não precisamos mais nos referir a um certo policial canadense que deu origem à marcha. Temos muitos exemplares tupiniquins se esforçando para serem mais machistas do que ele. Espero que o esforço deles seja em vão.

Publicado no Blogueiras Feministas em 16 abril de 2013.